Plantar uma árvore? Por quê?

Dom Pedro José Conti - Bispo de Macapá
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Um homem tinha noventa anos e começou a plantar uma árvore. Passaram três jovens e rondando-o, caçoavam dele.

– Até que nós entenderíamos se o senhor fizesse alguma coisa para ocupar o seu tempo, mas plantar uma árvore na sua idade?  Por quê? – diziam-lhe os jovens.

O homem continuou a trabalhar, sem dar ouvido aos comentários deles e dos demais que passavam na rua sorrindo zombeteiramente. Pouco tempo depois, o velho morreu. Passaram-se trinta anos. Certo dia, aqueles jovens, agora adultos, passaram perto daquela mesma árvore sem reconhecê-la. Viram que os frutos estavam maduros. Pegaram os frutos e os comeram com satisfação. Nem passou pela cabeça deles agradecer quem tinha plantado a árvore tantos anos antes.

É evidente que o assunto principal do evangelho deste domingo é a gratidão. Mas não só, tem mais. Ser leprosos, no tempo de Jesus e, ainda, em muitos séculos depois, significava a pior exclusão social. Por medo do contágio, estes doentes deviam sobreviver até a morte, longe dos povoados numa vida miserável e desumana. Jesus manda os dez leprosos, que imploravam a compaixão dele, apresentar-se aos sacerdotes. Com efeito, somente estes últimos eram autorizados a readmitir alguém leproso no meio da sociedade, quando era constatado o desaparecimento da doença. Ao longo do caminho, diz o evangelho, todos dez ficaram curados. Percebendo o que tinha acontecido, eles devem ter pensado simplesmente que Jesus era um grande curandeiro e que eles tinham tido sorte a encontrá-lo. Afinal, Deus é bom e eles eram homens religiosos. Nada mais. Com certeza agradeceram a Deus. Nove deles não acharam importante voltar para agradecer a Jesus. Somente um samaritano, um desviado, o menos religioso de todos, voltou. É este gesto que faz toda a diferença.

Humanamente falando, agradecer significa reconhecer que recebemos algo de bom por pura gratuidade e generosidade do outro. O bem que recebemos é feito por alguém, não acontece sozinho: alguém se empenhou para nos ajudar, para ficar perto de nós, para nos ensinar o que não sabíamos, para nos doar o que não tínhamos. O bem tem nome, também quando não conhecemos o benfeitor.

Muitos gastaram tempo, energias e deram a própria vida para chegar onde estamos. Nós colhemos os frutos daquilo que outros plantaram. Vale para a natureza, mas também para a ciência, a filosofia, a democracia, os direitos humanos. Quanto pequenos passos foram dados, ao longo dos milênios da história da humanidade! Nós não somos os primeiros moradores deste planeta e temos a responsabilidade de deixá-lo melhor, como herança digna aos nossos sucessores. Melhor para viver e conviver.

Cada nova geração, com a sua natural rebeldia, pensa que esteja errado tudo o que os outros fizeram e que tenha que refazer tudo de novo. Refletindo um pouco deveria ser grata pelo caminho andado e pelos caminhos abertos. Até uma vereda na mata ajuda a alcançar a meta. Entre nela e abra mais o caminho. Outros virão atrás pisando nas suas pegadas.

E Jesus? Para nós cristãos ele não é simplesmente o maior milagreiro que existiu. Nós os chamamos de “salvador”. Ele quer nos curar não só das lepras do nosso corpo, ele quer ser o médico das nossas doenças interiores, aquelas que não nos deixam amar nem a Deus e nem ao próximo.

Ao leproso que se atirou aos seus pés, Jesus disse: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou”. Pela fé o leproso, agora curado, reconheceu naquele homem Jesus, aparentemente igual a todos os outros, alguém diferente. Ele reconheceu que Deus não estava longe, em Jerusalém ou no monte Garizim, o lugar sagrado dos samaritanos. Deus tinha o rosto e o jeito de Jesus. Agora era possível dizer-lhe “obrigado” pessoalmente.

A salvação de Deus começa a acontecer quando o amor se torna visível, quando aproxima pessoas reais, com seus sofrimentos e alegrias, com sua gratidão sincera. É esta gratidão que multiplica o amor. Não para pagar uma dívida, mas porque percebemos a transformação que aconteceu em nós, porque foi grande demais o bem recebido sem merecê-lo. Quem não sabe agradecer pelo amor recebido, ainda não aprendeu a amar.

Em tempos de Círio, agradeçamos também à Maria. Com seu sim ao Pai, ela estava amando o Filho e com ele estava amando a todos nós. Muito obrigado Nossa Senhora de Nazaré.

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