Médicos de primeira categoria

Dom Pedro Conti

Certo dia um monge, após ter visto São Bento bater num irmão rebelde com uma varinha, perguntou-lhe:

– Pai, como é possível que um santo homem como o senhor recorra a esses métodos?

– Amigo – respondeu-lhe o santo – deve saber que existem três categorias de médicos. Os de terceira categoria pegam no pulso do doente, prescrevem-lhe um remédio e depois vão embora sem mais algum interesse com a pessoa. Os de segunda categoria procuram convencer o seu paciente a tomar o remédio também se é amargo e o sabor não é gostoso. Os de primeira categoria, enfim, quando encontram um doente rebelde que se recusa a tomar o medicamento, não têm medo de colocar-lhe um joelho no peito para fazer-lhe engolir a poção. Com certas pessoas esse método é absolutamente necessário…

Esta historia não é um incentivo à violência e, menos ainda, quer dar alguma sugestão aos médicos ou classificá-los por categorias. Simplesmente, espero, possa nos ajudar a compreender a página do evangelho deste domingo que se nos apresenta cheia de violência. Os vinhateiros não hesitam a espancar e a matar os enviados do dono da vinha. O próprio filho do dono é morto. Por fim, os sacerdotes e os anciãos têm certeza que o proprietário da vinha mandará matar todos aqueles assassinos de modo violento e arrendará a vinha a outros vinhateiros para que lhe entreguem os frutos no tempo certo.

Devemos entender a situação daquele tempo, as perseguições que os profetas sofreram e o plano, bem sucedido, de matar o próprio Jesus. Infelizmente não são coisas do passado; ainda hoje muitos pensam que a morte – o assassinado – seja  a melhor maneira para eliminar os adversários. Mais a disputa é acirrada, mais a violência e a morte parecem uma solução. Quantas guerras foram travadas, e ainda o são, tendo como desculpa a paz que virá depois? Como se o silêncio da morte fosse a paz. Esse é o maior engano e o maior erro que podemos fazer.

Jesus mesmo explica a parábola perguntando se não tinham lido as Escrituras: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. É um convite forte a acolher Jesus como o enviado do Pai. Não foi o que aconteceu, como na parábola. Os arrendatários quiseram ser donos da vinha para aproveitar dos frutos sem ter que prestar conta ao verdadeiro proprietário. Não perceberam que a cobrança dos frutos era simplesmente um novo convite a se tornarem testemunhas do único Deus e do seu amor para com todos. Buscando privilégios em lugar de acolher o desafio da missão e do anúncio universal, perderam a oportunidade de produzir frutos novos e diferentes. Jesus, o Filho, não veio para cobrar ou julgar, veio para enviar os discípulos, amigos dele, numa nova missão.  Deus, Pai de todos, enviou o seu Filho para que os homens de todos os tempos pudessem conhecê-lo e experimentar assim a misericórdia e o amor dele. Sair das próprias seguranças e das próprias estruturas para anunciar o novo do amor de Deus sempre custará sacrifício e conversão.

Jesus pagou com a sua vida a novidade do seu testemunho. Os poderosos – que se achavam os donos da verdade – pensaram que era perigoso demais deixá-lo vivo. Também hoje devemos tomar cuidado; ainda podemos querer silenciar o verdadeiro Jesus e colocar no seu lugar um Cristo falso, mais compatível com as nossas idéias. Não é por acaso que a Igreja continua falando de uma “conversão pastoral”. Significa que nunca podemos ficar acomodados em nossas estruturas; ao contrário devemos sempre acolher o desafio da missão que nos obriga a escutar o novo, os outros, os diferentes, os sinais dos tempos. Fiéis, porém, a única pedra angular. A construção pode tomar outros rumos; é a história da salvação entrelaçada com a história humana, mas o fundamento é um só: Jesus Cristo. É ele que sempre devemos acolher e entender novamente. Se tirarmos a pedra fundamental, a construção não cresce, cai em ruínas. A vinha deixa de produzir bons frutos.

Se pensarmos em força, pensamos na perseverança de sermos fiéis e, ao mesmo tempo, na decisão de buscar novos caminhos. Precisamos de muito vigor e coragem para ser uma Igreja a caminho, uma Igreja sempre em missão que evangeliza dando exemplo de unidade, servindo a justiça e a paz, firme na “opção preferencial pelos pobres”. Na Igreja também precisamos de médicos de primeira categoria que, com o seu exemplo e a sua coragem, forcem-nos a tomar o remédio certo, deixando de lado disputas internas e competições, doenças que acabam com a alegria da nossa fé. É para o nosso bem. Se o doente não tomar o remédio, pode morrer.

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