Crônica de uma morte anunciada

Vou jogá-lo do terceiro andar. Não! Ele pode morrer e quem vai acabar sendo preso sou eu. Melhor, vou arrebentar ele na porrada e no máximo ser processado por lesão corporal, ser enquadrado na lei das penas alternativas e pronto, me vinguei.

Esses foram os sentimentos que vieram à tona no último dia 30 de agosto, quando numa audiência, no Fórum Desembargador Leal de Mira, deparei-me com o bandido, que no dia 7 de setembro de 2009, às 19h45, junto mais outro comparsa, invadiu minha casa, apontando uma arma para minha cabeça e uma faca no pescoço do meu filho, ameaçando matar todos, caso nós não lhes déssemos o dinheiro que queriam.

Sabe aquele ditado que quem apanha jamais esquece. Então, naquele dia eu me lembrei de cada detalhe daquela noite, do medo que minha família sentiu e da impotência de um pai de família que não pode defender os seus. O bandido se esqueceu de mim e veio, sozinho, pedir informação.

Um jovem de 18 anos, corpo franzino, cara de humilde, nem parecia aquele lobo feroz que adentrou minha casa, o lugar mais sagrado de um homem, levando não somente dinheiro, mas destruindo sonhos, porque a partir daquela noite, ao invés deles fugirem, eu é que fui obrigado a vender minha casa e mudar de bairro, porque minha família ficou traumatizada e, até hoje, tem medo.

– Onde fica a quarta vara – perguntou.

Eu estava num canto afastado, fumando um cigarro. O policial mais perto de mim estava a 20 metros. Pensei em tanta coisa. No entanto, como um homem de bem e que confia na Justiça, embora seja às vezes injusta e tarde demais, informei o que ele desejava. E o rapaz virou de costas e foi aguardar a vez de ser chamado.

O título “Crônica de uma morte anunciada” é de uma obra do escritor Gabriel Garcia Marques. Mas, não encontrei nada que melhor definisse o que um dia pode acontecer. Como a Justiça pode colocar, lado a lado, com segurança quase zero, vítima e bandido?

Será que meu comportamento seria o mesmo, se esse criminoso e seu comparsa tivessem matado ou violentado alguém da minha família, ou se simplesmente eu fosse um homem violento que, possuído pelo ódio, fizesse justiça, ali mesmo, com minhas próprias mãos?

A pergunta é pertinente, porque quando se rouba alguém não se leva apenas dinheiro. No caso foi muito mais. Dentro do notebook levado por eles estava 90% do TCC da minha esposa, que até hoje não se formou e todos sabem o quanto e difícil recomeçar.

Eles não levaram apenas o dinheiro para pagar as contas do mês, desestabilizaram minha vida financeira, vendi a casa para honrar compromissos e fui morar alugado. Fui obrigado a dar meus cachorros porque não tinha para onde levá-los. Meu filho ainda acorda chorando no meio da noite. E tantas coisas que tive que deixar para trás. E nestas horas o ódio invade o corpo.

Por isso eu digo senhores magistrados, colocar vítima e bandido no mesmo corredor de espera não é uma boa ideia. Porque um dia, alguém pode fazer aquilo que tive vontade e ai será tarde demais.

Paulo Ronaldo Almeida

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