Euclides Farias: Arte algemada

Uma das imagens marcantes do dia foi essa. Um quadro exposto num shopping da cidade. Passei o dia trabalhando e, vez por outra, era lembrado por amigos da imagem que tanto mexeu com a imaginação das pessoas.

Não recebi nenhuma mensagem coincidindo com a ideia de um grupo de oficiais da Polícia Militar que esteve no shopping para pedir, com sucesso, o embargo da obra, arrancada da contemplação pública por supostamente fazer apologia à violência policial e com isso ofender a instituição bicentenária.

Engraçado, durante o dia, a cada lembrança da censura ao quadro de um premiado pintor, revisitava as aulas de Estética, nos anos 1980, na UFPA, da professora doutora Telma Lobo, admirada amiga que acumulou tantos saberes a ponto de atingir a simplicidade, o maior deles, sublimando a vaidade intelectual.

Talvez quisesse emprestar dela notórios domínios sobre a função social da arte para replicar, com segurança, se necessário fosse, que a pintura se agarrou à escola realista para retratar uma cena cotidiana do Ver-o-Peso. Nela, nada há de fantástico, ficcional, panfletário, partidario ou ofensivo. Há realidade expressa, gritando.

Sem o urgente socorro da Telma, sequer acionada para teorizar e perder tempo com as minhas bobagens, conclui que a multiplicidade de interpretações que a obra desperta pode especular sobre exatamente tudo – e talvez nada do que pretendeu o artista com o seu desejo (será?) de simplesmente emocionar.

Soberano, cada olhar dirá o que o quadro é. Ele não cabe numa única definição autoritária de uma parte do todo. A arte sempre precisa estar livre de preconceitos e, melhor ainda, distante das algemas.

O quadro é tudo, menos um caso de polícia.

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