Milton Cunha: O gosto do cupuaçu

No meio da noite num quarto de Copacabana, exclamei: gosto de cupuaçu. As papilas de minha boca salivavam com a fortíssima sensação que a lembrança da polpa da exótica fruta provocava. Senti gosto, cheiro, tomado pela ilusão de que a floresta estava invadindo o meu pedaço de Rio de Janeiro. Meu companheiro ouviu minha exclamação, pensou e perguntou: mas onde tem isto? “Não tem, ou melhor, só tem no coração”, respondi.

Na manhã seguinte eu estava com os peões arrumando o palco do show de Dudu Nobre na Cidade do Samba, felicíssimo com a presença dos funcionários da Riotur em cima do mesmo palco, providenciado a gloriosa volta do concurso Rainha do Carnaval para sua casa de fato e de direito. Foi aí que o telefone tocou: “Milton, aqui quem está falando é o caboclo Armstrong, de Macapá. Lembra de mim?” Uma chamada do meio do mudo, lá do Monumento do Marco Zero, onde uma perna da pessoa pode estar no hemisfério Norte e a outra no Sul.

Como esquecer de um povo que tem o Carnaval Caboclo fortíssimo e um Rei Momo que atende pelo nome de Sucuriju? Há quatro anos atrás fui conhecer o Sambódromo deles e agora eles me chamavam para conhecer a recém-construída Cidade do Samba. O governo do estado está investindo forte rumo ao pretendido maior Carnaval do Norte do país.

Pois naquela mesma noite eu já estava no aeroporto de Belém saboreando o tal sorvete de cupuaçu que meu sexto sentido pressentiu na noite anterior. Aceitei o convite, ainda que não pudesse fazer a mala, e com a roupa do corpo parti rumo ao Delta do Rio Amazonas, tão largo em seus 50 km que de Macapá não enxergamos o outro lado da margem. Desci do avião e o Caboclo Armstrong, filho do velho curandeiro de Ervas Açacaca, me recebeu: “Me popeline, me tricoline, me javanesa!”.

Estava vaticinado que o Fórum Carnavalizando o Amapá seria tão fervido como os Tambores do Marabaixo, dança típica cabocla. Passei dois dias agradabilíssimos naquela caldeira efervescente, quente e úmida cujas noites são ventiladas. Uma rede atada nas margens do rio, a voz do cantor e secretário de Cultura Zé Miguel ecoando pelas veredas do boto tucuxi, todo o esplendor do Amapá se descortinando repentinamente, inesperadamente em minha existência.

E a sensação de que o menino que eu fui, correndo pelos campos do Marajó, estava logo ali, do outro lado da margem. Abri os braços em direção ao outro lado, fechei os olhos e ouvi os miúdos que corriam brincando na chuva. Abracei a imagem viva em minha mente, e depois de 50 anos chorei feliz e apaziguado pelo fato daquele rio ser minha rua, e para além da Zona Sul do Rio, tucanos e búfalos bailarem selvagens, dentro de mim.

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