Artigos, Religare

Ar novo

Dom Pedro José Conti

Depois que o papa João XXIII anunciou a convocação do Concílio que ia se chamar de “Vaticano II”, muitos perguntaram para ele o porquê de tanto trabalho e, sobretudo, se achava que isso ia dar realmente em alguma coisa. As explicações dadas foram muitas, conforme o público ouvinte, mas tem uma anedota que talvez explique mais do que tantos discursos.

Contam que para responder aos questionamentos dos próprios responsáveis da Cúria Romana, certo dia, o papa João XXIII, estando no seu gabinete, levantou-se da cadeira e, calmamente, dirigiu-se à janela e, abrindo-a, disse: “Eis aqui! É por isso”.

Com esse gesto o papa queria dizer que precisava deixar entrar na Igreja um novo ar, um ar de esperança e de renovação. Mas também a Igreja precisava abrir mais as suas portas e janelas à sociedade em mudança. Aos novos tempos a Igreja devia responder com novo entusiasmo, com uma nova linguagem, numa atitude de escuta e de diálogo.

Ainda hoje, após 50 anos daqueles dias, usamos muito as palavras “novo” e “nova”. Falamos, por exemplo, de “nova” evangelização: “nova em seu ardor, em seus métodos, em sua expressão” (cf. Santo Domingo n. 28,29 e 30). Jesus Cristo é o mesmo “ontem, hoje e sempre”, cantamos no Jubileu do ano 2000, mas para ser conhecido e encontrado pelos homens de hoje precisa, também, falar a linguagem do nosso tempo.

O domingo no qual fazemos a memória de São Pedro e São Paulo nos dá a possibilidade, todo ano, de refletirmos um pouco sobre a história e a caminhada da nossa Igreja. Este ano, achei oportuno colocar algo que iremos comemorar a partir do dia 11 de outubro. O papa Bento XVI convocou todos os católicos para celebrar o Ano da Fé, a partir desse dia até o domingo de Cristo Rei do ano seguinte (24 de novembro 2013). Tudo isso para celebrar os 50 anos do Concílio Vaticano II. Nessa oportunidade, também, lembraremos os 20 anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, um dos frutos mais preciosos do próprio Concílio.

Quem pouco conhece da vida e da vitalidade da Igreja católica talvez ache isso saudosismo. Se fosse assim poderíamos dizer o mesmo da memória dos santos e das santas ou, até, de Nosso Senhor Jesus Cristo. No dia em que a Igreja deixar de fazer a memória de Jesus perderá a própria identidade e a própria missão. Com efeito, a tarefa da Igreja, até o fim dos tempos, é, justamente, aquela de manter viva a memória fiel de Jesus Cristo para que todos possam conhecer e acreditar nele. Podemos encontrar e experimentar a presença de Jesus vivo somente na comunidade viva e atuante que se alimenta da sua memória. Nos romances, nos filmes, nas enciclopédias podemos encontrar “informações” sobre Jesus, mas não a pessoa dele que ainda hoje nos fala, chama-nos a segui-lo para participar da sua alegria e nos envia para comunicar aos outros as maravilhas que a fé nele continua fazendo.

Para ser fiel, a Igreja precisa de uma fé segura, firme e clara. É responsabilidade do sucessor de Pedro zelar pela unidade da Igreja na fé e na comunhão, respeitando as diversidades dos carismas, mas apontando sempre o caminho certo. Jesus prometeu o Espírito Santo para iluminar os passos da sua Igreja. Apesar de a fé ser sempre “penumbra” neste mundo frágil e pecador, os cristãos tem a certeza de não ser enganados a respeito daquilo que devem acreditar. Ao mesmo tempo, uma Igreja viva não fica contemplando a si mesma, mas vai ao encontro de toda a humanidade porque ela mesma é feita de humanidade. Seguindo o exemplo de Paulo, apóstolo dos pagãos, podemos deixar ressoar as primeiras palavras, sempre tocantes, da Constituição sobre a Igreja no Mundo de Hoje do Concílio Vaticano II: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Jesus Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (cf. Gaudium et Spes n.1).

“Ar novo” não é qualquer novidade. Ar novo é a única mensagem da salvação, anunciada numa forma que seja compreensível e cativante também para os homens de hoje, como o foi para tantos cristãos e cristãs dos séculos passados. Ainda hoje, o coração humano busca o Deus verdadeiro. Camuflagens, falsificações, sub-rogados e acomodações sempre existiram e sempre existirão, mas nada se compara com a única fonte de água viva que é Jesus.

Que São Pedro e São Paulo nos ajudem a ser sempre mais testemunhas e missionários do único Senhor Jesus, fiéis à Igreja-comunidade que ele deixou.

Sobre Chico Terra

A la Glauber Rocha, o genial visionário do Cinema Novo que tinha uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, Chico Terra tinha há 14 anos um velho computador, uma câmera fotográfica e uma inquietação invulgar, que o ofício de músico não dava conta de sossegar. Chico, é preciso esclarecer, é observador de esquina, desses que repara imagens, muitas imagens, em fração de segundos. Tornou, por isso, o passatempo de fotógrafo – cultivado em Minas Gerais desde os anos 1970, quando ainda era operário da Fiat – em profissão. Pois não é que o Chico operário-fotógrafo-músico, decidiu virar, desculpem o palavrão, webdesigner. Desenhou e pôs no ar, em 11 de novembro de 2000, o Amapá Busca. Desde então, eremita na mesmíssima casa onde nasceu e à qual voltou após a longa temporada mineira, Chico divide atenção entre sobreviver sem o conforto de bens materiais e prestar inestimável serviço à cultura do Amapá. Pelo sítio de Chico, já passaram seguramente todos os músicos amapaenses – a quem dedica admirável amizade e intransigente defesa. Já passaram, também, por conta dessa fidelidade, manifestações indignadas contra gente que, vendo artista com vassalo, insiste em relegar a democratização da cultura ao segundo plano ou a reservar o primeiro plano a uns poucos protegidos. Amapaense da gema, Chico cria e encampa teses, reclama e elogia, exibe rico acervo fotográfico e dá voz, não raro sendo ele mesmo porta-voz, à divergência. Já deve ter sido confundido com ativista político submisso a alguma legenda, coisa que efetivamente nunca foi. Na verdade, Chico tem lado, não sabe ficar em cima do muro e opina muito, agradando a gregos e chateando a troianos. Num cantinho da casa que o seu Antonio Almeida construiu nos anos 1930, ao lado de uma janela que joga a luz da manhã no recinto, está o computador velho de guerra do múltiplo Chico. É ali que, quase sempre alta madrugada, em missão solitária, o operário-fotógrafo-músico-repórter senta para escrever, feliz, páginas de seu tempo. Vida longa, pois, Chico Terra! (Euclides Farias)

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