O segundo turno da eleição e a encalacrada do PSB

* Job Miranda
Aconteceu o que já estava previsto para o primeiro turno da eleição à prefeitura de Macapá; previsto tanto nas pesquisas de opinião como nas manifestações dos eleitores, nas ruas: derrota acachapante da candidatura do PSB. Além de acachapante, não foi uma derrota qualquer por ser inusitada e, num certo sentido, desmoralizante ‐ uma vez que, nunca antes uma candidatura a prefeito apoiada por um governador no Amapá (quem quer que fosse tal governador) tivera uma votação inferior a 24% dos votos. Nem mesmo Bala Rocha (ainda que Bala tivesse caído de paraquedas no domicilio Macapá, e, ainda, no que pesasse o desgaste da gestão do então governador Waldez) tivera, em 2004, votação tão pífia quanto o PSB, agora.

Em toda a história do Partido, e em todas as circunstâncias vividas, o PSB nunca tivera uma derrota de tamanha magnitude e de tão largo significado. Embora o tema deste artigo não seja a derrota eleitoral mencionada, destaca‐se aqui, apenas para efeito ilustrativo, as participações do PSB nos pleitos eleitorais majoritários municipais, em Macapá: em 1988, ganhou com Capi; em 1992, apoiou (e ganhou com) Papaléo; em 1996, foi de Waldez Góes; em 2000, ganhou com João Henrique; em 2004, concorreu com Janete; em 2008, foi de Camilo com Randolfe, de vice.

Da ilustração referida, tem‐se que, nas eleições dos anos mencionados, com exceção de 1996 (quando obteve 25%% dos votos, no apoio a Waldez), o PSB sempre obtivera votação expressiva, e expressiva com mais de 30% dos votos. Mas, tal expressividade ou performance fora desmanchada nesta eleição. Desmanche esse que, por ser inusitado, requer uma análise com profundidade em base científica, isso porque, se assim não se proceder (e, venha‐se dissimular, ocultar ou, mesmo, minorar o tamanho e a abrangência do citado desmanche, da derrota sofrida) se tornará impossível recuperar aquela expressividade (e desempenho) nas urnas.
Ilustrações à parte, o fato é que os pessebistas saíram do primeiro turno numa encalacrada: já com reflexo para a disputa de 2014, a primeira decisão estratégica que o PSB terá de tomar reside em como se portar no segundo turno desta eleição (que atitude tomar em relação a Clécio e a Roberto). Em miúdos, decidir como estratégia, o que é (ou será) mais lucrativo, ou menos prejudicial, a Camilo quando da recandidatura ao governo, em 2014, caso ele venha lutar por reeleição. E isso reflete uma encalacrada de tirar o sono, como que uma sinuca de bico.

Então, o que fazer? Essa indagação nos traz a memória uma obra de Lênin, líder da Revolução Russa de 1917.

O que fazer: apoiar Roberto ou apoiar Clécio? Ou então, privar a militância cristinaiana de orientação (“liberar a militância”) deixando‐a à deriva? Ora! Já que, deixar a militância à deriva não é opção nem saída, mas isolamento, só resta ajudar a eleger Clécio ou Roberto. Neste contexto, entra em cena a pergunta fatal: negociar o que, para apoiar um deles, se Waldez e Randolfe estão na espreita, de olho em 2014? Se Roberto for reeleito Waldez ressurgirá com toda força como governamentável, em especial se estiver sem condenação judicial. Se Clécio ganhar a eleição, Randolfe (que já está de pé na estrada), e que apresenta certa consolidação, ficaria mais do que nunca consolidadíssimo como candidato a governador para 2014.

Resguardadas as proporções (e complexidades de contexto), os pessebistas já experimentaram dilema como esse da hora. Experimentara em 2002. No segundo turno da eleição daquele ano, os Capiberibe orientaram voto em Waldez Góes. Orientaram voto em Waldez na fé de que, com aquela estratégia, retornariam logo-logo, e com certa facilidade, ao poder. Mas o tiro saiu pela culatra; tanto que os Capiberibe se surpreenderam impotentes diante da fortaleza do que se denominou Harmonia, a qual se tornara tão intransponível, que, não fosse a fortuna (um termo sacramentado por Maquiável), que neste caso se conota sorte [a sorte de contar com a operação denominada Mãos Limpas deflagrada pela Polícia Federal], o PSB tenderia a se tornar um partido nanico e os Capiberibe praticamente estariam “varridos do mapa”. Eis algo revelador de uma certeza, de que, em política, a estratégia operada com base na lógica aristotélica ou cartesiana torna‐se o caminho mais curto para a “morte”!

Voltando ao contexto atual, o drama do PSB parece ter cores assim: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. O pior de tudo (ou o melhor, conforme se queira) é que o espectro político amapaense não mais se restringe a dois blocos fundamentais, mas a três; de modo que, não há mais que se falar, pelo menos por algum tempo, em terceira via, mas em três blocos, dada a nova configuração de territorialidades organizativas com distribuição um tanto equilibrada de lideranças políticas e quadros eleitorais (Waldez, Capiberibe e Randolfe, quiçá, Lucas). Portanto, a coisa agora é mais complexa que antes, do que a conjuntura de 2006, por exemplo ‐ quando havia a polarização PSB versus PDT.
Todavia, tal polarização está superada. E, com tal superação, tornou‐se quase impossível a um bloco, qualquer que seja, vencer eleição em primeiro turno. Essa realidade impõe negociação aos blocos em disputa de segundo turno (juntamente) com o bloco perdedor no primeiro. Isso sugere que, caso Camilo dispute um provável segundo turno, em 2014, ele, Camilo, precisará do apoio do bloco que não passar para o segundo turno. Tendo isso em conta, o PSB não tem como abrir mão de visão estratégica aguçada e habilidade política superior à decisão que tomará neste momento; à qual, num pensar estratégico, não há espaço para vaidades inúteis, desagregacionismo irracional, inexperiência administrativa, e utilitarismo (refletido na esperteza de relação de mão única).

Então, pontualmente, eis a encalacrada do PSB. Tal qual em 2002, o PSB tem o poder de decidir a eleição a prefeito neste segundo turno; porém, nem o PSOL nem o PDT querem o apoio formal do PSB (visto que o PSB está satanizado, isto é fato; não querem porque pega mal), mas ambos querem o apoio do PSB de modo informal, subterrâneo. Os pessebista não podem (ou não poderiam) apoiar Roberto, depois de tudo que se disse sobre o que se denominou Harmonia. Apoiar Clécio? Este, Clécio, queria derrotar os Capiberibe em 2010 e, agora, o PSOL ajudou a eleger Robson Rocha à prefeitura de Santana [fato o qual levará mais dificuldades à campanha que visará reeleição a Camilo (?)] e, mais ainda (registrando novamente) consolida definitivamente a candidatura Randolfe ao governo, a qual já conta com a simpatia da FECOMERCIO e de Jorge Amanajás e poderá contar, também, com Lucas e Davi, se estes abrirem mão da concorrência, e, possivelmente com o PCdoB. Mas, de tudo isso, o lado mais perturbador dessa encalacrada seria errar no apoia, apoiar justamente o bloco que poderá levar ainda mais dificuldade a Camilo em 2014.

O ideal e desejável para o PSB seria apoiar, agora, o bloco que deverá ser o menos competitivo em 2014, uma vez que tal bloco poderá não passar para um provável segundo turno na próxima eleição a governador e, ainda por cima, poderia devolver a gentileza do apoio recebido do PSB à candidatura Camilo. Mas aqui aparece outro dilema, como saber ou prever isso? Quem sabe uma boa quali de laboratório preparadora de uma pesquisa quali de campo, seguida de outra boa quali de laboratório produza informações precisas e indispensáveis a um planejamento estratégico necessário à compreensão situacional do momento, num planejamento com participação de especialistas, dirigentes da organização e colaboradores experientes em elaboração de estratégia, possa, então, dá luz à resolução desse drama, dilema, sinuca de bico, porco, xeque, quebra‐cabeças, encalacrada do PSB.
Mas, repetindo, o aqui exposto como encalacrada só fará sentido se ocorrer segundo turno em 2014 e se nele Camilo estiver. Contudo, de repente, o PSB pode não ler o quadro da conjuntura eleitoral assim desse jeito, para, quem sabe, o júbilo de Descartes e Aristóteles, num tomar o rótulo pelo conteúdo. Todavia, por cautela, e isso interessa a todos, seria bom lembrar que já ocorreu, na política brasileira, um gestor com 80% de índice de aprovação perder a eleição da reeleição (como atesta a historiografia sobre eleições, à luz da ciência política, na obra do mestre Alberto Carlos Almeida); bem como, gestor com baixíssimo índice de aprovação ganhar a eleição da reeleição, e ganhar em primeiro turno, caso de Waldez Góes, em 2006, aqui mesmo, no Amapá.

*Job Miranda tem formação sociológica obtida na Universidade Federal do Pará, graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual de Santa Catarina e Pós‐graduação em Metodologia do Ensino Superior.

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