Em Macapá, as meninas não fazem nenhuma cerimônia para se beijarem em público

Em São Paulo (SP), comenta-se informalmente que em faculdades garotas adultas estão se cumprimentando com um beijo na boca, uns “selinhos” e estão ficando. Há também informes de que em festas de adolescentes, enquanto os meninos não chegam, garotas adolescentes se beijam ou dão”selinhos”, ou se “amassam”, e quando os meninos chegam, continuam as “ficadas” e os “amassos” com os meninos.

No interior de São Paulo, as adolescentes meninas também estão se dando oi com “selinhos”. Comenta-se que em outros estados a situação se repete. Parece que algumas vezes é mais do que um “selinho”, é uma “ficada” E não são somente as adolescentes que apresentam este comportamento, mas também há as adultas jovens (idade variável entre o final da adolescência e a conclusão da faculdade) que estão se liberando.

Trata-se de mais um movimento de grupo que soa como uma pequena ou grande revolução, dependendo da interpretação. Não está claro se este movimento é geral ou acontece apenas em alguns pequenos grupos. Não tenho dados estatísticos para afirmar se é uma mudança de comportamento, ou insisto, são pequenas tribos ou grupos que estão vivenciando estas mudanças de conduta.

Ouso pensar que este tema acontece com uma expressão maior neste ano.

Há uma conjunção de fatores envolvendo a mídia escrita, os jovens, os programas de TV e valores que vêm sendo desenvolvidos pelos jovens, famílias e sociedade. Tem-se falado bastante sobre sexualidade, o que desperta curiosidade e estimula condutas.

Parece que está acontecendo mais um movimento de abertura, de poder haver mais possibilidades, de alternativas de condutas, de outras formas de relacionamentos, de se constituir outras alternativas vinculares. Ou por outro lado, podemos até pensar que está havendo uma simplificação no se relacionar sexualmente e prazerosamente, e que o importante é se encontrar uma “boca” quer seja de menino ou de menina. Soma-se a este movimento de discussão, o fato de haver uma maior aceitação e aprovação da sociedade em relação aos relacionamentos homossexuais, masculinos e femininos.

E agora temos estes “selinhos” e “ficadas” entre algumas garotas. Por que elas têm feito isso?

Por que as meninas estão ficando com outras meninas?

As possibilidades são:

1ª) Estas adolescentes meninas podem estar vivendo um movimento de maior rebeldia e de afirmação, tipo ” nós somos independentes dos meninos, temos agora um novo ritual de iniciação sexual, se vamos namorá-los ou não, resolveremos depois, agora vamos ficar entre nós que pode ser muito bom, pode ser suficiente”. Portanto, um movimento de maior auto-afirmação e de reforço da auto-estima.

2ª) É de estarem buscando um momento maior de erotismo para em seguida encontrarem os adolescentes garotos. Um pouco no movimento semelhante que algumas baladas andam promovendo, primeiro só entram as meninas e há um show tipo clube das mulheres/garotas com stripper’s e, na seqüência, é permitida a entrada dos rapazes na balada.

3ª)  Podemos estar tendo um movimento destas adolescentes meninas de assumir mais publicamente contatos e relacionamentos homossexuais, configurando uma exposição mais pública de algo que era mais oculto. Aqui podemos encontrar meninas usando cabelos curtos como meninos e usando bermudas típicas de skatistas.

4ª) Pensando nas garotas adultas jovens, tanto a segunda e terceira possibilidade cabe como raciocínio possível, e acrescento mais uma onde, na possível falta de atenção por parte dos rapazes – tenho ouvido queixas de que faltam rapazes que queiram se comprometer em um relacionamento amoroso – as garotas possam ficar entre elas, significando que são várias que estão na mesma posição, sozinhas, porém, uma ajuda a outra, não na linha do conformismo, mas sim de apoio e sustentação mútua.

Quais podem ser as conseqüências desse movimento?

Sendo um modismo passará na mesma velocidade que chegou. Se persistir será  necessário uma investigação mais profunda para avaliar as repercussões e mudanças que causarão no restante do grupo de garotas, pois poderemos ter desde uma aceitação e tolerância, até movimentos de resposta grupal como respostas mais conservadoras, de crítica, rejeição e discriminação.

Vivências da fase teen podem ser transitórias

É Importante relembrar que situações e vivências experimentadas durante a adolescência podem ser transitórias. Isto porque esta fase caracteriza-se por um movimento de definição de identidade e de personalidade, inclusive de identidade sexual com sua opção. Mas na fase seguinte, de adulto jovem, esta situação se consolida e se torna definitiva com menos chance de mudanças.

E os pais como ficam nesta história?

Recomendo que participem o máximo possível deste movimento. Saibam o que está  acontecendo, aproximem-se da sua filha o máximo possível, dialoguem e dialoguem, abram todos os canais de comunicação, a fim de que descubram se sua filha está participando deste movimento e qual é a razão que ela apresenta. Respeitem seus próprios valores, e a partir daí, estabeleçam a mediação que for necessária.

Ao perceberem sinais de sofrimento, tristeza e angústia persistentes, procurem ajuda especializada. Fica a certeza de que vivemos tempos de revolução e de insatisfação social. Por isso a busca do diferente e do alternativo continuará.
Por Irany Ferreira