Paris é aqui

Euclides Farias é jornalista e cronista

Paris em chamas remete a duas fortes simbologias com as quais a capital francesa ganhou fama no mundo contemporâneo. A primeira, pela violência dos protestos, lembra remotamente os conflitos ideológicos de 1968, o ano que não terminou por razões que até hoje direita e esquerda se digladiam, embora sem o glamour de outrora. A segunda, exclusivamente metafórica, sugerida pela fogueira de carros e prédios, empresta novo significado ao batismo parisiense de cidade-luz.

Como pano de fundo, as desigualdades sociais que grassam no planeta. E não adianta chefes de Estados, do G-8 ou do G-20, trombetearem falso discurso, no caso de imperialistas, ou ingênuo apelo, feito por países do Terceiro Mundo, Luiz Inácio Lula da Silva à frente. A economia globalizada, geneticamente financista, é insensível por definição – e ponto final.

O Brasil acaba de fechar dados do PIB de 2003 e, na frieza dos números, a crua realidade. O total da riqueza produzida no País cresce enquanto o PIB per capita cai, com variações estaduais que só confirmam a regra. Trocando em miúdos: maior concentração de renda e distribuição de imutável miséria aos excedentes populacionais.

Foi preciso mudar tudo para que nada mudasse. Continua tão atual quanto nos anos 1980 a esperteza econômica de Delfim Neto, o czar dos generais, segundo a qual o bolo deveria crescer primeiro para depois ser distribuído. Depois, entenda, é ad eternum.

Paris em chamas é aperitivo acabado da conflagração planetária alimentada pelo combustível da injustiça social que separa países em ricos cada vez mais ricos e pobres a caminho da roça. Vá dizer a esfomeados da África ou da América Latina – e, se puder, ao gado flagrado comendo garrafa plástica em beira de estrada com pasto estorricado pela estiagem no norte do Brasil – que as cúpulas mundiais contra a fome são redenção para coisa alguma.

O aumento da produção industrial que de fato gera emprego, renda e combate à pobreza é bom discurso e prática recomendável, mas a performance não tem produzido, salvo alguns oásis, resultados sociais sequer alentadores. No Maranhão, para ficar em caso brasileiro emblemático, onde 4 milhões de seus 5,7 milhões de habitantes vivem abaixo da linha de pobreza, 83 municípios estão incluídos no ranking dos 100 mais pobres do País.

As chamas das desigualdades étnicas de uma Paris que renuncia ao ar cosmopolita, para na verdade proteger-se da competição explosiva de legiões de desempregados e subempregados multinacionais que vagam na periferia, sobem alto para alertar o mundo: as labaredas ardem à nossa porta.

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