Silêncio e Palavra

Dom Pedro Conti

Um jovem foi convidado ao casamento de um amigo. Após a cerimônia bonita, ele ficou observando a longa fila de parentes e amigos que iam cumprimentar o casal de esposos e os seus familiares. Do modo como as coisas aconteciam, ele percebeu logo que os cumprimentos não passavam de frases formais repetidas de maneira mecânica. De fato, ninguém prestava atenção ao que o outro dizia. Quis, portanto, fazer um teste, para ver se a intuição dele era verdadeira. Entrou na fila e, quando chegou à frente do primeiro de um dos familiares dos noivos, disse com voz calma, tranquila e com um sorriso nos lábios:

– Hoje faleceu a minha mulher.

A resposta foi: – Muito obrigado, o senhor foi muito gentil vindo participar de nossa alegria.

Repetiu as mesmas palavras a todos os parentes que cumprimentava, e a maioria deles respondia:

– Muito obrigado, foi bom o senhor ter vindo.

No final, chegou à frente do esposo ao qual também disse:

– Hoje faleceu a minha mulher.

A resposta foi: – Obrigado, agora é a sua vez, meu velho amigo.

Devemos admitir que prestar atenção a tudo aquilo que os outros nos dizem não é tão fácil como parece. No domingo da Ascensão, celebramos a Jornada Mundial das Comunicações Sociais. Talvez os sofisticados recursos tecnológicos nos façam pensar que hoje a comunicação entre nós funcione maravilhosamente. Podemos falar diretamente com quem está do outro lado do mundo e receber notícias quase na mesma hora dos acontecimentos. Milhões de pessoas estão conectadas no mesmo instante via internet através das chamadas redes sociais. No entanto a comunicação verdadeira é muito mais exigente, solicita-nos a escuta do outro, o discernimento indispensável para conseguir distinguir o que é importante para a nossa vida e o que é descartável.

Dialogar entre nós, nas nossas famílias, nas nossas comunidades, nos ambientes de trabalho e convivência, continua difícil. Recebemos muitas informações, mas as perguntas decisivas para a nossa existência humana, continuam a nos questionar e pedem respostas à altura. A quantidade excessiva de informações, que chegam de todas as formas até nós, na maioria das vezes nos sufoca. Dá-nos a ilusão de conhecermos muito, mas, de fato, afasta-nos de uma busca mais sincera e profunda. Ficamos perdidos e confusos.

Todo ano, nesta ocasião, o Santo Padre nos envia uma mensagem para a nossa reflexão. O Papa Bento XVI nos convida a lembrar o valor e o sentido do silêncio. Parece uma contradição, na Jornada das Comunicações Sociais falar do silêncio. Na realidade, o Papa quer nos ajudar a entender que para a nossa comunicação não ser superficial e alienante, precisamos de tempos adequados também de silêncio. Esses momentos nos permitem a compreensão e a interiorização das mensagens.

Silêncio significa parar para escutar e compreender o que o outro quer dizer, significa reconhecer o valor maior ou menor daquilo que nos é comunicado. O Papa fala da necessidade de adquirir e cultivar um equilíbrio entre silêncio, palavra, imagens e sons. Excesso de palavras traz aturdimento, mas também a falta delas revela indiferença entre as pessoas; com efeito, o primeiro sinal de afastamento entre nós é deixarmos de nos falar. Bem sabemos. Algo semelhante vale para as imagens e os sons. Precisamos de tempo e silêncio para descobrir a relação que existe entre os acontecimentos alegres e tristes da nossa vida. Quem não consegue parar para refletir, facilmente perde o rumo de sua existência, confunde a verdade com a mentira, o bem com o mal, a realidade com as suas aparências e disfarces.

Na página dos Atos dos Apóstolos e no Evangelho deste domingo, o Senhor Jesus envia os discípulos para serem suas testemunhas “até os confins da terra” (Atos 1,8); eles obedeceram, “saíram e pregaram em toda parte” (Mc 16,20). Sem a Palavra de Deus anunciada não existe evangelização, e a palavra humana não consegue expressar tudo sobre Deus e seu amor. Precisa de silêncio, de interiorização e de contemplação para reconhecer as maravilhas que o Senhor continua fazendo em nossa vida, na vida dos nossos amigos e na história da humanidade toda. Diz o Papa: “silêncio e palavra são ambos elementos essenciais e integrantes da ação comunicativa da Igreja para um renovado anúncio de Jesus Cristo no mundo contemporâneo”.

O próprio Jesus nos ensinou a rezar sem multiplicar tantas palavras (cf. Mt 6,7). É no silêncio que Deus fala ao nosso coração, iluminando-nos para entender a sua Palavra; e é também no silêncio que amadurece a nossa resposta confiante. De outra forma é arriscado construir o nosso relacionamento com o Pai – e entre nós – de maneira superficial, repetindo palavras das quais perdemos o sentido. Palavras formais, imitação de outros. Quase como na fila dos parentes naquele casamento.

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