Mladic acusado de ser o principal executor da limpeza étnica sérvia

O julgamento de Ratko Mladic, o homem que comandou os militares sérvios da Bósnia na guerra civil entre 1992 e 1995, começou nesta quarta-feira de manhã no Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia, em Haia, na Holanda. É acusado de crimes de guerra e contra a humanidade, incluindo genocídio.

Joana Tadeu, RTP

Toussaint Kluiters, Pool

“Ele encarregou-se da limpeza étnica da Bósnia”, declarou Dermot Groome, representante do procurador, na abertura da sessão no tribunal. “A acusação apresentará elementos de prova que demonstrarão, acima de qualquer dúvida razoável, a mão do general Mladic em cada um destes crimes”, acrescentou.

Nesta primeira audiência a acusação mostrou o vídeo de um ataque a um mercado de Markale, em Sarajevo, e leu partes dos próprios diários de guerra de Ratko Mladic, dizendo que tudo fazia parte de uma tentativa “abrangente” de limpeza étnica do país.

O antigo general, de 70 anos, entrou no tribunal às 9 horas locais (8 horas em Lisboa), numa audiência em que a acusação lê uma declaração inicial que prossegue na quinta-feira, num total aproximado de seis horas. Vestia um fato cinzento escuro, aplaudiu e usou os polegares em gesto de aprovação quando os juízes entraram na sala. Segundo o seu advogado, Branko Lukic, o acusado não deve falar nesta ocasião. Depois da audiência de quinta-feira, o julgamento vai ser retomado a 29 de Maio com a apresentação da primeira testemunha de acusação. Segundo a acusação, o julgamento poderá durar três anos. O Juíz holandês Alphons Orie presidirá.

Ratko Mladic foi detido a 26 de Maio de 2011, na Sérvia, após 16 anos de fuga à justiça internacional e passou o último ano na prisão de Scheveningen. É acusado de crimes cometidos pelas suas tropas durante a guerra da Bósnia, um conflito que provocou, entre 1992 e 1995, mais de cem mil mortos e dois milhões de deslocados.

O acusado afirma-se inocente das 11 acusações de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra a que terá de responder. O seu advogado de defesa afirma que o antigo general está semi-paralisado do lado direito do corpo na consequência de três acidentes vasculares cerebrais em 1996, 2008 e 2011, mas segundo a Associated Press, o réu parecia mais saudável durante esta audiência.“Quando Mladic e as suas tropas assassinaram milhares de pessoas em Srebrenica… já estavam bem treinados no ofício do assassinato”, descreveu o representante do procurador, Dermot Groome, na declaração incial.

Cerca de 20 mães e viúvas de alguns dos oito mil homens e rapazes muçulmanos que foram mortos pelas forças sérvias da Bósnia no massacre de Srebrenica, o pior massacre na Europa desde a II Guerra Mundial, deslocaram-se a Haia e concentraram-se frente ao TPI para a ex-Jugoslávia esta manhã. Alguns gritavam “homicida” e “assassino” na galeria pública do tribunal.

A Associated Press cita uma mulher de 65 anos, Munira Subasic, que perdeu 22 membros da sua família nesse massacre: “quero olhá-lo nos olhos e perguntar-lhe se se arrepende do que fez”. Ao olhar para Mladic através da barreira de vidro e cruzar os punhos, simulando as algemas do antigo general, o antigo general fez um gesto de degolação da garganta. O juiz Alphons Orie reagiu rapidamente e ordenou o fim de “interações impróprias”.

O último a ser julgado da ex-Jugoslávia

Este julgamento será histórico na preseguição dos autores dos crimes de guerra, marcando o início do fim de uma longa espera por justiça para os sobreviventes da guerra civil da Bósnia e marcando o registo do tribunal da ONU e da justiça internacional, uma vez que Mladic é o último suspeito da guerra da Bósnia a ir a julgamento.

Figura-chave na guerra civil da Bósnia, Ratko Mladic é considerado um herói nacional por alguns Sérvios, mas os seus críticos caracterizam-no como “o carniceiro da Bósnia”.
O julgamento de Mladic inicia-se ao mesmo tempo que o caso contra o seu antigo mestre político, Radovan Karadzic, atingiu um ponto intermédio no mesmo tribunal. Os dois homens enfrentam acusações idênticas por alegadamente terem planeado a limpeza étnica da Bósnia.Karadzic e Mladic foram indiciados juntos há 17 anos, mas Karadzic foi capturado mais cedo, na Sérvia, em 2008 e transferido para Haia. Mais de três anos depois Mladic foi finalmente detido.

O homem acusado de fomentar conflitos nos Balcãs na década de 1990, o ex-presidente jugoslavo Slobodan Milosevic, morreu na sua cela em Haia, em 2006, antes de os juízes emitirem um veredicto.

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