Aliança militar na América do Sul

Bruno Peron

Celso Amorim, Ministro brasileiro da Defesa, defende o aumento dos gastos militares do Brasil, que atualmente são de 1,5% do Produto Interno Bruto, para alcançar os dos outros BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), que é de em média 2,3%. O Brasil é um dos países que mais investem em Defesa na América Latina devido, por exemplo, à necessidade de vigiar as fronteiras extensas e combater o crime organizado. O país teve o 10º maior gasto militar no mundo em 2011 com 35,4 bilhões de dólares segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI, da sigla em inglês). Estados Unidos (gasto de 711 bilhões de dólares), China e Rússia são os três países que mais gastaram em Defesa em 2011 segundo a mesma instituição.

Um dos argumentos mais ingênuos dos defensores do aumento dos gastos militares no Brasil – mas que não é o de Amorim – é de que o país deve resguardar com equipamentos marciais suas reservas petroleiras em águas profundas. O receio deste grupo é de como se fosse provável que algum país agressor chegasse com seus navios e nos roubassem o óleo negro. Esquece-se de que este recurso energético já se rouba do povo brasileiro, que paga caro pelo que lhe pertence, através da abertura da Petrobrás ao mercado internacional de ações e que os ladrões estão mais sofisticados.

A indústria da guerra fomenta o incremento dos gastos militares governamentais para que haja desenvolvimento nacional, ainda que não se usem os equipamentos devido à chance exígua de um cenário de guerra na região. A proteção da floresta amazônica, por sua vez, não se propõe contra invasores estrangeiros senão contra a prática de desmatamento que empresários brasileiros promovem a favor da agricultura e da pecuária para exportação. Deve-se também fiscalizar a indústria madeireira e o uso dos terrenos da Amazônia em parceria com os países da fronteira norte.

É um exagero dizer que os gastos militares do Brasil devem-se equiparar aos da Rússia, que é um país dementemente militarizado. E sou testemunha ocular – pois estive lá em agosto de 2012 – de que tudo gira em torno dos tanques de guerra (onde crianças russas sobem para posar em fotos ao lado de sua família), de museus que exaltam feitos da Guerra Fria e da corrida espacial, e dos monumentos em memória da luta armada. O Brasil é um país pacífico, mas que deve investir em bloco na dissuasão.

A proposta é de que o Brasil baixe os gastos com Defesa e promova a criação de uma Aliança militar pelo menos entre os países do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) ou entre alguns países da UNASUL (União de Nações Sul-Americanas). Não é possível conciliar o interesse de toda América do Sul por enquanto devido às diferenças políticas consideráveis entre os que enxergam os Estados Unidos como um aliado de boa fé no comércio livre e outros que os veem como um exalador de enxofre. Em vez de cada país gastar individualmente com Defesa, os membros deste acordo militar contribuiriam com um orçamento que totalizaria um grande investimento em Aeronáutica, Exército e Marinha visando ao fortalecimento de toda área.

A Aliança militar funcionaria da seguinte maneira na América do Sul: Qualquer ameaça à segurança do espaço constituído pelos países da Aliança militar teria a resposta coletiva ou em bloco de seus integrantes, que se mobilizariam para a região que concentra o conflito ou onde há iminência de risco. Algo semelhante ocorre na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Os integrantes da Aliança executariam planos militares em conjunto para coibir problemas comuns, como o tráfico de drogas e o contrabando. A Aliança entre os países da América do Sul deve visar também à defesa dos recursos híbricos e minerais da região. A Aliança militar seria um passo para a frente na integração sul-americana.

A maior finalidade da Aliança é que a redução dos gastos de cada país em Defesa permitiria a transferência de orçamentos maiores para os setores de políticas sociais que mais precisam de investimentos nacionais, como Educação, Saúde e Trabalho. Os benefícios tornar-se-iam rapidamente notáveis em todos os países que integrem este mecanismo militar de integração. A Aliança traria um ponto favorável às políticas sociais em vez de aumentar os gastos com aparelhamento militar e treinamento para guerras que ninguém quer mais que aconteçam. Na balança, não haverá menores gastos militares senão o fortalecimento dos equipamentos e do pessoal de Defesa dos países membros com a somatória dos recursos de todos os países da Aliança.

Há que ter gastos militares consistentes diante da vulnerabilidade dos países às invasões e interferências dos EUAanos foras-da-lei internacionais e de seus súditos europeus (como Cool Britannia e França), que têm feito o que querem na África setentrional e no Oriente Médio. Chamam a bandalheira que praticam nestas regiões de “Primavera Árabe” e desrespeitam a auto-determinação de outros povos e a soberania de países como Egito, Líbia e Síria. Depois da bagunça em terra alheia, o patrimônio destes países vai parar como “doação” no British Museum ou no Louvre.

A Aliança militar na América do Sul é um caminho para a integração e o fortalecimento de seus países na dissuasão aos gigantes que são irresponsáveis no uso de seu poder. Quem sabe se a Aliança oferecerá o inseticida definitivo para remover por meio de um pedido formal coletivo o bedbug Cool Britannico das argentinas Ilhas Malvinas?

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