A fonte distante

Um santo anacoreta vivia num pavoroso deserto, e somente Deus e os anjos sabiam onde ele se escondia. Para conseguir água era obrigado a ir muito longe. Um dia, cansado de andar tanto, disse a si mesmo: “Será que precisa mesmo fadigar deste jeito? Vou construir a minha cela perto da nascente”. Na volta, ao longo do caminho, percebeu alguém atrás dele contando os seus passos. Perguntou quem era e o que estava fazendo.  Recebeu como resposta que quem o seguia era o anjo do Senhor encarregado de contar os seus passos, para poder dar-lhe, um dia, a recompensa. O santo anacoreta entendeu logo a situação e reconstruiu sua cela mais longe, ainda, para que aumentasse o seu merecimento.

Podemos sorrir da boa vontade do anacoreta, tão preocupado com os futuros merecimentos frutos das suas fadigas. A questão é que poucas vezes pensamos nisso, todos fascinados pelas vantagens imediatas dos nossos esforços e empreendimentos. No fundo, porém, é questão de fé e; mais ainda, em que Deus dizemos acreditar. Um Deus “quebra-galho” seria o mais querido, mas talvez, também, o mais criticado pelos invejosos e eternos insatisfeitos. Com certeza um deus distribuidor de favores e de vantagens, não é o Deus Pai que Jesus veio nos fazer conhecer. O Deus de Jesus Cristo está sempre pronto a satisfazer a sede mais profunda do ser humano, sede que não se resolve simplesmente com bens ou riquezas materiais. A sede e a fome – de bem e de amor – que desejamos, mesmo sem saber, somente Aquele que é a plenitude do bem e do amor pode satisfazer. Porque só mesmo o Deus-Amor pode amar plenamente a todos, justamente, como uma fonte que nunca esgota a sua água pura e deliciosa e à qual todos podem se aproximar.

Mais ou menos isso foi o que Jesus procurou ensinar à mulher Samaritana à beira do poço de Jacó. Tudo começou com o Senhor pedindo um pouco de água para beber. Água que a Samaritana todo dia devia ir buscar e carregar para casa. Um trabalho fadigoso do qual gostaria de ser poupada. Jesus, porém, logo fala à mulher de outra água que ele pode lhe oferecer. Água que também vai satisfazer outra sede e que, por sua vez, quem experimentar, saberá oferecer a outros. Esta água só pode ser o amor de Deus, que as nossas palavras não conseguem explicar e nem os nossos instrumentos medir totalmente, porque não tem explicação humana e nem pode ser medido.

Com efeito, é muito difícil para nós entendermos “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”. Que fonte? Que água? Que vida eterna? A mulher Samaritana conhecia bem o amor humano, com todas as suas paixões e os seus desencantos. É a essa mulher que Jesus fala dos verdadeiros adoradores do Pai, “em espírito e verdade” e não na disputa de lugares ou de caminhos privilegiados. Deus é Pai de todos, é fonte inesgotável de amor e de alegria, de paz e de vida para quem o acolhe e confia. Quem corresponde a esse amor também aprende a amar mais; algo de novo lhe acontece: pode anunciar aos outros as maravilhas de Deus. Sua própria vida torna-se um testemunho luminoso de esperança. Quem toma da água da fé e do amor de Deus, satisfaz a sua sede e se torna uma fonte para ajudar outros a encontrar o sentido mais profundo da vida.

Todos nós temos muitas sedes, somos eternos buscadores e aprendizes. No entanto, para todos chega a hora certa do encontro; para todos existe um poço para parar e dialogar com quem pode nos revelar toda a nossa vida, de maneira melhor e mais do que nós mesmos sabemos e conhecemos. Isso mesmo, a nossa própria vida, aberta como um livro, para reconhecer os nossos fracassos e incertezas, para ouvir a resposta às nossas dúvidas e perguntas. É a hora da verdade que faz bem, não humilha, mas liberta porque vamos saber que somos amados mais do que podíamos imaginar. Ficaremos tão felizes que não seguraremos esta boa notícia, mas gritaremos a todos a descoberta que fizemos como a Samaritana. O Deus verdadeiro não engana, não arranca nada, somente doa e enriquece.

Neste tempo de Quaresma vamos esticar um pouco mais as nossas andanças e as nossas buscas, quem sabe para reencontrar Alguém que temos esquecido: a fonte da bondade que nunca seca. Podemos encontrá-lo na sua Palavra, na Eucaristia, no Sacramento do Perdão, num irmão sofredor, nas lágrimas de um abraço tão esperado.

Vale a pena andar um pouco mais, como o santo anacoreta. A recompensa será surpreendente, acreditem.

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

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