Amazônia, Reportagem

Justiça Itinerante: navegando a maré da beleza e das injustiças na Amazônia

A saída é do porto de Santana onde riquezas minerais escoam ao estrangeiro para voltarem em forma de produtos diversos, muitos de preço atraente e má qualidade, como ventiladores que duram no máximo 3 meses e viram lixo que a natureza não sabe o que fazer com ele. Antes o manganês, hoje o ferro.

Passando pelo famoso farol do Pau Cavado, até atingir a primeira parada, Itamatatuba, são dez horas navegando pelo rio Amazonas ao som de música regional tocada pelos artistas a bordo do barco Tribuna (A justiça vem a bordo). Uma descida para um primeiro contato e espera da maré para seguir viagem se faz necessário. Até este ponto, a viagem foi tranquila.

O barco da justiça Itinerante do Amapá fica ancorado até seguir para a Vila progresso. À bordo, além da tripulação, equipes da Justiça do Estado, liderada pelo Juiz Heraldo Costa, Justiça do Trabalho, sob o comando do Dr. Dilso Amaral Matar, policia técnica, saúde municipal, justiça eleitoral, Delegacia Regional do Trabalho, Ministério Público com o Dr. Weber Penafort, Educação, Defensoria Pública através da Dra. Ely Pinheiro, polícia militar e Caesa, cada uma desempenhando trabalhos específicos. É a Octogésima nona itinerância que acontece de 11 a 16 de um abril chuvoso de 2010.

Economia

A comunidade vive basicamente da pesca e extrativismo de subsistência, além dos benefícios oriundos dos programas do governo federal como bolsa escola e bolsa família do governo estadual. Algumas tentativas de alavancar a economia agregando valor ao pescado e mel de abelha foram abandonadas por falta de gestão e apoio governamental. O povo é belo por sua simplicidade e a natureza é pródiga em exuberante verde, mas não há um aproveitamento desse potencial na geração de renda através do turismo. Um projeto de hotel escola que junto à escola bosque formaria mão-de-obra local especializada em atender visitantes foi abandonado. Conforme o Dr. Dilso Matar, escasseiam os atendimentos trabalhistas em face da pouca empregabilidade formal. Na esteira de problemas da população jovem sem ocupação, a bebida alcoólica como fuga se faz constante na vida daquele povo.

Os trabalhos

Uma prece antes de iniciar as atividades é feita e as equipes se espalham caminhando sobre pontes de madeira com precária manutenção na vila onde o povo espera pelos atendimentos. Audiências são realizadas a bordo. Casamentos, dívidas, reintegração de posse, inclusive de animais e até briga entre vizinhos são resolvidas. Havia no mesmo dia da nossa chegada à Vila, um navio da marinha do Brasil, também prestando atendimento médico, odontológico e distribuição de kits de proteção para o eixo dos motores das embarcações, cuja ausência têm trazido prejuízos, principalmente às mulheres que são escalpeladas ao menor descuido com os cabelos soltos. A tripulação nos recebeu gentilmente e foi retribuída podendo conhecer por sua vez o barco da justiça.

Crueldade

No Bailique existe uma raça rara de cães que não tem pêlo. São dóceis e tranqüilos, mas a intolerância humana se mostra de forma cruel contra esses animais. Flagramos a cena triste do animal machucado. Infelizmente não vimos quem foi o autor do ato criminoso e não tivemos chance de denunciar. Em uma sociedade em que o descaso é tido como normal, direitos e respeito aos animais passa longe da mente das pessoas.

Serviços públicos

Água potável é um problema sério onde há um mundo de água, mas sem tratamento adequado e demanda crescente. Um senhor denunciou que a água consumida pela população é escura e levou uma amostra que segundo ele, foi colhida um dia antes na sua casa. Nesse momento, o promotor Weber Penafort se deslocou até a vila Macedônia do outro lado do rio para colher amostra da água que caía nas torneiras para análise. Estava aparentemente boa. Em conversa com o funcionário responsável pela estação de água, constatamos que o filtro existia há treze anos sem troca. O processo de tratamento se dá em meio de um ambiente sujo e mal conservado, com tubulações carcomidas pela ferrugem. Um problema sério é o atraso no pagamento dos profissionais que prestam serviço à CAESA. Eles estão há três meses sem receber.

O serviço de energia elétrica também é precário apesar de pago. Na Vila Progresso faltava luz em razão da queima de transformador que somente foi solucionada dia seguinte. A comunidade do livramento amarga há dias a falta de energia porque não há combustível para funcionar o gerador. Na Vila Macedônia há um poste de energia feito de madeira que está a ponto de despencar e causar um acidente de proporções desastrosas. A coleta de lixo, também não vem sendo feita com regularidade. No Bailique o lixo é recolhido por um gari que com dificuldade por causa da má conservação das pontes, e levado a depósitos onde ficam aguardando ser levados de barco para Macapá. Segundo denunciante, há dois meses que o lixo não é transportado. O posto de saúde de Vila Macedônia também foi desativado, obrigando a população atravessar o rio para ser atendida em Vila Progresso.

Arte de ler

A equipe das professoras Nelma Castilho, coordenadora e Nair Gama, arte educadora, desenvolvem o projeto “Mala mágica da leitura”, apoiado pelo governo federal, que consiste em incentivar a prática da leitura nas comunidades mais carentes. As ações se deram nas escolas e até mesmo em lugares abertos como o porto da Vila Progresso. Após a leitura, as crianças ganham algumas guloseimas. O processo é bastante dinâmico e interativo onde as professoras contam histórias e os alunos exercitam a leitura.

Infância Perdida

Uma cena nos chamou a atenção de maneira irresistível. Jovem mãe, semblante encantador, amamentava a filha enquanto olhava as outras crianças brincando de ler. Marly aos 15 anos de idade, já era mãe de uma criança de pouco mais de 1 ano. Estava ali para requerer pensão alimentícia para a pequena Maely. O pai, Rômulo, morador do igarapé Jangada, Já estava casado com outra menina de 14 anos que já carregava consigo um filho. Durante a audiência de conciliação a defensora pública, após ouvir as razões de ambas as partes, arbitrou uma pensão de R$50 mensais para Rômulo que é embarcadiço e ganha salário de R$350 mensais. Perguntada por nós se Rômulo não incorria em duplo crime pelo fato das mães serem menor de idade e o valor da pensão ser ínfimo, Dra. Ely, ponderou que é uma questão cultural a maternidade em tenra idade na região. São as contradições da Amazônia. Um povo rico de vida pobre, carente de tudo, principalmente de educação que no caso de Maely, foi algo que deixou de ter para poder cuidar da filha. O que será dela e de tantas vítimas dessa… “cultura”?

Descaso

A imagem fala por si, mas se não entendeu direito ou tem dúvidas, é um dentista extraindo um dente da mulher sentada numa cadeira de madeira ao relento insalubre. A foto foi feita na vila Macedônia, das duas no rio marinheiro, a mais abandonada. Dr. Johann nos contou que passou dois anos pedindo à prefeitura de Macapá, que providenciasse um reparo no valor de R$500 para a cadeira de dentista. Somente próximo a inauguração do posto de saúde da Vila progresso, é que foi executado o serviço. O dentista gaúcho que optou por viver na Amazônia é extremamente dedicado ao que faz e não medo de expor as dificuldades que enfrenta para o exercício de suas funções.

Causo

Entre os diversos conflitos observados, um nos chamou atenção em especial. Foi o caso de duas famílias que se desentenderam por causa de um dos filhos de uma senhora que se dizia ofendida pelo vizinho do outro lado do rio. O menino passou então a apedrejar a casa do vizinho atirando pedras com uma baladeira. O Ministério público teve que se deslocar para apreender a arma caseira que já havia sido destruída pela mãe. O promotor viu no bojo da questão, a raiz de um drama que poderá se alongar por uma vida inteira e que por muitas vezes acaba em verdadeiras guerras sangrentas entre famílias.

Beleza Amazônica

Ela se apresentou charmosa diante da nossa lente. Vestida com as roupas humildes do cotidiano, sua luz brilha acima das aparências. Beleza, espontaneidade e singeleza natural aos dez anos de idade em meio a uma vida absolutamente diferente do que se convencionou chamar qualidade de vida, se revelam plena diante de nossa pequenez. Quem será mais feliz? Ela cuja avenida é o Rio ou quem congela no ar refrigerado do Shoping Center?

Assim é o Bailique e sua dualidade. Aqui a injustiça, irmã do descaso convive com beleza de encher os olhos. Felizmente, algumas ações movidas por homens e mulheres de boa vontade fazem chegar na ponta desse imenso iceberg social, alguma esperança. Quanto teremos a percorrer ainda para que se possa levar a paz a todos os homens através do cultivo do amor? Que venha logo esse tempo novo onde todos se darão as mãos em uma prece de gratidão à vida e à esse Deus que rege a tudo e à todos nós.

A gente se vê, na Amazônia…

Chico Terra

Sobre Chico Terra

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