Um papo no tucupi com Vavá da Matinha

Euclides Farias é jornalista e cronista

Em tempos de lembranças e homenagens ao cantor Osvaldo Oliveira, que completaria 82 anos no mês passado, achei oportuno republicar uma entrevista que fiz em 2001 com o artista. A entrevista foi feita com gravador de mão na antessala do gabinete do então presidente da Funtelpa, Nélio Palheta. Tanto serviu para um programa especial de redenção artística e midiática do esquecido Vavá da Matinha que roteirizei para a Rádio Cultura, dentro de um amplo projeto de incentivo estatal ao artista, quanto para a seção de entrevistas Papo no Tucupi, do extinto site Belém do Pará, editado pelo jornalista Tito Barata.

É um documento da vida e obra do artista paraense que mais divulgou o Pará em todos os tempos, em 30 LPs. Não é à toa que tanta gente boa da música, do jornalismo e da cena cultural se rende ao talento de Vavá e se reveza em homenagens ao cantor, como JBosco Azevedo, Edir Gaya, Tito Barata,Edson Coelho e – acabei de saber da Gafieira do Vavá – Luis Girard, além de tantos outros.

Amigo, admirador e grande divulgador de Vavá, o maestro Manoel Cordeiro esteve no primeiro time da força-tarefa pró-Vavá. Cordeiro, que só agora encontrei aqui pelo FB, formou uma banda da pesada para comandar o show beneficente no Parque da Residência, naquele distante 2002 de alegrias.

Espero que gostem deste Papo no Tucupi com a irreverência de Vavá, publicado no dia 18 de fevereiro de 2001:

Foi por um triz. Em 1970, o cantor e compositor Osvaldo Oliveira, o Vavá da Matinha, escapou da morte ao não embarcar em São Luís no hirondelle da PTA, a Paraense Transportes Aéreos, que se espatifou na baía de Guajará. Perdeu a hora do voo, entretido com a beleza de uma prostituta, numa boate maranhense. Hoje, o artista brinca com o episódio ao lembrar que a sigla da companhia de aviação de alto risco significava “Prepara a Tua Alma”. Diverte-se ao recordar, com ironia cortante, que a mulher que sem querer salvara-lhe a vida atendia pelo diligente nome de Maria do Socorro.

Onze antes do desastre aéreo, Osvaldo Oliveira, então radiotelegrafista da Aeronáutica, já decidira alçar um voo mais longo – pela música, com destino ao sucesso. Com 24 anos de idade e nascido em meio à malandragem do bairro da Matinha, ele armou uma conspiração no quartel da corporação. Letrista, intérprete vigoroso e consciente de que a carreira artística só decolaria se sua música fosse ouvida pelos bambas cariocas, o cabo Freire (era o nome de guerra) convidou os milicos da seção competente para uma farra homérica. No dia seguinte, como prêmio pela noitada regada a muita música, estava com a tão sonhada assinatura nos papéis de transferência para o Rio de Janeiro, à frente de sargentos e oficiais.

Foi assim, aliando talento e esperteza, que Osvaldo aterrissou em 1959 no centro cultural do País. De lá pra cá, durante 40 anos, construiu uma das carreiras mais sólidas entre todos os artistas paraenses. Gravou 30 elepês, com repertórios recheados de forrós, merengues, carimbós, sambas de breque, cocos e boleros. À temática paraense dedicou 46 composições e se tornou talvez o maior divulgador de sua terra natal fora dos limites dela. Do radialista Elói Santos ganhou o apelido Vavá da Matinha. Foi um dos artistas mais disputados para shows pelas casas noturnas de Belém, sobretudo na época de ouro da Condor, a zona boêmia mais famosa que a cidade já teve.

São da verve de Osvaldo Oliveira as nostálgicas Telegrama (Recebi um telegrama/Do meu velho pai/Me pedindo pra voltar/O meu pai é fazendeiro/Na ilha do Marajó/No Estado do Pará) e Este ano irei a Belém (Uma boa caranguejada/Um banho de água doce/Lá no rio Guamá/Se Deus quiser/Este irei ano eu irei a Belém do Pará”).

Lançado em 1972, o maior sucesso de público é, até hoje, o bolerão Só Castigo (Ali está/Aquele amor que pertenceu à minha vida/A quem outrora eu chamava de querida/Fiquei surpreso quando ali avistei/Ali está/ Distribuindo seu amor neste recinto/Tudo é verdade/Podes crer, pois eu não minto/Ali está a mulher que tanto amei). Com este disco, Osvaldo Oliveira destronou o “Rei” Roberto Carlos da liderança do ranking de vendagem de discos catalogado pela CBS. Naquele ano, Roberto lançou um elepê em espanhol e se deu mal, gaba-se Vavá.

Agora, ao comemorar 40 anos de carreira, ele volta à cena aos 65 anos com o CD “Osvaldo Oliveira – Revisto e Ampliado”, que será lançado às 21 horas deste sábado, 13, na Estação Gasômetro, em show que terá as participações de Lenne Bandeira, Letícia Secco e Almirzinho Gabriel e de uma banda de 12 músicos comandados pelo maestro Manoel Cordeiro. O disco sai pela Girassol Record. É apoiado do selo “Cultura Paraensíssima”, recém-criado pela Rádio Cultura FM para incentivar a obra de artistas paraenses que deram grande contribuição à música local, num trabalho de resgate cultural.

Osvaldo, de você já se disse quase tudo. Até que havia morrido. Vivinho da Silva?

OO – Mais do que nunca. Mas sabes por que? Porque eu não peguei aquele Hirondelle da PTA, o famoso Prepara a Tua Alma. Eu não vim naquele, compadre porque… (em tom de galhofa) porque eu fiquei com a Maria do Socorro lá no Maranhão. Aí caiu o Ludugero, lamentavelmente; caiu o Otropi e uma montoeira de passageiro tudinho. Mas o papai aqui, graças a Deus, fiquei lá com a comadres, e eu adoro isso, lá no quengaral, perto do Tirirical (aeroporto de São Luís).

É, escapou fedendo. E agora, dez anos longe dos discos, qual a emoção?

OO – Mais do que emoção. Tá me dando é uma canseira danada, porque eu tô me virando mais do charuto em boca de bêbado. Agora mesmo eu to vindo de um jornal, estou indo pra outro, to fazendo esta entrevista aqui. E, nego velho, tenho rebolado mais do que rumbeira. Dez anos parado eu já não estava mais com aquela jogada de cintura para as rádios, corre pra cá, pra acolá. E ainda mais eu estou morando lá em Castanhal, com uma dose de sossego, já com a quarta família. Então, eu não estava mais com aquele pique do Rio de Janeiro, onde passei 30 anos trabalhando, fazendo esse nome crescer e conhecido é por todo o Norte/Nordeste do Brasil. Agora, como dizia o finado Jackson do Pandeiro, eu tive que entrar com o cacete na mão pra poder reviver o Osvaldo Oliveira.

Você começou a carreira na década de 50 em Belém, quando ainda existiam os programas de auditórios nas emissoras de rádio. Conta essa história pra gente.

OO – Eu comecei cantando em programa de calouros, lá na Rádio Clube, que ainda era lá no Jurunas. Era o programa do saudoso Lourival Penalber e o nosso amigo Guiães de Barros, que era o maestro, com um regional formado pelo o Aurino, o Bianor, que era meu primo e pandeirista. Depois de calouro passei a contratado e a cantar no programa “A sorte encontrou o seu endereço” e, mais tarde, em programas de auditório, já no Palácio do Rádio. Da Clube fui para a Rádio Marajoara. Quando a rádio inaugurou fiz teste com o saudoso Providência e passei. Era eu, a Miriam Matos, o Cecílio Franco, o Zé Augusto – um time tremendo de bom, sabes. Da Marajoara só saí quando fui transferido pela Aeronáutica, que eu era cabo, para o Rio de Janeiro, onde consegui me profissionalizar.

Transferido para o Rio num lance de malandragem…

OO – É, eu tive que aplicar. Me meti com o pessoal da transferência no “Escritório”, que era nada mais nada menos do que um bar que ficava perto do Ministério da Aeronáutica. Era o primeiro time do because house (ri do trocadilho). Cantei pra eles, batendo com caixa de fósforo na mesa. Um sub-oficial perguntou: ‘Quer servir no Rio de Janeiro?’. Respondi: ‘Ó, senhor, se é isso o que eu mais quero”. E aí, malandro, caiu a sopa no mel.

Como foi a chegada ao Rio? Naquela época devia ser uma guerra de foice. Muita rivalidade?

OO – Muita rivalidade. A minha voz parecia muito com a do Jorge Veiga, cantor antigo de samba de breque e que sempre foi meu ídolo. Aqui, quando calouro, devido eu ser nasal, eu cantava samba de Jorge Veiga. E aí fui muito perturbado pelo Jorge e pelo Jackson do Pandeiro, que achavam a minha voz muita em cima da deles. Mas aí o Jackson foi pra cima do Jorge Veiga e, como o sol nasceu pra todos, fui me saindo. No Rio, eu conheci o Bezerra da Silva, que naquela época era só compositor, e mostrei o meu repertório. Ele me levou na casa do Jackson do Pandeiro, que era na Cândido Mendes, na Glória. O Jackson me mandou mostrar umas músicas e ficou com duas. Uma foi Caso de Polícia. [cantarolando] Quem te viu e quem te vê/Não te conhece mais/Nem conhece aquela dona de cinco anos. A outra era Secretária do Diabo [cantarolando] O diabo quando não vem/Manda o secretário/Eu não vou nessa canoa/Que eu não otário. Tempos depois eles mexeram na letra – ele e a Almira Castilho (mulher de Jackson) -, eu não gostei e por isso regravei a música. Cheguei até a ficar quase indiferente com o Jackson, com o José Gomes, que era o nome de batismo dele. Mas seguimos em frente.

Como foi a saga para gravar o primeiro disco da carreira?

OO – Apareceu um camarada de São Paulo chamado Leonel Cruz. Era pra fazer um disco com vários cantores, até com dupla caipira. Tinha Noca do Acordeon, Geraldo Nunes, Luiz Wanderlei. Me arrumaram duas faixas nesse disco, que eu apelidei de “Pau-de-Sebo”. E quem despontasse no “Pau-de-Sebo” ganhava um 78 rotações separado pela Chantecler. Do time todo fui o único que saí. Fiz o meu primeiro 78, veio o segundo 78, com direção musical do Palmeira, da dupla Palmeira & Biá. Foi esse Palmeira o primeiro cara que realmente apostou em mim e, mais tarde, já pela Continental, mandou eu escolher o meu repertório para gravar o meu primeiro elepê, que se chamou Eterna Lembrança do Norte. Isso em 1960. Tinha lá [cantarolando] Eu vou, eu vou/Já chega de regressar/Vou rever o bairro de Canudos, a Pedreira e o Guamá. [cantarolando] Navegam os vaqueiros alegres/Cantando/Nas águas de Paquetá/Recordo o meu tempo de infância/Remando nas águas do meu Guajará. Só nesse elepê tinham quatro músicas falando no Pará.

O seu maior sucesso foi mesmo Só Castigo, de 72?

OO – Aí eu já estava no bolero. Foi uma pedida do seu Evandro Ribeiro, que era o superintendente da CBS e produtor do Roberto Carlos. Era um baixinho que tinha um olho clínico, sabia onde morava o pica-pau. E como eu já tinha gravado o bolero Responde Saudade num elepê do Abdias (sanfoneiro de oito baixos e então diretor artístico da gravadora), que vendeu muito. Por causa disso, o seu Evandro Ribeiro pediu que eu gravasse um elepê com boleros. Aí veio a música e o título Só Castigo. Esse bolero me consagrou no Brasil todinho.

Antes de mergulhar no bolero, você integrou a caravana da CBS que saía do Rio para o Norte/Nordeste. Fale dessas viagens.

OO – Era a Caravana Pau-de-Sebo, que, por sinal, moralizou a música regional, nordestina. O saudoso e incansável Abdias idealizou essa caravana para shows de divulgação e vendagem dos discos. Nós saíamos do Rio de Janeiro. Os discos eram gravados em outubro e novembro e, logo depois do Carnaval, a CBS lançava, na frente das demais gravadoras. Era eu, Osvaldo Oliveira, que sou eu mesmo desde pequeno; era o Jackson do Pandeiro; era a Marinês, que era a esposa do Abdias, comandante pela CBS; era o Messias Holanda; era o Edson Duarte, Jacinto Silva, Ludugero, Otropi. Ao todo, 22 artistas. Saíamos do Rio e em Vitória da Conquista, na Bahia, nos encontrávamos com outra caravana que saía da outra ponta do Nordeste. Vinha a cantora de forró Marlene Vidal, Luiz Jacinto e uma cambada. Fazíamos a seleção e ganhávamos a estrada, fazendo todo o Nordeste e o Norte, até Manaus.

E como era a Belém boêmia, na fase de esplendor da Condor?

OO – Tinha a boate João de Barros, a campeã da noite, o Palácio dos Bares. João de Barros, que Deus já levou, meu amigão. Ali só cantava gente de gabarito: Jamelão, Nélson Gonçalves, até a Dalva de Oliveira, a rainha do rádio, chegou a cantar lá. No começo eu cantava no Patesco, que era mais pobre que o João de Barros. E eu dei uma canseira no João de Barros. Ele queria eu largasse o Patesco, pagando dobrado, porque eu tava atrapalhando a casa dele, tirando o público de lá. Eu recusei. A minha ligação com o Patesco vinha desde a Vila Farah, onde ele tinha uma barraquinha e onde eu dizia pra ele que ia pro Rio, ia fazer sucesso e cantar, de estréia, na casa dele. E fiz isso. Quando terminou o contrato com o Patesco, passei pro outro lado da rua, pro Palácio dos Bares. Me lembro que fiz uma vez um show de duas semanas com o Jamelão, ele com aquela roupa verde-e-rosa da Mangueira. Era eu que acordava o Jamelão às três horas da manhã. Depois de muito tempo foi que surgiu o Lapinha, que não era ali naquelas quebradas, era pra cá pro Marco…

E os outros bairros?

OO – Na Pedreira tinha a Lucimar; em Canudos, o Piratininga, e por aí afora. Era tanta casa noturna que nem me lembro de todas, mas sempre fui solicitado, sempre me deram apoio e é por isso é que eu gosto da minha terra. Dizem que santo de casa não faz milagres, mas aqui eu sempre fui bem contratado e bem pago.

Osvaldo, “Telegrama” e “Este ano irei a Belém” ficaram na memória musical de duas gerações. Evocam, com saudade, as coisas do chão paraense. Fale disso.

OO – Eu uma saudade danada de fim-de-semana no Rio que me levava a me inspirar com as coisas do Pará. Antes dessas, fiz Fico aqui, o quê! (cantarolando): A saudade apertou, eu não posso ficar/Vou ver minha gente/Abraçar os parentes em Belém do Pará/Eu fico aqui, o quê?/Eu não quero mais ficar/Eu fico aqui, o quê?/Eu vou me embora pro Pará. Depois veio o telegrama que meu pai, que morava no Apeú (Castanhal) me mandou. Junto com ele veio a saudade e mais uma música. Nessa época, tinha lá no Apeú uma legião de parentes e amigos, como a tia Antônia, que está viva, e o finado tio Chico Caroço, que foi um dos incentivadores da minha carreira artística. Tio Caroço tocava violino, Bianor, Joaquim tocava flauta e a parentada formava uma bandinha. Pra eles fiz uma canção junina que diz assim: Bota a lenha pra fora/E prepara a fogueira/O arrasta-pé vai ser a noite inteira/Chama o menino e escuta o endereço/Pra chamar titia Antônia para vir rezar o terço/Chegou Chico Caroço com a turma da bandinha/E o negócio começa depois da ladainha/Santo Antônio disse e São Pedro confirmou/Você vai ser minha comadre/Que São João mandou. Dessa turma toda, a mais velha é a titia Antônia, que já está com 80 e bordoadas e continua a ser a rainha do cangaço lá no Apeú.

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