Ele é funcionário, ela é dançarina

O profeta Caetano Veloso decretou, em 1982, em sua canção Ele me Deu um Beijo na Boca, que “a crítica que não toque na poesia”. Mas a crítica não se emenda. A imprensa do planeta Terra se acha a detentora da verdade e a indicadora de tendências. Mas quando o alvo é a arte, ou os artistas, geralmente enche as páginas de besteiras.

A segunda quinzena de julho foi especialmente recheada de bobagens ditas e escritas acerca de dois artistas fenomenais que, se nunca se viram pessoalmente, moram juntos na minha cabeça. Enquanto eu bem comemorava o lançamento do CD Chico, do Chico; tive de aguentar a pancada da morte da Amy.

Chico Buarque me surgiu quando eu ainda perambulava na pré-adolescência, e alguém pôs no meu alcance o LP Ópera do Malandro. Duplo! “Ai, que saudade que eu tenho dos meus doze anos, que saudade ingrata”! A agulha da eletrola quase se desfez de tanto que insisti nos quatro lados dos discos. Depois daquele primeiro encontro, consumi avidamente tudo, absolutamente tudo de arte criado por Chico Buarque. Todas as canções, todas as peças teatrais, todos os livros.

Mas enquanto eu almoçava e jantava a Ópera do Malandro, Amy Winehouse aguardava, creio que impacientemente, para estrear na vida. Estreou na minha quando assistindo a um episódio da série Aline, da tevê Globo, ouvi  You Know I`m no Good e me apaixonei instantaneamente. Ignorantão que sempre fui não relacionava aquela canção maravilhosa à pessoa que insistentemente era ridicularizada nos noticiários e humorísticos. Desinteressado dos assuntos que permeiam os programas de fofoca, tinha em minha cabeça que Amy estava no mesmo limbo de Britney Spears, Paris Hilton e Lindsay Lohan. Ai, que burro; dá zero pra mim! Mas da mesma forma que a antiga vitrola Phillips consumiu grande parte de sua vida tocando a Ópera do Malandro, o moderno iPod se viciou no álbum Back to Black.

Chico Buarque e Amy Winehouse, cada um a seu tempo, e a seu modo, revolucionaram a palavra cantada quando as cortinas se lhe abriram. Chico com sua tonelada de timidez, e com a voz incomum, incomodando o regime estabelecido. Amy, sem nem um grama de timidez, com sua voz preta, cantando música preta, com back vocals pretos.

Aos 27 anos, Chico lançava o álbum Construção, considerado o divisor de águas de sua carreira. No disco estavam canções como Deus lhe Pague, Cordão, Samba de Orly, entre outras; o ano era 1971, e o general Médici protagonizava o período mais tenso da patética ditadura militar. O moço estava dizendo coisas sobre as quais muitos nem ousavam pensar.

Aos 27 anos, Amy foi encontrada morta em sua casa em Londres, deixando aquela sensação do sorvete preferido que cai por terra na primeira lambida. Deixando engasgada a pergunta… por quê?! A moça estava dizendo coisas que muitos, se pensavam, não ousavam transformar em palavras. “I say no, no, no”! (Curiosamente, aos 27 anos, também se foram Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Kurt Cobain).

Entretanto, o quarto poder (absoluto), exercido pela imprensa apressou-se em fazer um linchamento post mortem de Amy e a especular a respeito de sua morte, como se isso reduzisse o imenso talento da artista.

No caso de Chico, a Veja, a revista mais canalha deste país, apressou-se em decretar o “ocaso criativo irreversível” do autor de Gota d`Água. A revista, que sempre esteve às turras com Caetano Veloso, agora o elogia, tentando comparar o trabalho musical deste com o de Chico, como se houvesse comparação; como se não fossem os gênios que são, cada um à sua maneira. É claro que a revista não procurou Caetano para saber de sua opinião a respeito do trabalho de Chico e da comparação feita.

O CD Chico é um vinho seco e requintado. Precisa de toda uma liturgia para ser degustado em todos os seus tons. Eu não me afasto desse cálice.

E com o corpo torrando no calor de 43 graus de Oklahoma projeto minha alma do Brasil para o Reino Unido e morro de amor com cada canção de Chico e Amy. Ele, geminiano em cujo mapa seu destino rapta o de Nina. Ela, virginiana, de 14 de setembro, metódica, perfeccionista, louca e linda. “I cried for you on the kitchen floor”.

E se a crítica ainda insistir em tocar na poesia, “Deixa que digam, que pensem, que falem”!

Um comentário em “Ele é funcionário, ela é dançarina

  • agosto 1, 2011 em 9:44 am
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    Obrigado pela força, Chico.

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