Um novo ciclo

Foi ainda completamente entorpecida pelos ares distantes que desembarquei de volta naquela ensolarada quarta-feira de fevereiro. Trazia no corpo o perfume de um mato que só existe nos devaneios de quem nunca lá esteve e a cor de pele de um tom acastanhado pela luz de um sol que lá parece irradiar bem diferente do daqui. Eu estava de volta, e apesar da pouca bagagem, o peso que se fazia em meus ombros era suficiente para me fazer hesitar ante a descida. Acho que era saudade. Trouxera comigo toda uma gama de sentimentos novos que apenas tratei de substituir. Minha cabeça perdida em pensamentos ainda não aterrissara no mesmo tempo que meu corpo, provocando um atraso organizacional que alterara a minha percepção do tempo e espaço num complexo plasmar de realidades opostas, mas ainda sim paralelas. E assim tratei de tomar um rumo que desse em qualquer lugar ou num lugar qualquer.

Mesmo achando estranha a sensação de chegar sem ser aguardada ou recebida, voltei. Não digo que não gostei ou que gostei, mas apenas que nada senti. Também não sei se seria uma boa ter ao lado uma companhia, independente do grau de proximidade existente, e ainda mais com meus pensamentos à deriva… Eu não estava ali ainda. Olhava pela janela um dos muitos trajetos aos quais me adaptei, mas não me apeguei. Aliás, há algum tempo não venho mais me apegando a muitas coisas. Também não sei dizer se é bom ou não. Apenas pensei. Pensei no que penso. Pensei no que pensava ou no que pensaria. Pensei até no que pensarei numa próxima vez, se houver uma próxima vez. Pensei tanto que um simples tocar de telefone me assustou ao me despertar do transe no qual eu estava inserida.

Era de lá. Uma amiga. Uma velha amiga. Foi rápido. Falamos da minha displicência com datas e despedidas. Zangou-se pela minha partida em surdina, eu apenas ri. Falaríamos o essencial, banalidades apenas se não fosse pelo teor de uma notícia inesperada que me arrebatou brutalmente do marasmo nostálgico ao qual eu me encontrava anteriormente. Não sei como reagi ao saber, não lembro, mas gostaria de ter visto a minha cara, a minha expressão. Não me recordo o que falei depois do silêncio breve inicial, porém constrangedor, ao qual fui acometida. Susto, eu acho.  Não estava preparada para tal, mesmo sabendo que em nada tal acontecimento me atingiria, e mesmo sem saber o que sentir, congratulei o fato numa confusão mental que se fez presente durante toda a conversa.

“Eu estou grávida”, foi o que ela disse entre risos donos de uma felicidade recente que parece pretender se estender até se perder de vista, mas que ainda oscilava entre o medo e o desejo. Ela estava grávida, foi o que eu ouvi (?). Foi como uma carícia precedida por uma tapa. Uma tapa não, um soco. Se alguma a mais foi dita em seguida, mas eu não ouvi. Minha memória-arquivo imediatamente transportou-se para alguns dias atrás em que juntas tocamos neste assunto de maneira displicente e jovial. As cabeças fervilhando em planos e concretizações individuais, nos quais talvez uma terceira pessoa não se encaixasse muito bem até então. Falamos de estudos, trabalho, dinheiro. Falamos de família também, mas não me lembro especificamente  sobre o quê, esses assuntos nunca atraíram muito a minha atenção.

Não sei se por educação, preocupação ou curiosidade perguntei se isso era apenas uma dedução ou uma constatação. Não era a primeira vez. E já bem mais tranqüila ela me confirmou com um sorriso que eu não consegui decifrar muito bem, mas que eu gostaria muitíssimo de ter presenciado, a entrada dela nesta mais nova etapa tão desejada mas não exatamente aguardada para tão breve, na qual ela concede a própria vida prol de uma outra que ela ainda nem conhece, mas que por alguma razão já a ama. Isso me reconfortou um pouco mais, porém ainda apreensiva sorri de volta.

Ainda não estou acostumada com tais mudanças, mesmo sabendo que elas são previsíveis e presentes. Não foi a primeira vez que me deparei com situações assim. Desta última vez me surpreendi com a quantidade de rebentos que nasceram de amigos que casaram. Não lido muito com isso. Tive amigos que morreram e outros que viajaram, e destes últimos alguns eu nunca mais revi, entretanto isso nunca me desestruturou. Talvez não fossem tão próximos quanto pensei, ou talvez fossem o suficiente para eu compreender, mas quando se trata da formação de um lar não sou tão permissiva assim. Não consigo ver com bons olhos a união de duas pessoas, entendo isso como um aprisionamento. Antes pensava que era ciúmes, depois mera birra, implicância mesmo. Cheguei até mesmo cogitar a possibilidade de inveja, um possível medo de ficar só, mas sei que esse tipo de pensamento nunca me afligiu. Hoje não sei o que pensar.

Quem me vê falar assim pensa que sou fruto de um lar despedaçado e tudo mais, aquelas velhas e chatas deduções psicanalíticas, deduções essas as quais sempre mantive a total aversão.  Contudo minha criação se deu em um ambiente totalmente héterofamiliar de alicerces bem firmados na ética conjugal e na reciprocidade de um sentimento que eu julgo ser amor que dura há mais de 23 anos, e que mesmo assim estranho ao perceber o caminhar da vida por esses vieses.

Soube por esses dias por outras amigas de igual importância que ela vai casar em alguns meses. Fiquei feliz por ela. Por ele também, é um bom rapaz. No fim do ano o guri ou a guria vai chegar e eu gostaria de ver. Gostaria de ver como ela estará. Provavelmente ficará bem, terá casa, marido e filho. Amigas também, mas não mais guerras de travesseiro, nem panelas imensas de brigadeiro, nem banhos de piscinas. Também não haverá mais tardes de filmes, nem madrugadas inteiras de conversas e testes de revistas, nem passeios de bicicletas, nem de banhos de chuva. De agora em diante a postura a se tomar deverá ser outra, uma outra que teremos que descobrir e adotar por respeito, por necessidade, por amor.

Tassia Malena Leal Costa.

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