Perdido na cidade grande

Dom Pedro José Conti

Quando eu era criança, fui com meu pai a uma cidade grande. Nascido no interior, nunca tinha visto tantas ruas, tantos prédios, tantos carros e tantas lojas. Aquele vaivém de gente e de carro me deixava zonzo.
Eu andava agarrado na mão do meu pai, mas olhando para todas as direções, encantado com aquilo tudo, de uma só vez. Enquanto o pai estava negociando o preço de uma mercadoria, passaram alguns homens que caminhavam em cima de pernas de pau. A roupa deles era toda colorida e o rosto pintado. Eram palhaços. O carro de som berrava: “Hoje tem circo, meninada!” E o bando de crianças, que o seguia, respondia gritando: “Tem, sim, senhor!”. Eu me senti atraído também. Entrei na turma e me misturei com os outros. Só mais tarde me dei conta que já estava longe de meu pai, perdido no meio do povo, naqueles lugares desconhecidos. Assustado, comecei a chorar e a gritar, chamando o nome do meu pai. Algumas pessoas tiveram compaixão de mim e me ajudaram a encontrá-lo. Ele, também, estava preocupado, olhando ao seu redor, até que, finalmente, nos enxergamos. Foi aquele abraço! Graças a Deus ele não tinha saído do lugar onde o tinha deixado. Estava lá, só me esperando.

Esse caso está entre as memórias de um escritor. É bem possível que, de uma maneira ou de outra, todos nós tenhamos passado por uma situação semelhante. Na hora do medo, com certeza, prometemos a nós mesmos nunca mais largar a mão do pai ou da mãe. Depois crescemos e esquecemos.

O evangelista João, é um mestre na maneira de nos conduzir à reflexão e, assim, comunicar-nos a boa notícia. Por trás da página do evangelho deste Terceiro Domingo da Páscoa têm algumas perguntas que as primeiras gerações de cristãos já se faziam: Jesus, agora ressuscitado, está presente ou ausente da sua comunidade? Abandonou os seus discípulos? Claro que não. Jesus está lá na beira do lago, mas precisa ser reconhecido e, sobretudo, amado. Vamos ver como João nos diz isso com gestos e palavras.

Em primeiro lugar, a comunidade continua. São sete, número simbólico, e dois discípulos não têm nome. São os novos cristãos, somos nós. Eles vão pescar…peixe. Mas deviam ser pescadores de homens, como tinha prometido Jesus. A pescaria agora é diferente. Para pescar “gente” precisa obedecer à palavra de Jesus ou seja: jogar a rede do jeito certo! Logo enchem a rede e o discípulo que Jesus amava reconhece o Senhor. É Pedro, porém, quem assume a responsabilidade – veste a roupa – como foi ele também que disse: “Eu vou pescar”. Pedro alcança Jesus na beira do lago e ele os convida a comer. Ainda hoje proclamamos: Felizes os convidados para a ceia do Senhor. A refeição é claramente o gesto da Eucaristia, memória-presença do Senhor. Também os discípulos de Emaús, em Lucas, reconheceram Jesus “ao repartir o pão”. Agora todos sabem que aquela pessoa é Jesus, mas o reconhecimento dele não é algo simplesmente exterior, que passe só pelos olhos e pela cabeça. O seguimento, a responsabilidade do rebanho, a missão, passam antes pelo amor. Daí a pergunta de Jesus a Pedro repetida três vezes: “Pedro tu me amas?” – Somente o amor abre à confiança, à obediência, à coragem de dar a vida por causa do Senhor. A comunidade de Jesus, a Igreja, antes de ser uma instituição visível e estruturada é uma comunhão de amor que se alimenta com a Eucaristia, a Palavra dele e a partilha entre os discípulos sem nenhuma exclusão.

Assim Jesus está presente na sua Igreja e continua nela e com ela a sua missão salvadora. Para que ele seja reconhecido, os seus discípulos, que hoje somos nós cristãos batizados, precisamos viver e praticar ao, mesmo tempo, tudo o que o Senhor nos deixou: Palavra, Eucaristia, comunhão e missão. Devemos ser uma comunidade viva que celebra a sua fé, a anuncia com coragem e dá testemunho de unidade e misericórdia. Ele é sempre o mesmo nos aguardando e chamando com o mesmo amor. Se, às vezes, sentimo-nos perdidos é porque deixamos de segurar na mão dele. Sempre haverá alguém passando para nos distrair. Só passando… Jesus permanece.

Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

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