Bin Laden e a paranóia global

O pânico que tomou conta do mundo depois que as torres gêmeas do World Trade Center vieram abaixo tem provocado situações tragicômicas. Nem estouro de balões em aniversário de criança escapa à paranóia. Outro dia, numa festinha no hall do prédio onde moro, em meio aos gritos e agitos da meninada, a explosão de um potente balão produziu espetacular estrondo no ambiente que fez adultos e crianças temerem o pior.

– Para mim, parecia o estouro de uma bomba – exagerou uma mãe, agarrando a filhinha contra o peito, protegendo-a sabe lá do que, mas certamente, no fundo, no fundo, culpando Osama bin Laden pelo susto.

Na feira, a cena de terror se repete. Foi um barulhinho de nada, mas para quem está assaltado por centenas de horas de notícias sobre o ataque terrorista aos EUA a coisa toma dimensões de arma nuclear.

Ploft. O ovo, despencando da mão do feirante, espatifa-se na calçada e deixa atônito um aposentado com cara de quem não desgrudou o olho da televisão desde o fatídico 11 de setembro.

– Sou cardíaco, cuidado! – avisa, voltando-se para o feirante que, nas suas costas, lançara aquele míssil.

           Até que a batalha anunciada pelos norte-americanos contra seus inimigos seja fatura liquidada os terráqueos terão que sobreviver a sobressaltos diários. Queda de um Tupolev, de fabricação russa? Ato terrorista, apressa-se a acusar o mundo ocidental. Ameaça de bomba no prédio da Justiça paulista? Quem é o culpado? O juiz Nicolalau dos Santos Neto? Não, ele está preso. É coisa do fundamentalismo islâmico, dizem logo os tomados pelo medo, pecando duas vezes, por acharem que o islamismo não é funtamentalista por definição e que pode, em contrapartida, ser acusado de todo o mal que acontecer no planeta.

            Leão Serva, editor do portal Último Segundo, no recém-publicado artigo “Vai começar a guerra. Prepare-se para as mentiras”, adverte para as manobras da mídia em épocas belicosas, seja por censura ou auto-censura impostas aos jornalistas no front. Quem perde, e sempre, como lembra Serva ao citar frase cunhada em 1917 pelo senador norte-americano Hiram Johnson, é a opinião pública, a manobrada. “A primeira vítima, quando começa a guerra, é a verdade”, disse, profético, Johnson, em plena I Guerra Mundial.

            Vai daí que só depois que senta a poeira dos bombardeios é que se conclui que o ataque não foi tão “cirúrgico” como se apregoou e que as armas usadas em combate não eram tão “inteligentes”. Leão Serva pede aos jornalistas que se recusem a engolir versões que sabem ser discutíveis. Sou litisconsorte na ação.

            A profusão de notícias não-checadas e divulgadas sobre a caçada ao terrorista saudita alimenta a confusão cotidiana, a começar por donas-de-casa temerosas de alguma tragédia na própria cozinha.

            Fhissssssss. O chiado da válvula da panela de pressão, na cabeça da recatada senhora massificada pela enxurrada de notícias sobre a dor planetária, transforma-se em inconfundível som de pavio aceso de bomba prestes a explodir. O inofensivo feijão vira petardo.

            Enquanto nos apartamentos a televisão despeja o medo, o elevador que leva e traz os convivas da festinha infantil resolve aprontar. Engata no segundo andar e desata a fragilidade humana diante de um simples problema mecânico. Uma senhora, com bebê de colo, grita desesperadamente por socorro, como se naquela prisão momentânea estivesse forçada a dividir cela com o próprio bin Laden. Deus me livre, deve ter pensado depois,  já refeita do ataque esquizofrênico.

            Êpa, que som estranho é esse que está saindo do meu computador? Eu, hein? É melhor desligar.

Por Euclides Farias – jornalista

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