Inimigos para sempre

No início cachorro, gato e rato eram amigos. Por que eles agora têm raiva um do outro? Simples. Certo dia o gato, fazendo-se de gentil e polido, convidou o cachorro para almoçar. Ao servir o almoço, porém, muito egoísta, ele tirou a carne toda para seu prato e deixou só os ossos para o convidado. O cachorro, que adora osso, ficou muito satisfeito e começou a balançar a cauda, como faz quando está alegre. O gato riu, pois nunca tinha visto alguém balançar o rabo daquele jeito. No dia seguinte, visitou o rato, que naquela época também era seu amigo, e contou-lhe que o cachorro era um perfeito idiota, tinha ficado contente em roer o osso e seu rabo havia se descontrolado. O rato, que também na época era amigo do cachorro, foi contar tudo a ele: que o gato o havia chamado de idiota, que havia servido o almoço e escondido a carne e que vivia rindo do rabo dele. O cachorro teve tanta raiva que ainda hoje precisa ser vacinado. Passou a correr atrás do gato onde quer que o encontre. O gato, irritado com a fofoca do rato, ainda hoje quer pegá-lo de qualquer jeito.

Encontrei esta historinha num calendário para dizimistas de alguns anos atrás. Passar de amigos a inimigos é muito fácil. Às vezes basta um fuxico, uma inveja, um mal-entendido ou uma palavra distorcida. Evidentemente tem casos muito mais graves. Certos acontecimentos afastam realmente as pessoas umas das outras: elas preferem não encontrar-se mais. Outras vezes cumprem as formalidades de cumprimentar-se, mas escondem mágoas, ódios e ressentimentos. Muitos fazem questão de vingar-se; somente esperam a oportunidade para tirar alguma satisfação do mal recebido. Atitudes de reconciliação, entendimento, paz e perdão parecem impossíveis ou, pensamos, dependem sempre e somente do outro lado que deve dar o primeiro passo. Será que é mesmo possível não ter ou fazer inimigos a o longo da nossa vida? Vivemos numa sociedade de conflitos, disputas, invejas e espertezas. Vai ser muito difícil que alguém que perdeu uma contenda possa acabar perdoando e amando o seu adversário. Mais a briga é acirrada, mais os ânimos esquentam, mais dolorido vais ser aceitar uma derrota.

O que Jesus nos pede quando nos convida a amar os inimigos e a rezar por aqueles que nos perseguem? Com certeza não esta nos pedindo de ter “sangue de barata”, de desistir, recuar, entregar os pontos. A meu ver nos ensina um novo caminho para lutar, evidentemente por aquelas causas justas e dignas de ser objeto do nosso envolvimento e compromisso. Falo da chamada e conhecida “não violência”, uma forma de reivindicar os próprios direitos através de formas justamente não violentas. Temos pessoas famosas que alcançaram grandes objetivos através desta forma de luta como Ghandi e Martin Luther King, por exemplo, que pagaram com a vida o seu esforço. No entanto, em todos os casos, foram milhares de pessoas que com o seu silêncio, com a sua não colaboração, mudando aos pou cos os seus costumes e as suas atitudes, conseguiram derrotar impérios, pré-conceitos ou organizações consideradas invencíveis.

Em geral os “mártires” – lembramos, nestes dias, a Irmã Dorothy na luta pela preservação da floresta e o crescimento sustentável dos camponeses – foram pessoas “desarmadas” lutando contra forças esmagadoras pelo seu poder. Os que abraçam a não violência sabem que vão sofrer, mas preferem apanhar que bater, morrer que matar. Este caminho é mais lento, mais íngreme, às vezes parece infindável, mas conquista até o adversário pelo respeito e a paciência de recomeçar tudo de novo sem perder nunca a esperança do bem vencer o mal. A não violência exige educação, autocontrole, organização, união e confiança no grande valor dos objetivos a serem alcançados. Ela não transforma somente realidades injustas, molda as consciências e renova as relações entre as pessoas: não mais de poder, mas de colaboração e respeito.

Nesta altura podemos nos perguntar se não seria talvez por este caminho que poderemos vencer as lutas contra a violência, as drogas, a corrupção, o consumo e relativo desperdício, o uso interesseiro dos bens comuns do planeta Terra.

Contudo Jesus não foi – e nunca será – somente um renovador social, o primeiro ou mais um entre os líderes da não violência. Ele nos pede de amar os inimigos. É muito mais que não colaborar com eles. É olhar os outros com o olhar do Pai, que ama a todos: bons e maus.

O que nos parece impossível com as nossas próprias forças se torna possível com a força que vem de Deus. Nós não somos nem cachorro, nem gato e nem rato. Somos gente. Vamos começar a mudar.

Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

Deixe uma resposta