A grande muralha

Dom Pedro José Conti - Bispo de Macapá
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Muitos anos atrás, os moradores da antiga China construíram, acompanhando os limites do seu país, uma grande muralha. Muita parte dela existe, ainda hoje, e é uma das maravilhas do mundo. É uma obra grandiosa que mede centenas de quilômetros. Os chineses queriam impedir que as tribos nômades do Norte invadissem o território do império. Achavam-se protegidos pela muralha que tinha custado tempo, dinheiro e muitas vidas. No entanto, os inimigos entraram na China por três vezes. Sem quebrar a muralha e sem arrombar as portas. Foi suficiente corromper os guardas. A fraqueza vinha de dentro.

Iniciamos os domingos do Tempo Comum até o começo da Quaresma. Jesus se apresenta publicamente. Mas quem é ele de verdade? A que serve procurá-lo? Na página do evangelho de João, deste domingo, temos duas afirmações sobre Jesus. Uma é de João Batista: – Eis o Cordeiro de Deus – e a outra é de André que diz ao seu irmão Simão: – Encontramos o Messias. São palavras que fazem referência à linguagem e a espera secular do Antigo Testamento. Devia chegar o “Cristo”, o ungido de Deus. Mas para fazer o quê? Nós hoje estamos acostumados a resumir tudo com poucas palavras: ele veio para nos salvar. Chamamos Jesus de Cristo, de Messias Salvador. Mas, salvar-nos de quê? De novo uma resposta fácil: do mal e do pecado. Aqui, porém, começa o difícil: o mal e o pecado estão dentro ou fora de nós? A resposta que damos a esta pergunta muda, de fato, o nosso relacionamento com Jesus, com a Igreja e com a sociedade na qual vivemos.

Se achamos que o mal e o pecado são obra do “inimigo”, ele está fora de nós. Se for verdade, bastaria organizar algumas defesas para nos proteger. Vivemos, assim, angustiados para descobrir as brechas da nossa vida pelas quais o “inimigo” poderia entrar. Se respondemos que o mal e o pecado estão dentro de nós, evidenciamos os nossos defeitos e, quando nos sentimos cada vez mais incapazes de superar as dificuldades, caímos na tentação de desistir, como se tudo dependesse de nós e não da graça do Senhor.  Ambas as respostas são verdadeiras. O mal e o pecado estão dentro de nós, porque sempre teremos que combater as más inclinações do egoísmo que nos afasta de Deus e dos irmãos. Mas também o mal está presente e atuante na sociedade, no mundo, cada vez mais atrativo, porque disfarçado de bem, chamando-nos com os seus convites à libertinagem, à ganância, a fechar os olhos sobre a violência, a injustiça, a exploração e desumanização de pessoas tão dignas como nós. Como nos defender?

Como cristãos não temos soluções mágicas, milagrosas ou imediatas. Se algumas destas aparecerem, podemos desconfiar. O caminho para a salvação é outro, nada fácil, mas também não impossível. Será o mesmo dos primeiros dois discípulos que queriam saber onde Jesus morava. Não era a busca do endereço de uma rua, mas de um “segredo”, isto é de onde vinha a força com a qual ele lutava e vencia o mal. Sobre qual “alicerce” estava fundada a existência daquele Jesus capaz de amar até doar a própria vida? Mais uma vez, a resposta está na intimidade dele com o Pai, mas é algo também de acessível para nós, na condição que aprendamos a “permanecer” com Jesus. Estando com ele, nós também aprendemos a “passar” a vida fazendo o bem (cf. Atos 10,38).

Quando amamos estamos dobrando o nosso egoísmo. Ao mesmo tempo, por simples e escondido que seja o nosso agir, estamos sendo aquele fermento que um dia levedará toda a massa e aquele sal que tempera até os sofrimentos da vida. O amor inseparável a Deus e ao próximo nos transforma de dentro e de fora. Os nossos pecados serão lavados pelo bem feito e os inimigos se tornarão amigos porque amados, apesar de tudo. Não vamos mais precisar de muralhas. Precisamos “permanecer” mais com Jesus.

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