Chame o ladrão

Em 1982, entrou em cartaz Fitzcarraldo, do cineasta alemão Werner Herzog. No filme, Herzog nos apresenta um visionário excêntrico que pretendia construir uma casa de ópera no meio da Amazônia. Fitzcarraldo — nome com que os nativos chamavam Fitzgerald, o protagonista — passa por cima de tudo e todos para atingir seus objetivos. O “Conquistador do Inútil”, como era chamado, delirava à custa do sofrimento e da morte de quem lhe servia.O prefeito de Manaus, Amazonino Mendes pensa que é um Fitzcarraldo às avessas. Aliás, Amazonino Mendes não pensa que é um Fitzcarraldo porque Amazonino Mendes não conhece a obra de Herzog. Aliás, Amazonino Mendes não pensa que é um Fitzcarraldo porque Amazonino Mendes não pensa. O episódio em que o prefeito boi-bumbá grita para que uma favelada morra por estar morando em uma área de risco da cidade que administra pela terceira vez é emblemática porque expõe a incompetência de Amazonino como administrador e a sua xenofobia cabocla. Após ganir o seu “então morra, filha, morra”, ao saber que a moradora de sua favela era uma paraense, o prefeito saiu-se com um “está explicado”.

Está explicado o que, cara-pálida? Não bastassem os desmiolados paulistas mandando os nordestinos deixarem “suas“ terras, agora temos de engolir intolerância na floresta? Nessa batida, Amazonino agora acha que é Thomas, quem? Aquele baterista do grupo andrógino Restart que disse não saber se havia civilização em Manaus. A julgar pelas escolhas que os manauaras fazem de seus governantes, parece não haver mesmo.

Amazonino Mendes é uma dessas figuras políticas ensaboadas que estão sempre com a boca a mirrar as tetas do poder. Assim como governa Manaus pela terceira vez, governou o Amazonas por iguais três vezes. Amazonino é uma espécie de Paulo Maluf Caprichoso ou de um Jader Barbalho Garantido. Como esses, também tem uma folha corrida de dar inveja à família Roriz. Quando governador em 1997, comprou um jato Learjet para arrendá-lo à Líder Taxi Aéreo, que por sua vez o arrendou ao governo do Amazonas. Valor da brincadeirinha na época: 230 000 dólares por mês. Em sua última campanha para a Prefeitura de Manaus, teve seu registro cassado pela acusação de compra de votos e gastos irregulares na campanha. Que Ficha Limpa o quê! Essa lei não se aplica a políticos como Amazonino Mendes.

(Por falar em Ficha Limpa, algumas pessoas, até muito queridas por mim, acham que se fez justiça a Janete e João Capiberibe, do Amapá, por o STF não considerar aplicável para as eleições de 2010 a Lei da Ficha Limpa. Não é verdade. O casal Capiberibe foi vítima de uma armação sórdida urdida por um coronel imortal e seu bate-pau novelista. Justiça seria feita se se devolvesse ao senador Capiberibe o mandato que lhe foi covardemente usurpado. Sem entrar no mérito da constitucionalidade da lei, a decisão do Supremo (leia-se Luiz Fux) devolveu para a vida pública (leia-se imunidade parlamentar) gente da estirpe de Paulo Rocha, Jader Barbalho e Cássio Cunha Lima. Os Capiberibe não deveriam ser beneficiados com a decisão do Supremo porque a tal lei não deveria se aplicar a eles).

Mas no dia em que o STF fazia “justiça” a Barbalho, Cunha Lima e congêneres, vinha a público um vídeo que me faz dar um giro de 360 graus (frase emprestada de Adriane Galisteu) e voltar à Manaus de Amazonino Mendes e ao Estado cuja máquina ele conhece tão bem. No vídeo, aparecem sete covardes trajando fardas da Polícia Militar do Amazonas, empunhando armas da Polícia Militar do Amazonas e, em nome da Polícia Militar do Amazonas, fazendo sua “justiça” das sombras, espancando um adolescente de 14 anos. Mais: atirando a sangue frio e a queima-roupa no garoto, que estava desarmado, rendido, dominado e que não tinha antecedentes criminais. No Boletim de Ocorrências, os canalhas da PM amazonense registraram que “ao chegar ao local da ocorrência, os policiais foram recebidos a tiros pelo elemento e, por isso tiveram de revidar”. Com cinco tiros! O adolescente e sua família foram incluídos no Programa de Proteção a Testemunhas para serem protegidos de quem são pagos para protegê-los.

Mas assim como a intolerância não é uma prerrogativa de Amazonino Mendes, a covardia da polícia não é uma prerrogativa do Amazonas. A polícia brasileira é sabidamente despreparada, violenta e corrupta. E não me venha com a balela de programa policial que considera o despreparo, a violência e a corrupção casos isolados nas polícias brasileiras. Não são. Portanto, cuidado ao se aventurar pela noite, evite lugares ermos, não ande desacompanhado. Se vir a polícia se aproximando, chame o ladrão. Mas não chame tão alto. Porque com o salvo-conduto dado pelo Supremo, as ruas estão cheias.

Orivaldo Fonseca

Um comentário em “Chame o ladrão

  • Abril 23, 2011 em 12:09 pm
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    O Brasil esá cada vez mais carente de homens e mulheres que ousam peitar esses bandidos. Os verdadeiros bandidos do nosso país. Enche-me de orgulho ser seu amigo Orivaldo.

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