Bastidores da vitória

A vida sempre me surpreende. E esse é o grande barato em se viver. Em agosto  de 2010, dois meses antes das eleições, havia sido convidada para trabalhar como repórter na campanha eleitoral de um certo candidato ao governo, Lucas Barreto. O nome era forte. Soava bem aos ouvidos do povo, naquele momento. As chances de o candidato ganhar eram reais. Mas, eu tinha (e ainda tenho) minhas convicções políticas, o que me fez pensar duas vezes, embora estivesse desempregada, antes de responder um “sim”. A proposta era boa e o futuro parecia certo, uma vez que se perguntasse a qualquer um na rua quem venceria aquela eleição a resposta de pronto seria: Lucas Barreto!

Mas algo me fazia sentir como se eu estivesse vendendo minha alma ao aceitar aquele convite. Alguém sem escrúpulos, sem caráter. Sim, porque eu teria que fazer milhares de pessoas acreditarem em algo que eu mesma não acreditava: Vender uma idéia falsa. Profissional? Talvez. Mas o fato é que aquilo realmente me incomodava. E no momento crucial de dar a resposta definitiva, eis que surge o convite para trabalhar na campanha do candidato adversário, por sinal filho de alguém em que sempre apostei todas as minhas fichas. Uma figura lendária. Cresci ouvindo falar nele. Muitas histórias. João Alberto Capiberibe ou simplesmente “Capi”, como é carinhosamente conhecido pelo povo, era para mim alguém como Che Guevara. Não é preciso dizer por quem me decidi.

A campanha começou tímida, desacreditada. Muitos diziam que não chegaríamos a lugar algum. Inclusive parceiros de campanha. Pessoas diziam para mim coisas do tipo “Você é louca em fazer campanha para esse cara!” “Esse candidato está morto!”.  Certa vez um colega de equipe virou para mim e disse “Você acredita mesmo que vamos ganhar”? Mas o fato é que eu realmente acreditava. E por isso não foi difícil fazer os programas, porque eu acreditava em cada palavra que saia da minha boca no momento da apresentação.

Foram  dias morando dentro de uma produtora. Trabalhando full time. Emagreci alguns quilos e meu cabelo ficou uma palha. Havia muita pressão. Não apenas a pressão inerente a toda e qualquer campanha eleitoral, mas havia também a pressão interna, a da convivência 24h com as limitações e falhas humanas. Dormir e  acordar  com pessoas amigas, outras nem tanto. Estávamos ali como num big brother. Testados a todo momento e a toda prova. Vivendo no limite. Foi um momento de superação e acho que aprendi em dois meses o que eu aprenderia em dois anos, tanto pessoal quanto profissionalmente.

Mas posso afirmar que vi com meus próprios olhos uma campanha limpa, honesta! E talvez por isso Deus parecia estar tão presente ao nosso lado. E se não mandou seus anjos, mandou a policia federal que derrubou um a um dos adversários políticos. O que parecia impossível foi se tornando realidade pouco a pouco. A vitória, é claro, veio como conseqüência. Mas não foi uma vitória qualquer, foi uma vitória suada, foi a vitoria da democracia contra o suborno, da verdade sobre a farsa, foi a vitória da esperança e principalmente foi a vitória da  vontade do povo, que se tornou soberana.  Se valeu a pena? Eu faria tudo de novo!

Ronelli Aragão
Jornalista pós-graduada em docência do ensino superior

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