Artigos, Brasil, Opinião, Segurança

Indicadores de Segurança Pública

Bruno Peron

O brasileiro sente insegurança. O sintoma mais evidente de que a trivialidade virou naturalidade é quando nos trancafiamos em casa com cercas elétricas, muros altos e câmeras de vigilância, evitamos andar nas ruas à noite, e olhamos nosso semelhante com desconfiança. A quantificação deste estado de insegurança, porém, é mais difícil de fazer porque depende de pesquisas que se orientem com perguntas criteriosas.

Uma delas é a pesquisa quantitativa mais recente sobre o Sistema de Indicadores de Percepção Social do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) divulgada em 5 de julho de 2012. Pessoas de todos os estados brasileiros participaram das entrevistas, que avaliam o componente psicológico do medo através da vulnerabilidade a assalto, assassinato, agressão física e arrombamento residencial.

Alguns dados desta pesquisa realçam a gravidade do estado psicológico da população. 73,4% dos entrevistados da região Nordeste disseram sentir muito medo de assalto à mão armada, enquanto a maior percentagem (18,5%) dos que não sentem nenhum medo reside no Sul. O contraste entre as regiões Nordeste e Sul aparece novamente onde, respectivamente, 71,7% e 29,5% sentem muito medo de sofrer algum tipo de agressão em vias públicas.

A mesma pesquisa complementa, num de seus indicadores, que a sociedade tem pouca confiança nos agentes e nas instituições responsáveis pela manutenção da segurança pública. A pesquisa sugere que – e esta é minha interpretação – as políticas do setor não sustentam nem retroalimentam um convívio solidário nos espaços públicos. Em vez disso, tornam-se fatores de intensificação da sensação de medo e de perda de credibilidade institucional.

A Tabela 6 [‘Confiança nas instituições policiais (Brasil)’] do relatório da pesquisa mostra que a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal receberam os maiores votos, respectivamente 10,5% e 8,9%, de quem confia muito nestas instituições. Avaliaram-se quatro delas: Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.

Um fator importante na aferição da qualidade das instituições de segurança pública é o grau de informação que os cidadãos possuem sobre seus direitos e deveres. Quanto mais se conhecem os atributos e os limites dos agentes de segurança pública, mais se pode cobrar que cumpram sua função e maior a confiança resultante desta interação.

Muitas vezes, há desconhecimento sobre quem deve interceder numa ocorrência e conduzir as investigações, como sobre porte, consumo e tráfico de narcóticos. Noutras, a falta de prudência no exercício da função policial estabelece relações hierárquicas e preconceituosas com os civis. Há que mencionar que cidadãos também desrespeitam agentes de segurança pública.

A disfunção do sistema brasileiro de segurança pública não se resolve sem auscultar os conflitos da sociedade a fim de propor medidas que os articulem respeitosa em vez de temerosamente. Esta articulação poderá ocorrer pelo aproveitamento de oportunidades de viver dignamente, um papel mais esclarecedor e conscientizador dos meios de comunicação, e a reprodução de formas culturais de respeito às diferenças.

É de bom augúrio que a nossa modernidade não se tenha realizado plenamente porque temos a chance de conferir-lhe um caminho mais lúcido e mais respeitoso às diferenças que o das nações dominadoras que o mundo conheceu. Será também uma modernização onde o ter não será mais importante que o ser. Podemos ainda ajustar o molde do tipo de país que queremos: onde permanece o medo de agressões ou onde prevalece o sentimento de paz.

Sobre Chico Terra

A la Glauber Rocha, o genial visionário do Cinema Novo que tinha uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, Chico Terra tinha há 14 anos um velho computador, uma câmera fotográfica e uma inquietação invulgar, que o ofício de músico não dava conta de sossegar. Chico, é preciso esclarecer, é observador de esquina, desses que repara imagens, muitas imagens, em fração de segundos. Tornou, por isso, o passatempo de fotógrafo – cultivado em Minas Gerais desde os anos 1970, quando ainda era operário da Fiat – em profissão. Pois não é que o Chico operário-fotógrafo-músico, decidiu virar, desculpem o palavrão, webdesigner. Desenhou e pôs no ar, em 11 de novembro de 2000, o Amapá Busca. Desde então, eremita na mesmíssima casa onde nasceu e à qual voltou após a longa temporada mineira, Chico divide atenção entre sobreviver sem o conforto de bens materiais e prestar inestimável serviço à cultura do Amapá. Pelo sítio de Chico, já passaram seguramente todos os músicos amapaenses – a quem dedica admirável amizade e intransigente defesa. Já passaram, também, por conta dessa fidelidade, manifestações indignadas contra gente que, vendo artista com vassalo, insiste em relegar a democratização da cultura ao segundo plano ou a reservar o primeiro plano a uns poucos protegidos. Amapaense da gema, Chico cria e encampa teses, reclama e elogia, exibe rico acervo fotográfico e dá voz, não raro sendo ele mesmo porta-voz, à divergência. Já deve ter sido confundido com ativista político submisso a alguma legenda, coisa que efetivamente nunca foi. Na verdade, Chico tem lado, não sabe ficar em cima do muro e opina muito, agradando a gregos e chateando a troianos. Num cantinho da casa que o seu Antonio Almeida construiu nos anos 1930, ao lado de uma janela que joga a luz da manhã no recinto, está o computador velho de guerra do múltiplo Chico. É ali que, quase sempre alta madrugada, em missão solitária, o operário-fotógrafo-músico-repórter senta para escrever, feliz, páginas de seu tempo. Vida longa, pois, Chico Terra! (Euclides Farias)

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 12.271 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: