Não tem nada na Amazônia?

Está próximo o dia em que teremos em nossa terra querida o show de uma banda chamada RESTART. Minha filha ligou para mim na hora do trabalho enlouquecida dizendo onde eu podia comprar o seu ingresso. Seu entusiasmo era tamanho, que fiquei tentada a fazê-lo na mesma hora, mas acabei me atrasando e não o fiz.Em casa foi o assunto do dia. Por isso, a noite, meu filho disse que salvou um vídeo onde essa banda falava mal da Amazônia. Eu não acreditei, mas não seria a primeira vez que isso iria ocorrer com a gente.

E, infelizmente, ele estava certo. Um dos calças-colorida (seria o nome mais adequado para a banda), disse que uma das cidades onde não tocou e gostaria de tocar, era o Amazonas. Primeiro, não é de se admirar que ele não saiba a diferença entre um estado, uma cidade ou mesmo uma região. Confundiu tudo…

Depois ele explicou porque seria legal tocar no Amazonas: imagina tocar num lugar só mato, onde não sabemos nem se tem público, civilização, em que a gente acha que não tem nada…

Coitado desse menino. Coitada da minha filha e da minha sobrinha. Coitados, os tantos adolescentes que compram essas calças coloridas…

Uma banda que não respeita seu público, que não conhece seu país.

Depois do than, than, than, than, um colorido que empobrece a nossa juventude.

Mas, como professora e de naturalidade amazônida, me sinto tentada a pedir que mais uma vez digamos ao Brasil, quem somos nós: o maior rio do mundo, as andorinhas no seu balé, o pirarucu no leite de coco, a super lua em muitos dias de cada ano, vento, vento, o cupuaçu estonteante, o marabaixo e sua tradição, o meio do mundo e seu poder místico, a pororoca e sua força, o açaí, a vastidão do curiaú…

Ah, Restart, o Amapá tem muito a te oferecer, mas eu não te ofereço mais a ingenuidade e a alegria da minha filha e da minha sobrinha. Elas não vão mais ao show.

Isso o Amapá não pode mais te oferecer. Entretanto, desejo que saia daqui refletindo que somos um país ainda bastante ignorante, porque alguns sempre se acharam mais civilizados do que outros, porque alguns sempre acharam que tinham mais a oferecer do que outros, porque alguns sempre se acharam melhor do que outros.

Isso é a tristeza da colonização. Vocês são a tristeza dela e da globalização…, mas égua, não, é melhor parar por aqui, isso são conceitos profundos demais para um calça-colorida.

CARLA NOBRE, POETA, PROFESSORA, MÃE.

SAUDAÇÕES LITERÁRIAS E TUCUJU

3 comentários em “Não tem nada na Amazônia?

  • março 24, 2011 em 10:44 am
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    Professora Carla,concordo com suas palavras e me atrevo a reforçar mais ainda seus comentários. Essa banda reflete a imagem que a mídia tem de todos os adolescentes de nosso Brail varonil, pessoas que se deixam levar pela aparência (às vezes um tanto quanto duvidosas, vide as calças berrantes) e que não se importam em ter pouca coisa pra dizer além de melodias piegas e pouco inspiradoras. Hoje em dia qualquer um pode ser fenômeno de vendas desde que esteja balizado por uma gravadora de prestígio e esteja montado na grana (eles não são certamente favelados, convenhamos). Mas devemos perdoar os ignorantes pois eles não sabem o que dizem… são pobres em desconhecer o que seu próprio país tem de melhor para lhes oferecer. Amazônia, Amazonas, Amapá, nós povo do norte sempre fomos discriminados, ainda existem ingênuos (ou idiotas) que vivem no sul sudeste que acham que em nossas capitais os jacarés são bichos de estimação, que comemos onça no café da manhã e viajamos no expresso-cipó. Uma pena, pois assim que passamos a entender o fracasso no ensino público brasileiro que valoriza demais tudo aquilo que vem d’além mar e minimiza as belezas deste país continental que é o Brasil. Eles virão, tocarão e irão embora da mesma maneira como chegaram: ignorantes mas coloridos. Acho que eles precisam dar um ‘restart’ nos seus neurônios reiniciar suas idéias sobre o norte do Brasil (que são mínimas como percebemos) e tentar começar tudo de novo. Como disse antes: “perdoai, senhor, eles não sabem o que dizem”.
    P.s. quando o Tiririca usava essas calças coloridas ele era PALHAÇO. Quando esses garotos, com seus cabelos de menina, passaram a usar, são MODERNOS… vai entender a mídia!

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  • março 30, 2011 em 4:14 pm
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    Nao gostei do que esses palhaços disseram,sou Amapaense e me orgulho de minha origem.Se eles acham que a gente e indio e vive no mato porque eles vem arrancar dinheiro da gente?Eu ia no show deles mas agora nao vou mais porque se dependesse de mim eles cantariam so pra eles no meio do mato!!!1

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  • abril 2, 2011 em 6:07 pm
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    Com esse modelitos e essa “Suprema inteligência”, eles lembram os Teletubies…

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