Dom Pedro Conti: Acolher, proteger, promover e integrar

Novamente, neste final de semana, além do início do ano novo civil de 2018, algumas celebrações importantes do Ano Litúrgico se juntam. Para nós, católicos, o último dia de 2017 coincide com o domingo da Sagrada Família e o dia 1º de janeiro com a Solenidade de Maria Mãe de Deus. Também já faz 51 anos que Papa Paulo VI proclamou o primeiro dia de cada novo ano civil como Dia Mundial da Paz. A partir daquele 1º de janeiro de 1968, todos os Papas que o sucederam continuaram a manter essa tradição. Em homenagem aos 50 anos do Dia Mundial da Paz, completados em 2017, o Presépio da nossa Catedral está com algumas frases das mensagens dos Papas, sempre divulgadas nessas ocasiões. Todas elas s&atild e;o bonitas, têm denúncia e profecia; convidam os cristãos a serem bem-aventurados, porque construtores de paz. Talvez porque as palavras dos Papas, de alguma maneira, sempre incomodam católicos e não católicos, poucas pessoas se preocupam de lê-las integralmente e, na maioria das vezes, elas acabam no esquecimento.

A mensagem do Papa Francisco para 2018 tem como título: “Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz”. Irei refletir um pouco sobre esse assunto, porque entre tantos nomes que foram dados à Maria está, também, o de Nossa Senhora do Desterro, lembrando aquele momento da vida da Sagrada Família que, no evangelho de Mateus, é apresentado como “a fuga para o Egito” (Mt 2,13-15). É bom nos lembrarmos disso. Entre os milhões de migrantes e refugiados tem famílias inteiras com seus filhos, muitos ainda crianças de colo. Tantas outras crianças crescem nos acampamentos ou, quando acolhidas, em países totalmente novos, com costumes e culturas bem diferentes dos seus lugares de origem. Como será essa no va humanidade, dividida entre as tradições, também religiosas, das suas famílias e o novo ambiente onde crescerão? O veremos nos próximos anos. Será uma geração mundial capaz de diálogo e tolerância entre si e com os demais ou cada etnia buscará, além da própria justa sobrevivência, a supremacia numa disputa acirrada por direito à terra, à água, à tecnologia e ao poder econômico? Não devemos ter dúvidas de que a humanidade toda colherá o que está semeando nestes anos que estamos vivendo, nesta onda de migrações que, segundo a mensagem do Papa Francisco, alcançam os 250 milhões de seres humanos. São muitos e não podem ser esquecidos. É urgente, portanto, uma “corrente de apoios e beneficência”, diz o Papa. O problema é mundial e nenhum pa&ia cute;s deve pensar de estar isento de responsabilidade ou, pior, achar que muros, arames farpados e metralhadoras, resolvam a questão. A paz é sempre uma conquista laboriosa e “artesanal”. Deve ser construída com as mãos e os corações ao mesmo tempo.

Papa Francisco denuncia o medo e aqueles que fomentas esse medo contra os migrantes e refugiados, ou seja, todos aqueles que veem somente o tamanho da responsabilidade na acolhida deles. Os migrantes e refugiados “não chegam de mãos vazias”, trazem também as suas capacidades de trabalho, a sua coragem e os seus sonhos de paz. Após tantos debates e infindáveis discussões, é preciso ação. Segundo o Papa Francisco a estratégia deve combinar quatro ações: acolher, proteger, promover e integrar. É fácil perceber que todas essas “ações” devem ser de fato interligadas. Colocar em campos de refugiados milhares de pessoas não resolve a vida delas e nem da região onde estão hospedados. Sem acompanhamento e proteção de leis adequadas, muitos migrantes, para sobreviver, ficam vítimas da exploração, do trabalho escravo, do tráfico internacional de drogas, armas, órgãos e pessoas. A promoção humana dos migrantes e refugiados pede também a integração, a inculturação e o diálogo. Somente assim as diferenças de línguas e costumes podem ser superadas e a paz construída. O contrário disso seria “a capitulação – da política internacional – ao cinismo e a globalização da indiferença”. Vamos unir as forças. Uma nova humanidade desponta. O planeta pode ser, sim, a “casa comum”, a casa de todos, mais felizes com a paz mundial.

Dom Pedro é Bispo de Macapá

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