A estranha sensação de voltar

Já era bem tarde quando cheguei em casa naquela quarta-feira atípica. Vinha de uma noite qualquer, de um lugar qualquer. Trazia as roupas e os cabelos molhados de uma chuva que caía desde o fim da mesma tarde,  mas que ainda assim não era suficiente para diminuir o calor que fazia. Do meu corpo pendiam grossas e cristalinas gotas de suor que, unidas à água, geravam uma salgada solução que me banhava a pele e lavavam o chão por onde pisava, deixando um rastro de brilho transparente por onde quer que fosse. E devidamente abrigada pus-me a me despir.

Enquanto tirava as roupas que, em razão da umidade que traziam, estavam bem mais pesadas que de costume. Podia sentir a brisa quente que circundava o ambiente ainda abafado pelo calor da tarde a envolver meu corpo num morno abraço ao mesmo tempo em que dobrava e dispunha as peças em ordem simétrica no encosto de uma cadeira à minha frente. Foi quando decidi abrir as janelas, e assim o fiz.  Por elas logo entrou uma branda e refrescante rajada de vento que imediatamente me penetrou a volumosa massa escura de cabelos e me desembaçou as lentes dos óculos.

E diante de tamanho alívio me debrucei sobre elas e pus-me a observar as ruas de um ângulo incomum.  Elas que costumam ser sempre tão movimentadas, naquele momento se apresentavam vazias e melancólicas, exibindo um Rio de Janeiro desconhecido.  E deixei-me perder diante daquela visão. Não sei por quanto tempo permaneci de pé ali, mas com certeza foi tempo suficiente para me distanciar e vaguear para bem além dela. De repente o som do telefone celular me despertou do torpor em que estava. O atendi rapidamente após um certo tempo de procura. Não olhei no visor, mas também não precisava, pois a voz que me atendera do outro lado da linha era para mim uma velha conhecida, me dando a certeza e segurança de continuar. Era de minha antiga casa.

Indescritível é o prazer proporcionado pelas pequenas coisas que nem sempre nos rodeiam. Nada de mais. Conversas simples e de conteúdos simples. Nada que não tenha sido conversado das últimas vezes desde sempre, “mais do mesmo”. Porém, mesmo assim, insaturável e predominantemente irreconhecível, oferecendo-nos a cada nova vez uma riqueza de detalhes até então não absorvidos (intencionalmente ou não), renovando-nos a mente, o corpo e o espírito. O que nos soa previsível transmuta-se numa constante e ininterrupta transformação que (re) descobre sempre a cada novo olhar um desconhecido que nos surpreende de maneira contínua.

E entre conversas diversas recebi àquilo que chamam notícia. Sem muitos rodeios tomei conhecimento de um fato que desde então vem tornando os meus dias um gigantesco poço de angústia e tormento. Meu peito dilacerado explode constantemente numa ansiedade muda, tornando-me surda e cega para quaisquer outras eventualidades que me cerquem. Meus pensamentos agora em vôo livre me aprisionam e não se direcionam para outra questão que não seja àquela que chegara por intermédio da notícia, a possibilidade do meu retorno.

A volta. Essa temática já tantas vezes foi abordada em obras de cunho literário, musical, teatral e visual, mas por mim é a primeira vez. Creio eu não saber exatamente como proceder diante de tal situação. Não a primeira vez que volto a algum lugar onde já tenha morado, mas sim a primeira vez que descrevo, que documento a respeito desta eventualidade. Não o fato em si, mas o meu estado de espírito durante o tempo que o antecede. Antes desse retorno cheguei a voltar outras vezes para outro lugar, o lugar de onde eu acredito nunca ter saído mentalmente. Hoje gosto de repensar a respeito da sensação que obtive naquele primeiro instante para então revivê-la, e de certa forma compará-la.

A primeira vez que voltei de verdade ainda iria completar um ano que havia saído de onde ainda hoje alimento uma imagem onírica e perfeita. Local este de onde nunca gostaria de ter saído. Era um dia ensolarado, a baía estava calma. Havia gaivotas no céu e no ar pairava uma brisa quente anormal para aquele período do ano. Era janeiro. Inverno. Tempo em que as águas começam a subir. E o navio onde eu me encontrava, depois de uma longa e desconfortável noite ainda estava a muitos metros do porto, mas não longe o suficiente para evitar que os meus olhos se perdessem por entre o labirinto de edifícios amontoados que já formavam por detrás do píer.

Neste instante eu senti pela primeira vez a ansiedade tomar conta do meu ser como um agonizante tsunami de igual força e intensidade. Uma descarga elétrica que me inundava por dentro com uma quentura que ia desde a cabeça à ponta dos pés, me levando a loucura diante da minha constatada impotência diante da situação. Eu quase pulei na água.  Mas felizmente não pulei, ainda bem. Se o fizesse, certamente não teria sobrevivido. As águas escuras da baía do Guajará com certeza teriam me coberto com seu doce manto barrento e o seu ecossistema teria se responsabilizado pelos restos, depois de claro a embarcação ter feito a maior parte do serviço.

Em pé ao lado da portinhola de saída, depois de mais de vinte e quatro horas sem dormir, eu já estava com todos os meus pertences reunidos e devidamente organizados e guardados, apenas esperando pelo sinal, a autorização do comandante para enfim descer. Eu queria ser a primeira, eu precisava ser. E de fato fui. Não esperei por ninguém, desci sem a companhia de qualquer um dos que estavam comigo naquele momento. A minha ansiedade era tão grande, e a minha felicidade tão notória que, estática em cima do cais e com as bagagens nas mãos, eu permaneci incrédula com oportunidade de estar ali na minha terra-mãe outra vez. Enquanto isso, a multidão passava apressada por mim.

Eu não conhecia mais ninguém, apesar do período de tempo curto em que estive fora. Não tratei de dar continuidade a nenhum dos contatos dos quais eu dispunha antes de ir, pois na minha mente dramática do auge dos meus doze anos, eu nunca mais conseguiria voltar. Ledo doce engano, se todos ainda fossem assim… Voltei uma, duas, três e incontáveis outras vezes para a minha felicidade brincante que se renovava a cada nova ida, mas que se diluía a cada novo regresso para onde naquela época passara a ser a minha nova casa.

Casa essa qual demorei muito para aceitar. Anos eu acho. Um dos estágios de tristeza mais longos e profundos que já tive. É muito difícil ter que mudar de cidade e de estado sem se ter essa pretensão. Eu não tinha escolha, nessa época minha opinião não contava em absolutamente coisa alguma. Era como se eu não existisse. Mas apesar da pouca idade, lembro de ter apresentado incontáveis propostas e alternativas que me permitissem ficar. Prometi notas melhores, bom comportamento, mais respeito e educação, pentear os cabelos, menos vídeo-game… Tudo, em troca de eu ficar com avós, tios, parentes, qualquer um que fosse responsável e pudesse me acolher e responder por mim se necessário. Sempre fui bastante apegada aos meus pais, mas naquela época eu seria capaz de abrir mão da companhia deles para ficar em um local que me aprazasse. Mas acabou resultando em nada. Entre férias, feriados e eventos extraclasses (este último principalmente no decorrer da universidade), retornei para Belém muitas vezes, porém morei em Macapá por exatos dez anos.

Dez anos depois minha vida passou a ser outra. Ao contrário do início, eu por fim me adaptei, ou aceitei, não sei. E quando isso finalmente aconteceu, por razões maiores, optei por mudar de cidade mais uma vez, e mudei. E por ironia tenho agora a oportunidade de pela primeira vez voltar à cidade que nunca amei, mas que aprendi a gostar aos pouquinhos, bem de vagarinho, como a vida de lá. Tudo há seu tempo. E inevitavelmente sou tragada e afogada por lembranças que agora me soam tão longínquas e até mesmo irreais.

Na primeira vez em que estive lá, antes mesmo de passar a morar, cerca de uns doze anos mais ou menos, exatamente um ano antes de ter que mudar, fui a férias com minha mãe e mais dois familiares. Minha primeira impressão foi péssima, e assim sucessivamente até a última. Eu definitivamente não havia gostado da cidade. Pequena demais, chata demais, quente demais… Enfim, motivos sobraram. No caminho de volta do aeroporto até em casa acomodada dentro do carro, em brincadeira (assombrosa e premonitiva brincadeira), lembro de minha mãe ter me perguntado se eu gostaria de algum dia morar lá. E de maneira ríspida e sarcástica respondi que não…

Agora, a menos de um mês de completar um ano fora, escrevo minhas impressões sobre esta situação com um quê de repeteco. Ainda não me acostumei em terras fluminenses, minhas experiências me dizem que não devo dizer nunca, mas creio que também vai demorar um pouco, e não é pelo tamanho, pelo perfil ou pela temperatura da cidade. Entretanto, minha aceitação é mais bem devido à idade, a maturidade e ao fato de esta ter sido uma escolha minha, e mesmo que a minha mente ainda não permaneça vinte e quatro horas por aqui, é aqui que moro agora.

Um ano não é muito tendo em vista o quanto ainda desejo viver (se esse desejo realmente me for concedido), não sei se ainda voltarei a morar pelas bandas de lá, ou se passarei o resto da vida por aqui ou quaisquer outros lugares. Descobri que o que antes me incomodava hoje me move, e se pudesse escolher transitaria por todos os lugares até meu último dia numa permanente zona de desconforto, tal qual a de um exílio, pois somente dessa forma nos dispomos a compreender o mundo e a vida sob outras óticas. Contanto que na minha partida final eu esteja de volta ao local de onde surgi. “não permita deus que eu morra sem que eu volte para lá”*.   (*) Gonçalves Dias

Texto por Tassia Malena.

Quer mais? Acesse pelorallo.wordpress.com e confira!

Um comentário em “A estranha sensação de voltar

  • fevereiro 14, 2011 em 4:10 pm
    Permalink

    Lugar nosso é onde conseguimos relaxar o coração e viver feliz. Parabéns pelo texto.Esperamos outros.

    Resposta

Deixe uma resposta