O monge rico e o monge pobre

Dom Pedro José Conti - Bispo de Macapá
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Numa cidade tinha dois mosteiros. Um era muito rico ao passo que o outro era paupérrimo. Certo dia, um dos monges pobres se apresentou ao mosteiro dos ricos para se despedir de um amigo monge que morava por lá.

– Por algum tempo não vamos nos ver, amigo – disse o monge pobre – decidi partir para uma longa peregrinação e visitar os cem grandes santuários: rogo-lhe que me acompanhe com a sua oração porque terei que subir e descer montanhas perigosas e atravessar rios impetuosos.

– O que você leva consigo para enfrentar uma viagem tão longa e arriscada? – perguntou o monge rico.

– Somente uma cuia para a água e um saquinho de arroz – sorriu o monge pobre.

O outro estranhou a resposta e olhou para ele com severidade:

– Meu querido, você simplifica demais as coisas. Não pode ser tão incauto e desavisado. Eu também estou de partida para a peregrinação aos cem santuários, mas não viajarei antes de ter arrumado tudo o que poderá servir-me na viagem.

Um ano depois, o monge pobre voltou para casa e correu de pressa para visitar o amigo e lhe contar a grande e rica experiência espiritual, que tinha conseguido viver com a peregrinação. O monge rico escutou o amigo e, baixando os olhos, teve que confessar:

– Infelizmente, eu ainda não terminei a minha preparação para a viagem.

A historinha fala por si. Tem “preparações” que nunca terminam. Tem pessoas que se preparam a vida toda, mas esta fase preparatória demora tanto que dificilmente chega a uma conclusão e elas mesmas acabam esquecendo o que queriam ser, não sabem mais para quê se prepararam tanto.  A preparação – é o que diz a própria palavra – é o que vem antes do evento: uma ação anterior. Contudo o momento mais importante é o evento, não a preparação. Um bom preparo fará de um jovem um bom profissional, mas se a preparação nunca acaba, talvez aquele jovem não chegue a ser o profissional que queria ser. Possuirá, provavelmente, muita teoria, mas nenhuma experiência prática.

O tempo do Advento é uma preparação que se encerra com o evento do Natal. Devemos nos preparar para viver plena e conscientemente a alegria do nascimento de Jesus. De outra forma, arriscamos continuar na expectativa; o Natal virá, passará e… Nos deixará indiferentes. Todo o ano, temos esta possibilidade: preparar-nos bem para que o Natal do Senhor não se apague junto com os pisca-piscas e as demais luminárias chamativas que enfeitam casas e ruas. Nada mais fácil. Não foi suficiente todo o Antigo Testamento e a pregação vigorosa de João Batista para garantir, diríamos hoje, o “sucesso” de Jesus. Verdade que Ele não buscava nada disso, mas a sua morte na cruz revela uma rejeição quase total. Digo quase porque alguns, poucos, resolveram, também naquele tempo, deixar tudo e segui-lo. Fugiram na hora da paixão, mas depois, com a força do Espírito Santo, venceram todo medo e covardia.

Apesar de todas as promessas e de todas as profecias, muitos ainda estavam equivocados sobre o Messias que devia chegar. Esperavam alguém rico e poderoso, que resolvesse na hora todos os seus problemas. Jesus veio pobre, humilde e sofredor; no entanto com as suas palavras e ações, mostrou o caminho para que nós aprendêssemos por nossa livre vontade a solucionar, fraternalmente, as questões que afligem a humanidade. Ele ensinou o caminho do amor. Com a sua ressurreição venceu a morte, para nos garantir que a vitória final será dele.

O menino deitado na manjedoura do Presépio é o mesmo Jesus das Bem-aventuranças e dos Ais, que perdoa à pecadora e expulsa os vendilhões do templo; que chama a Deus de Pai e nos convoca para a comunhão da partilha e da unidade. Os pobres foram os primeiros a encontrá-lo e a adorá-lo. A longa espera tinha chegado ao fim.

“Preparai os caminhos do Senhor” grita João Batista. Preparemo-nos para acolher Jesus, desfazendo pré-conceitos e medos. Para a grande peregrinação da fé, não precisam muitas coisas: bastam a coragem da decisão e a leveza da liberdade. Para quem busca o Reino de Deus e a sua justiça, o resto lhe será dado por acréscimo (cf. Mt 6,33), como o monge pobre. O monge rico, pelo jeito, está ainda arrumando as malas.

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