O pescador e a sua esposa

Dom Pedro José Conti

Numa pequena aldeia de pescadores, onde os homens ficavam longe de casa por muito tempo, pescando com os seus barcos, vigorava uma lei muito antiga e terrível. O adultério era punido com a morte. A esposa que fosse surpreendida traindo o marido devia ser jogada ao mar do alto de um grande recife com as mãos e os pés amarrados. Aconteceu que uma jovem mulher, daquele lugar, acabou traindo o marido que estava pescando em alto mar. O povo da aldeia ficou indignado e decidiu que a lei devia ser aplicada com rigor. Inutilmente a pobre jovem pediu clemência. Amarraram-na e jogaram-na do alto do recife. Porém, antes que ela caísse no mar, uma rede bem forte, apareceu de repente e a segurou. O marido tinha chegado para salvar a sua esposa.

Nenhum incentivo à infidelidade; fique bem claro. Simplesmente o gesto de um pescador que, diretamente interessado no assunto, decidiu resolvê-lo de maneira diferente. O novo e inesperado nos pegam sempre desprevenidos. Pelo fato de não estarmos preparados, a nossa reação é tentar encaixar o “novo” no “velho”, isto é naquilo que já está sob o nosso controle e está conforme os nossos esquemas racionais e “tradicionais”. Afinal, ninguém gosta de ser pego de surpresa, de ter que admitir que não sabe como lidar com o realmente novo.

Voltando a Nazaré, sua cidade natal, Jesus inicialmente é objeto de admiração. Os seus conterrâneos são obrigados a reconhecer a sua sabedoria e os grandes milagres que fazia. Pensando bem, no entanto, decidem que tudo isso estava errado. Jesus é o carpinteiro, um pobre sem-terra – um não proprietário – que vive, portanto, dependendo dos serviços que outros lhe encomendam. Naquela pequena cidade, todos se conhecem e eles sabem muito bem quem é a mãe dele, a família e os demais parentes. Passam da maravilha ao escândalo. Negam o novo, o diferente, o incerto, para ficar com a segurança do velho, do comum, do que parece mais aceitável “porque sempre foi assim”!

Cabe, nesta altura, uma pergunta: afinal, qual seria mesmo a novidade de Jesus que aquele povo encontrou tanta dificuldade para aceitar? É, e será, a dificuldade de sempre: aceitar que Deus possa falar através de um ser humano em tudo semelhante aos outros. Pelos sinais que fazia e os ensinamentos que oferecia, deviam admitir, em Jesus, a presença de alguém superior: se não era o chefe dos demônios, só podia ser…Deus! No entanto, não entrava na cabeça deles que Deus pudesse se apresentar humano, pobre, fraco e humilde. Em lugar de acreditar que em Jesus era o próprio Deus que estava se fazendo conhecer, trocam a alegria da acolhida e da gratidão pelos preconceitos, as categorias e os esquemas de sempre. Estes sim que estão ao alcan ce deles e com eles estão acostumados. Por que mudar? Apesar de todas as promessas e de todas as profecias, um Deus que se fazia homem para ser o irmão – salvador de todos – que vinha para nos tomar pela mão e nos reconduzir ao encontro do Pai; não fazia parte dos planos deles. Essa “novidade” incomodou tanto que, um belo dia, resolveram acabar com ele, pregando-o numa cruz.

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