O trem de Beatriz

Euclides Farias é jornalista e cronista

A escritora amapaense Vania Beatriz, com seu “França, um sonho de viagem” quentinho no prelo, manda-me uma crônica da obra. Estilo leve, cativante, ela oferece ao leitor passaporte e bilhete grátis para a primeira classe do eurotrem, em busca de Lindanor Celina. Transcrevo “Vencendo medos, adiando sonhos”.

Na Gare de Lyon em Paris fomos até uma lanchonete onde Yviane tomou um café e entabulamos as primeiras conversas. Viajar de TGV fazia parte do meu sonho de viagem, por isso gostaria de fazer uma foto em especial. Quando contei-lhe da minha tentativa frustrada, ela se ofereceu para voltarmos até o trem, ainda parado na estação para fazer a fotografia. Mas eu agradeci, resolvi me contentar com a única foto que tirei focalizando apenas minha imagem refletida na janela do vagão.

A razão de minha recusa foi por não estar me sentindo à vontade. Ela me pareceu muito séria , tensa, quando me perguntou se eu não tinha medo de ir para a casa de alguém que eu não conhecia. Na verdade eu tivera certa preocupação em relação à Chantal, porque além de não conhecê-la pessoalmente, tínhamos conversado muito pouco pela internet. Já com relação a Yvianne eu não tivera nenhuma preocupação, afinal, além dos mais de 10 anos de troca de cartas, fora ela quem mais demonstrara entusiasmo em receber-me na França.

O elevador da estação não estava funcionando, tivemos que descer dois ou três lances de escadas, carregando a mala e a bolsa a tiracolo. Ainda andamos de um lado para outro a procura do carro, que ela não lembrava em que ala do estacionamento deixara. Tomamos o rumo Norte, para Vignemont, uma localidade de apenas 423 hectares e 409 habitantes, distante pouco mais de uma hora de Paris.

Também fazia parte do meu sonho de viagem, visitar a Universidade de Lille e quem sabe encontrar Lindanor Celina, uma escritora paraense, há muito radicada na França, de quem sou muito fã. Ela é autora de crônicas e romances que contam costumes paraenses. Também escreveu um livro de crônicas sobre a Ilha de Skyros  na Grécia, que me despertou a vontade de conhecer esse país. Mas foi a série “Crônicas de Paris e além”, que ela publicou no jornal “A Província do Pará”, no início dos anos 80, que me fizeram sonhar um pouco mais com a França.

Na estrada, ouvimos músicas de Roberto Carlos. Yviane é fã de carteirinha do cantor, tem todos os discos do Rei e uma versão em fitas K7 , que tocaram  ininterruptamente em seu carro, durante toda a minha estadia. Quando avistei uma placa indicando a direção da cidade de Lille, lembrei-me de Lindanor.  Há muito tempo não tenho noticias dela. Será que ainda  dá aulas de literatura latino-americana? Será que ainda é viva? pensei.

Tive a intuição de que aquele era um sonho que eu adiaria. Ir a Lille, a Reims, Vandoeuvre, Axes les Thermes , seriam razões a mais para retornar à França.

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