Waiãpis e agricultores dizem pra onde deve ir dinheiro do Estado do Amapá

Um público de índios, agricultores, parteiras, autoridades do município  e moradores reuniram com gestores e técnicos do Governo do Estado para decidir o futuro de Pedra Branca do Amapari nos próximos anos. O PPA (Plano Plurianual Participativo) colocou no mesmo espaço, a escola Maria Helena Cordeiro, mais de quinhentas pessoas que terminaram a última sexta-feira, 20, com definições do que é prioridade para a cidade, dando sugestões para serem incluídas no orçamento Estadual. “Vim porque preciso dizer o que eu penso que é importante pra nós, só o fato de poder conversar com o governador e os secretários já basta, quero olhar nos olhos deles e sentir se posso acreditar que eles vão nos ajudar”, disse Martinho Valadares, de 70 anos,morador de Pedra Branca há mais de cinco décadas.

Esse é um dos objetivos do PPA que está levando para todos os municípios a oportunidade do povo discutir com os gestores onde os recursos públicos devem ser investidos. A Caravana Itinerante, formada por secretários e técnicos, já esteve nos municípios de Amapá, Calçoene, Targarugalzinho, Pracuúba, Ferreira Gomes e agora Pedra Branca. Nestas cidades qualquer pessoa inscrita pôde se manifestar e dar sugestões nessa primeira etapa do PPA, que é a Escuta Popular. O governador preside a mesa acompanhado dos secretários que respondem às reclamações e dúvidas de imediato. As sugestões da população entram para o banco de dados do PPA. No horário da tarde eles dividem-se em grupos onde as sugestões são discutidas ponto a ponto com os técnicos do Governo e são eleitas as prioridades daquele município.

Agricultores – “Tenho sugestões e quero saber se o governador pode melhorar a vida de quem é agricultor, não temos transporte para levar o que produzimos para Macapá, vendemos só nas feiras daqui, quero também que o governador nos dê uma despolpadeira, porque tiramos a polpa manualmente, e melhore os ramais, eu acho que isso é prioridade”, disse Hugo Morais, conhecido como Tabajara. Pioneiro na cidade, ele foi um dos primeiros moradores de Pedra Branca onde chegou para trabalhar no garimpo e ajudou a desbravar as minas que hoje são uma das maiores riquezas do Estado e atraem multinacionais que exploram ouro e ferro. “Fui um dos primeiros moradores, vi essa cidade crescer e, assim como o meu amigo Martinho, não sairei daqui, quero ver Pedra Branca bonita e por isso vim contribuir, não adianta ficar só reclamando”, afirma seu Tabajara.

Com cerca de 10 mil moradores, Pedra Branca é rica em minério e foi essa riqueza que atraiu pessoas como seu Tabajara e Martinho, e também grandes mineradoras. Hoje duas empresas exploram as lavras, o que é tema de debate constante entre moradores, ecologistas e autoridades, principalmente por causa das compensações para a cidade. Tirando da terra seu sustento desde que chegou em Pedra Branca , primeiro como garimpeiro e agora como agricultor, seu Tabajara espera que o PPA ajude o município a ser uma cidade promissora, não só pela riqueza mineral e agrícola, mas também por outros atributos, como o turismo. Fazem parte do município 14 localidades, a maioria cortada  por  igarapés e pelo rio Amapari, que é conhecido pelas pequenas cachoeiras. O vereador Raimundo Nonato concorda com seu Tabajara e em sua fala ressaltou que o potencial turístico é prioridade e deve ser incluída no PPA. Para o governador, essa é a maneira mais democrática de governar. “Viemos aqui pra ouvir e queremos dar respostas, mas é importante que todos participem e dêem sugestões, queremos planejar o Estado com a ajuda de todos”, disse Camilo.

Nos municípios onde o PPA já foi discutido são ouvidas aproximadamente 25 pessoas incluindo as lideranças que falam em nome de determinados grupos ou segmentos. Quando a  Escuta Popular passar por todos os municípios começa a segunda fase, de conferências, quando as prioridades dos municípios são agrupadas por região, ao todo seis, e novamente passam por avaliação do povo, eleitos delegados, e dos coordenadores do PPA. Após estas etapas, que encerram em julho, acontece a Assembléia Final cujo resultado é inserido no Planejamento Estratégico do Governo e encaminhado para a Assembléia Legislativa onde será votado ou adaptado e incluído no Orçamento Estadual para ser executado entre 2012 e 2015.

Waiãpi – Em Pedra Branca as prioridades não são diferentes das apontadas nos demais municípios. Educação, saúde, infraestrutura e energia elétrica são os problemas reclamados em todas as cidades onde o PPA foi realizado. O diferencial na cidade foi a demanda apresentada por indígenas, que representam um número expressivo de moradores. Ao todo 53 índios Waiãpis participaram representando os 995 índios que moram em 48 aldeias distantes 100 km da cidade. Kumare Waiãpi explicou que a população indígena cresceu muito e precisa muito de atendimento médico e ensino médio. “Índio não morre de doença complicada, temos muita malária, gripe e diarréia, essas doenças não esperam, precisamos do Estado, a  Funasa não foi boa pra gente, esperávamos mais, queremos saúde e viemos aqui pedir que o governador olhe com atenção pra esse problema”, disse Kumare.

Caubi Waiãpi, líder da aldeia Comunidade Triângulo do Amapá-CTA, disse que gostou de ouvir no encontro que vai se implantado  ensino médio nas aldeias, onde hoje só estudam até a 8ª série. Ele é um dos poucos que continuou os estudos e está  se preparando para apresentar o TCC em Educação Superior Indígena. ‘Tive que ir para Oiapoque estudar, falo tupi, que é a língua falada na aldeia, português e francês, mas tive que me esforçar muito. Quero que outros irmãos meus índios estudem e voltem para as aldeias pra ensinar o que aprenderam”, disse Calbi. Participante da discussão em grupo, que ocorreu à tarde, ele disse estar gostando da experiência. “O PPA é digno e honesto, estou aqui brigando por melhorias e acredito que vamos ser beneficiados”, disse o líder.

O governador Camilo ouviu os moradores, encaminhou demandas para os secretários que responderam de imediato e também deu explicações. “Estamos discutindo especificidades em Pedra Branca , como a questão indígena, a importância do PPA é essa, a oportunidade planejar o futuro com a participação de todos, não viemos ouvir e ir embora, queremos dar respostas”, disse Camilo. Para ele, o PPA está dando subsídios e informações sobre todos os setores que estão ajudando o Governo. “Sem essas informações não vamos longe, sabemos dos problemas mas é bom escutar de quem sofre com eles, queremos que Pedra Branca se desenvolva, que as mineradores explorem com responsabilidade e gerem emprego e renda e dêem a contribuição social para a cidade”, finalizou o governador.

Hoje, 24, a Caravana Itinerante está em Porto Grande e na próxima sexta-feira seguem para Serra do Navio, completando a Escuta Popular na Regional 2, formada pelos municípios da chamada Região do Araguari.

Mariléia Maciel

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