Roraima – Índios repudiam propaganda de que passariam fome

Deputados constatam que povos indígenas de Roraima vivem melhor que há cinco anos.

Brasília, 18/12/2013 – A Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas publicou, nesta terça, 17, o relatório da viagem à Terra Indígena Raposa Serra do Sol, realizada entre os dias 06 a 08 de dezembro. Com mais de 20 páginas, vídeos, slides e fotografias da visita às aldeias, o relatório será apresentado à Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS), ainda nesta semana, com recomendações às autoridades do governo federal para viabilizar as necessidades relatadas à comissão. Formaram a comitiva parlamentar a deputada Janete Capiberibe (PSB-AP) e os deputados Padre Ton (PT/RR) e Renato Simões (PT-SP).

Membro da comitiva que se deslocou à Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, para averiguar a situação em que vivem as etnias após cinco anos da retirada dos não índios da região, a deputada Janete Capiberibe (PSB/AP) disse não ter encontrado um único indígena para corroborar o discurso de parlamentares ruralistas de que estariam passando fome depois da desintrusão.

“Encontramos fartura, um povo feliz e orgulhoso da sua situação. A demarcação é uma parte da justiça com os povos tradicionais e resgata sua dignidade. Não há a menor sombra de dúvida que a demarcação melhora a vida dos povos indígenas”, afirma a deputada Janete.

“Eles repudiaram a propaganda de que passam fome, de que estariam em situação precária por causa da retirada dos arrozeiros de suas terras”, declara Padre Ton. “Se teve índio vivendo em lixão isso ocorreu porque foi levado para lá, conforme as lideranças, por arrozeiros interessados em suas terras”, diz o deputado.

Segundo os parlamentares, há grande preconceito com os povos indígena que se se manifesta, por exemplo, no fato do governo do Estado não ter feito mais a manutenção nas estradas que levam às aldeias.

“As estradas, antes conservadas para servir aos fazendeiros, depois da demarcação foram abandonadas. As escolas e os postos de saúde existentes foram construídos pela própria comunidade com a ajuda de parceiros”, disse o coordenador-geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Mário Nicácio, que acompanhou a comitiva.

Nicácio, que fez o convite à Frente Parlamentar de Apoio aos Povos Indígenas para visitar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, condenou o discurso dos deputados da Comissão da Amazônia que lá estiveram em abril deste ano.

“Os índios de Roraima não estão morrendo de fome e nem estão precisando catar lixo para sobreviver”, afirmou, no primeiro encontro da comitiva, no sábado, 6, na sede do CIR em Boa Vista.

A liderança Macuxi Abel Lucena endossou: “Quem disser que os índios de Roraima passam fome está mentindo. O que precisamos é de apoio dos governos para desenvolvermos projetos nas áreas da cultura, educação, produção agrícola e infraestrutura”, disse.

Para a comitiva de parlamentares, recebida com festa por mais de 2 mil índios na visita à região das Serras, no Centro Regional Maturuca, porção Nordeste da TI Raposa Serra do Sol, não há dúvida de que os povos indígenas vivem melhor agora do que antes.

Atualmente, com apoio da Diocese de Roraima, a produção de gado chega a 60 mil cabeças. Eles produzem arroz, milho e farinha e criam outros animais, como porcos e galinhas.

O representante da Ordem dos Advogados do Brasil em Roraima, Antonio Oneildo, disse “ser fato que há uma melhora na vida dos indígenas”, mas denunciou: “Onde eles estão não tem melhorias do Estado; onde estão os brancos tem estradas asfaltadas, para os índios nada; o Luz para Todos não existe e os anti-indígenas usam o IDH para depreciar os povos indígenas”.

Educação

As lideranças e os representantes das instituições federais – Universidade e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – relataram muitos problemas na educação. Não há transporte para operacionalizar o material de uso nas escolas, faltam professores e escolas.

A reitora do IFRR disse ser necessário mais recursos para manter o programa de seleção especifica de jovens indígenas para cursos de formação baseados nos saberes das etnias, e o representante do Instituto Socioambiental (ISA) na região declarou que mais de 100 alunos indígenas já se formaram pela Universidade Federal de Roraima nos cursos de gestão territorial e gestão de saúde indígena, mas o desafio é manter a oportunidade para novos estudantes porque a Funai não tem mais a responsabilidade de conceder bolsas de estudo e o Ministério da Educação não assumiu essa tarefa.

Para o deputado Renato Simões (PT-SP), a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol “foi a maior conquista do movimento indígena do Brasil nos últimos anos” e avaliou que os “ataques à imagem dos índios da região tem o propósito estratégico de enfraquecer a luta dos indígenas e assim impedir demarcações em estados como Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Bahia”.

Ao falar às lideranças indígenas, o deputado Padre Ton incentivou a defesa da representação parlamentar indígena para que as etnias possam garantir políticas públicas na educação, infraestrutura, assistência técnica para a produção agrícola, projetos para capacitação e geração de renda etc.

Comunidade Barro

Primeira a ser visitada, a Comunidade Barro, na região Surumu, onde vivem cerca de 500 indígenas, recentemente sofreu represálias de fazendeiros – atearam fogo no prédio do antigo internato e na capela da comunidade, destruindo parte das instalações.

Na região funciona o Centro Indígena de Formação Cultural Raposa Serra do Sol, mantido pelo CIR e Diocese de Roraima, empregando a pedagogia da alternância na formação dos jovens indígenas em cursos de técnico em agropecuária e gestão territorial.

Texto:

Mara Paraguassu

Fotos:

Luiz Rodrigues

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