Escolho moderno da tradição cocaleira

Bruno Peron

Nos arredores do Mercado Campesino, na capital constitucional Sucre em fevereiro de 2011, notei algumas senhoras que vendiam vultos de folhas de coca e cigarros em barracas. Extraíam maços cocaleiros de um saco enorme, separavam-nos em embalagens pequenas e vendiam-nos por cinco ou dez “bolivianos”, nome popular da moeda nacional.

Bairros de Potosi também dispõem do frasco plástico de álcool potável Ceibo 96° GL – mais forte que o álcool de cozinha – e dinamite caseiro à venda e em estante compartilhada com cigarros e o típico saco com folhas de coca aos mineiros que enfrentam o “queijo suíço” subterrâneo que se tornou aquela uma vez rica e próspera cidade.

O refrigerante Coca-Cola tem um acesso tão grande, livre e penetrante ao “mercado” boliviano que abala a ubicuidade da folha de coca neste país andino. O consumo desta planta arrasta-se ao longo de séculos na Bolívia, porém receia-se a perda de mais uma tradição indígena entre tantas outras que cederam à conveniência dos estrangeiros.

O estorvo reside na presença da folha de coca na lista de entorpecentes da Convenção Única das Nações Unidas sobre Narcóticos, de 1961, a que a Bolívia aderiu-se em 1976. O país, deste modo e depois de tanto tempo, está prestes a evadir o tratado por discordar da criminalização da folha de coca, por motivos culturais e evidentemente econômicos.

Primeiramente a mastigação da folha de coca é hábito popular em países andinos para lidar com altitude elevada, evitar doenças e controlar a fome. A Constituição boliviana promulgada em fevereiro de 2009 declara que a coca não é estupefaciente em seu estado natural e que o Estado protege esta planta como “patrimônio cultural” e “fator de coesão social”.

O segundo pretexto de rescisão do acordo resume-se na constatação de que Bolívia, Colômbia e Peru são os três maiores produtores mundiais de coca e cocaína. Que se espera, portanto, de um país quando se coíbe uma das principais engrenagens de sua economia? É como quebrar os EUAnos por apenas proibir sua disparatada e sanguinolenta indústria bélica.

Estou de acordo com que a transformação de coca em cocaína é danosa e insalubre e que o hábito da coca é usado muitas vezes como fachada.

Poucos questionam, contudo, a voracidade EUAna de vender seus armamentos, que são tão condenáveis quanto os narcóticos, enquanto se faz estardalhaço contra a pequena e isolada Bolívia, que nem acesso ao mar conquistou porque o Chile não concede.

Objurgam-se os pequenos e liberam-se os grandes.

Evo Morales, primeiro presidente verdadeiramente boliviano, não consuma a venda de seu país iniciada por seus antecessores executivos. Reverte-a em muitas políticas. O certame já provocou a expulsão de emissários EUAnos da Bolívia, como o embaixador Philip Goldberg em setembro de 2008 sob pretexto de conspirar contra o governo.

A DEA (Drug Enforcement Administration) é tão mal querida na Bolívia quanto a remanescente USAID (United States Agency for International Development), uma vez que sempre querem em troca mais um pedaço deste pobre encravamento andino.

O tráfico de entorpecentes convoca o mundo a discutir o tema de modo a elaborar estratégias que amenizem o problema e tratem os dependentes mais através de políticas sanitárias que repressivas. A organização Avaaz enseja novas vias de alarme e pressão política sobre a questão em vários países pela internet e as redes sociais.

Há premência de se conduzir o problema pelas vias de um debate amplo e transparente. A guinada partirá da boa vontade de quem não toma necessariamente as decisões mais importantes, mas reconhece seu potencial transformador ainda que num clique.

Narcotraficantes limitam sua esfera de influência no México a tal ponto que jornalistas impedem-se de fazer reportagens sobre esta matéria a fim de não sofrer retaliação.

O medo percorre as narco-sociedades modernas, cujos empreendedores não hesitam em vender o que é danoso a fim de garantir sua renda. Os consumidores e distribuidores de narcóticos temem o vício, a dependência e a repressão. Seus médicos prestam atendimento no porrete e trancafiamento nas grades, enquanto o “capo” goza de mansões e outras regalias.

Em que se transforma, neste ínterim, a tradição das folhas de coca?

O tratado de 1961 promove a destruição de tradições centenárias em prol de um combate que visa a reduzir a transformação da coca em cocaína, mas criminaliza a mastigação destas folhas culturais, econômicas, medicinais e redentoras.

A Bolívia ainda elege governantes que resistem à partilha neocolonial de seus recursos naturais, como gás natural, prata e zinco, diferentemente de Egito e Líbia, territórios em que a Nestlé previu um investimento milionário. Mal caem os “ditadores” Mubarak e Gaddafi e já se levanta a ditadura do mercado e seus artifícios financeiros do dinheiro invisível.

Que não se afunde mais um país que resiste aos pretensos proprietários e partilhadores do mundo assim como a Honduras legítima ruiu por golpe militar em junho de 2009 e a Organização de Estados Americanos (OEA) assentiu a esta barbárie.

A folha de coca é tradição para alguns e negócio para outros.

De que ponto de vista veremos a questão?

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