A vez da música prapular brasileira

Euclides Farias é jornalista e cronista

A lembrança do episódio – contado em Noites Tropicais, pelo próprio Nelson – vem no rastilho de pólvora espalhado por músicos que vêem a si próprios como reinventores da roda. Pretensos donos de estilos vanguardistas, mutilam composições irretocáveis, imprimem arranjos de mau gosto com a percussão sufocando vergonhosamente violão e sopros, interrompem a interpretação para grunhidos supostamente modernos e, suprema soberba, ainda esperam aplausos da platéia. Um giro por bares e shows nas cidades e por catálogos fonográficos revela a tal genialidade que não resiste à primeira audição.

 

Nenhuma simpatia pelo conservadorismo que tem ojeriza ao experimental e ao estudo que requalifica e leva a novas gerações a beleza de obras musicais, sem desfigurar-lhes a essência poética ou melódica. Mas a tolerância, por isso é assim chamada, tem limite. A “nova roupagem”, “a releitura” e a “visita”, expressões sucessivamente cunhadas para muitas vezes invadir a produção alheia sem nada acrescentar-lhe, povoam os cadernos de cultura de jornais e páginas de revistas, anunciando a reabilitação de uma música ou de um compositor postos no ostracismo, momentâneo ou secular. O show, você vai assistir, são outros quinhentos. E, como sugerido, um preço muito alto; é muito barulho por nada.

As armadilhas para pegar incautos em sonolentas apresentações têm mais ou menos eficácia dependendo do nome do artista em cartaz. Nome consolidado é irresistível isca pela empatia, carisma ou saudosismo. Nome emergente se assiste com reserva, em apostas que, grata surpresa, muitas vezes premiam o apostador. Grande parte, porém, merecia estar mesmo sob o alvo de um código de defesa do consumidor de música e do tiroteio verbal de Carlos Imperial.

De Elza Soares vem o exemplo mais recente de reabilitação musical que dignifica o artista. O novo disco da cantora, com composições de gente da pesada, escancara a verve jazzística que mesmo o samba-jazz, em maior ou menor grau, esmaecia. Elza solta a voz como soltava na época em que escandalizou o auditório de Ary Barroso com sua cruel sinceridade, desprovida de auto-piedade, no relato da vida severina que levava num morro carioca. Só que agora a diva reaparece por inteiro, sem amarras de um certo repertório que lhe aprisionava o timbre.

Se hoje pudesse ouvi-la, Imperial teria corrido à máquina de escrever, falsamente generoso: “A carne mais barata do mercado certamente não é a carne negra. Mas não pechinche: vale a pena pagar mais caro por ela”. E, como castigo, aprenderia com a fina ironia de Nelson Motta que hoje a discografia nacional pôs de lado a qualidade para se dedicar preferencialmente à música prapular brasileira.

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