Presença de Mãe

Naquela noite, o culto no belo templo prometia ser bem proveitoso. Os lugares, quase todos  ocupados, formavam um mosaico colorido. O coral afinado cantava um hino alegre, louvando o Criador. O pastor, sem saber porquê, experimentava viva emoção. -” Sinto o Espírito Santo em mim”- dizia ele aos seus auxiliares, a revelar eufórica emulação. Ele não via, mas, como em todos os cultos e reuniões religiosos, ali estavam também irmãos desencarnados. Eram muitos, talvez centenas, que nivelados com aquele teor de pregação, vinham promover a necessária comunhão com Deus, na observância da raiz do religare.

            No meio destes, apreensiva, ansiosa, uma senhora magrinha, demonstrando pela postura, simplicidade, e na expressão, sofrimento. Havia partido do mundo carnal há quase dez anos, após longa e dolorosa enfermidade, o que enfrentou sozinha, num asilo vicentino, onde caridade sobrava, mas recursos escasseavam, para um tratamento adequado. Criara três filhos, duas moças e um rapaz, com o heroísmo e bravura que qualifica tantas mulheres do sertão miserável, cujos maridos, indo em busca de melhor sorte, quase sempre não retornam. As meninas cedo se casaram, partindo para plagas distantes. O rapaz, inteligente, ambicioso e despachado, logo que se viu homem, rumou para São Paulo, com as bênçãos e rezas da mãe. O tempo passou, as notícias se escassearam, até que um dia, sozinha em seu casebre, recebe uma carta, informando ele, que se “convertera” e que iria se dedicar à igreja. Nunca mais voltou, nem escreveu. Ficaram a saudade, as rezas, o solitário e interminável esperar. Agora, recomposta em sua singeleza, conseguira no lar espiritual de tratamento, para onde fora conduzida após o desenlace, a permissão de visitar o querido filho, cuja saudade partia o coração, fazendo doer, de quentes, as lágrimas que lhe rolavam pela face esmaecida, enrugada. Quanta emoção invadia seu ser, naquele instante! Como lhe corava a honra daquela ocasião, orgulhosa e feliz, ao ver o seu menino, agora homem feito, dirigindo um culto, com tanta gente importante, num lugar tão bonito. Não se continha, e dizia a todos os companheiros desencarnados que estavam a seu redor, que aquele pastor, era seu filho. -”É ele, meu menino…” -dizia sem parar.

            Era aquela a recompensa por tantos anos de distância, angústia e solidão. Exultante, absorvia com indizível prazer, o sabor da vitória que tão poucas vezes lhe oferecera a vida, anotando na tela dos sentimentos, cada passo, cada gesto de seu filho, tão bem vestido, tão destacado… autoridade. -“Que Deus te abençoe!”- repetia, feliz.

            O coro cessou o louvor. Fez-se um breve silêncio, e o pastor, em febril entusiasmo,  iniciou uma emocionada e fervorosa oração. Que belas palavras, que sabedoria, que força! Toda a platéia, numerosa, percebeu uma vibração especial naquela noite. Ali, a língua do Pentecostes baixara  de vez, fazendo jorrar o verbo que produzia estremecimento em todos os corações presentes. Ela, ansiosa e feliz, se aproximou o quanto pode do púlpito. Chegava a sentir a respiração de seu tão amado filho. Extasiada, sabia porém, que não era vista, mas gostaria de sê-la. Queria se manifestar de alguma maneira, revelar a sua presença, e abraçar, com muito amor, àquele por quem tanto orara e que agora lhe propiciava essa imensa alegria.

            Na parte principal do culto, após mais um belo hino em louvor aos Céus, o dirigente anuncia, suado, confiante:- “Irmãos…neste momento, em nome de Jesus, vamos para a corrente de libertação! Todos os que estiverem com suas vidas sendo atravancadas pelos encostos, pelas maldições, pelas pragas, ficarão agora, neste instante poderoso, em  nome de Jesus, livres desses males!”… e orava.  A igreja, uníssona, entoou um hino forte, e uma leva de espíritos com expressões ruins, porém mirrados, foi introduzida no salão. Seguros por sentinelas vigorosos, tentavam se desvencilhar, mas eram facilmente contidos. Algumas mulheres na platéia febril, excitadas por mediunidade incontrolável, transbordante, eram tomadas por aquelas sofridas entidades, e rolando no chão, proferiam palavras desconexas. Ao sinal poderoso e determinado do pastor, se rendiam, prostrando-se, para o delírio da vitoriosa igreja!

            A mãe, envolvida e impressionada, experimentava intimamente o pleno gozo das maravilhas celestes! Queria falar com o filho! Sem que nada a pudesse conter, decidiu, destemidamente, se incorporar em uma jovem, que na fila da frente se posicionava de modo a receber algum espírito. Não podia esperar mais, pois já se prenunciava o fim dos trabalhos. Devido à pouca habilidade das duas, -incorporada e receptora-, não havia sincronismo. A  voz rouca, na verdade, se assemelhava a grunhidos, urros. Mas, ela viu assim mesmo o pastor se aproximar. Com o dedo em riste, e com o olhar esfogueado, ele bradou:- ”  Em nome de Jesus, afasta-te desse corpo, satanás! Sai daqui diabo…volta para o inferno, capeta!”- vociferou..

             A médium, tomada por força desconhecida, contorcia-se, ameaçando avançar. Em verdade, era apenas uma mãe querendo abraçar ao tão saudoso e distante filho. Com mais retumbância e fé, o pastor reforçou a ordem;-”  Sai daqui, capeta! Afasta-te dessa irmã, satanás…em nome de Jesus, vá para as profundezas…”- Imediatamente, um brutamontes sentinela se aproxima. Com violência arranca a já chorosa mulher, daquele corpo tomado de empréstimo por instantes. Vendo a jovem se desfalecer, rendida, dominada, a igreja se prorrompe em aplausos, júbilo, aleluias! O pastor, ajeitando o colarinho, com a Bíblia ao alto, bradava a vitória, em nome do Senhor! Oh… Glória!- proclamava.

            Algumas estrelas pontilhavam de luz o ebânico manto celeste, sem luar, mas com um brilho próprio do tempo que sucede à chuva. Eufórica, a caravana de visitantes espirituais retornava às regiões de tratamento, em intenso comentário sobre o culto, sobre a valentia e poder do intimorato pastor. A senhora, simples, marcada pelo acicate de grande  amargura, subia também. Um vento frio cortava os céus, em rajadas, prenunciando a proximidade do inverno. Num coração de mãe, lágrimas pungentes aqueciam, mais uma vez, uma infinita esperança.

Pelo espírito de Edith Cruz Felice – 

 Página recebida pelo médium Arael Magnus, no Celest- Centro Espírita Luz na Estrada, em 14 de Dezembro de 2008. Fundoamor- Fundação Operatta de Amparo e Orientação- Sabará MGfundoamor@hotmail.com

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