Desabafo e alerta: Unimed/Macapá não é Deus

Ainda não curada da dor, decidi relatar alguns acontecimentos reais que transformaram a vida da minha família e fez aumentar em mim o desejo de que tragédias causadas por irresponsabilidade e despreparo não sejam mais vistas como algo normal e sem solução. Perdi meu pai, Raimundo Ferreira Maciel, no dia 25 de maio deste ano, seu coração fraquejou quando viu minha mãe, sua esposa há 55 anos, desmaiar em sua frente. Foi a última prova de amor desse homem honrado que dedicou sua vida à família, à educação e a fazer os outros felizes. Morreu por amor, dizemos para não sofrermos muito, mas temos certeza que poderia ser diferente não fosse mais um descaso da Unimed Macapá.
No dia 22 de maio minha mãe se sentiu mal enquanto aguardava consulta com um cardiologista, estava com os pés inchados e arritimia. Foi encaminhada para a Unimed, hospital ao qual meu pais são associados há muitos anos. Ficou em observação na UTI por falta de apartamento e nós sem notícias por causa do acesso difícil a este setor. Recorri a uma amiga que trabalha nesse hospital para obter informações. Como é comum na Unimed, ela ficou tomando medicação e ninguém diagnosticou o que de fato ocorria. Três dias depois minha mãe foi liberada da UTI para desocupar o leito e, ainda por falta de vaga em apartamento e na enfermaria, voltou para casa com receitas e recomendação de descanso, mas sem diagnóstico concreto do que a tinha levado a tal estado. Ela falava com dificuldade e dizia que a memória estava fraca.
Nesta mesma noite meu pai pediu que eu fizesse um nescau porque mamãe não queria tomar mingau. Foram suas últimas palavras conscientes. Logo depois meus filhos passaram correndo para o quarto de meus pais gritando que a avó havia desmaiado. A partir daí, iniciaram meus momentos mais difíceis e dolorosos. Eu e meu filho Yan carregamos minha mãe para o carro de uma amiga que veio nos visitar, e o Pedro ficou com meu pai juntando os documentos da Unimed para seguirem atrás da gente. No meio do caminho paramos uma ambulância e, quando minha mãe era transportada para o veículo, começou a acordar, defecando e urinando na roupa.
Chegamos na Unimed junto com meu pai, que veio em outro carro. Ele estava sentado no banco gritando de dor e eu sem entender nada, afinal, quem estava doente era ela. Me explicaram que, ainda em casa, ele reclamou de uma “fisgada” no coração e no caminho a dor aumentou. Gritávamos para meus pais serem atendidos com urgência. Minha irmã Valda correu até a UTI e pediu socorro. Da porta, um funcionário avisou que o médico não iria atender porque o procedimento correto era primeiro um eletrocardiograma pra “confirmar” o enfarto para depois chamar um cardiologista, mesmo com todas as características. Insistimos e uns enfermeiros se compadeceram e meus pais deram entrada juntos na mesma enfermaria, minha mãe semi-desmaiada e meu pai gritando sufocado de dor. Minha irmã foi “convidada a se retirar” do interior da Unimed porque estava “atrapalhando” a eficiência do hospital e somente eu consegui ficar e acompanhar a maior tragédia da minha vida.
Me dividia implorando para meus pais, que estavam separados por um biombo, serem atendidos. Ele urrava que estava sem ar e minha mãe, ainda voltando do desmaio, perguntava se era ele, respondia que não. Para não ser expulsa da sala, tive que manter a calma diante a absurda lentidão da equipe, que a mim parecia nem um pouco interessada na vida dos meus velhos. Corria entre as duas camas dizendo palavras tranqüilizantes para papai e, para minha mãe, que continuava suja, continuava mentindo.
Não sei quanto tempo se passou até o médico chegar, e os enfermeiros pareciam sem condições de fazer algo para resolver. Quando ele finalmente entrou, pediu que eu, a única que estava tentando fazer alguma coisa, parasse de falar para não desesperá-lo. Não tenho conhecimento de medicina, mas, de acordo com o confirmei depois, eles deveria fazer massagem cardíaca ou até uma traqueostomia, mas, mesmo diante da gravidade e do sofrimento dele, o médico pediu um eletrocardiograma. Detalhe: o aparelho não funcionava, tentaram em outra tomada e nada, pediram outro aparelho. Dava para perceber que aqueles homens não tinham certeza do que fazer. Enquanto isso eu não podia ficar perto do papai, que ia perdendo as forças sem que eu pudesse fazer algo, apenas tentava tranquilizar minha mãe e rezava pra tudo dar certo. Depois um enfermeiro me confidenciou que os aparelhos estavam velhos, por isso não funcionaram.
Da cama da minha mãe, ouvi que meu pai foi parando de gritar e eu achei que haviam resolvido. Escutei o médico pedir uma maca onde o colocaram dizendo que ele seria transferido para a UTI para ser entubado. Achei estranho, mas se eles, que são os profissionais, diziam, precisei acreditar e dei a notícia para minha família que aguardava fora. Finalmente alguém veio limpar minha mãe e o enfermeiro pegou os exames e perguntou se quando deram alta, naquela tarde, avisaram que a baixa taxa de sódio podia causar desmaio. A resposta foi não. Se alguém tivesse avisado, com certeza estaríamos preparados e meu pai não levaria o susto que lhe custou a vida.
Minha mãe continuou sendo medicada e eu e minha família buscávamos informações sobre o estado dele, apenas respondiam que estava entubado na UTI, que não devíamos nos preocupar. Depois vieram entregar o relógio, e logo após, quando deixaram as sandálias, pedi a verdade e um enfermeiro perguntou se o médico não havia dito nada ainda. Respondi que não, e ele disse que chamaria o tal profissional, que não apareceu. Fui em casa pegar roupas de frio antecipando que seria uma noite longa. Assim que cheguei, o telefone tocou, era minha irmã com a notícia que meu pai havia falecido. Minha mãe acordou algumas vezes e perguntava por ele. Resolvemos dizer que ele passou mal e que estava sendo medicado em outra ala do hospital.
Passamos a madrugada e a manhã sofrendo e procurando maneiras de contar a minha mãe o acontecido com medo da notícia abalá-la e a perdermos também. Nos dividimos entre a despedida do papai e acompanhar minha mãe no hospital sem que ela desconfiasse o que se passava. Diante da certeza que a dor seria pior se enterrássemos sem que ela se despedisse, adiamos o sepultamento para o dia seguinte e demos a notícia com o auxílio de calmantes e uma psicóloga. De noite deram alta para que ela se despedisse de seu único amor. Até hoje ela acredita que ele faleceu na tarde do sábado, e não na sexta-feira, e que não teve nada a ver com seu desmaio. Passou mal, sem maiores detalhes. Passados quase quatro meses, minha avó, mãe de meu pai, ainda acredita que ele está muito mal, sem condições de falar, em tratamento fora do estado.
Minha mãe entrou em estado de tristeza profunda e se calou, de desânimo e afetada pela falta sódio. Sem forças, aceitou o convite e foi passar um mês com minhas irmãs em Natal pra distrair e se consultar. No estado nordestino, a situação foi diferente. Um exame indicou que ela estava a ponto de entrar em depressão o médico não esperou pela próxima consulta para anunciar os resultados dos exames. Assim que ficaram pronto ligaram avisando que ela deveria se internar com urgência para repor o sódio. A falta dele causa, entre outros males, o desânimo e fraqueza, que podem resultar em desmaio. O acompanhamento médico era contínuo, sempre medindo a taxa de sódio. Depois de muitos sustos porque ela não conseguia manter o sódio no organismo por causa de uma diarréia, recebeu alta e voltou para Macapá. Ou seja, mesmo pagando um plano de saúde do Amapá tivemos que buscar tratamento particular em outro estado para que minha mãe tivesse um atendimento digno. Precisamos recorrer à internet e à competência de médicos de outro estado para sabermos os estragos que causam a falta de sódio.
Depois disso, muitas interrogações e algumas certezas. Ninguém disse que a taxa de sódio teria um efeito tão prejudicial principalmente em uma pessoa idosa Se alguém no hospital tivesse avisado do risco de desmaio, na certa meu pai não teria se assustando tanto ao ver sua esposa caída. Se eu tivesse feito um escândalo exigindo um atendimento correto, eles me expulsariam do quarto? Porque liberaram mamãe se ela ainda não tinha condições de receber alta? Quando a Unimed vai parar de dar alta para pacientes por falta de leito? Porque esconderam da família que meu pai havia falecido e só disseram porque pressionamos os enfermeiros e médicos? Qual o motivo de mentirem que ele estava sendo entubado quando seu coração já havia parado? Hoje tenho certeza que ele saiu da enfermaria sem vida.
Escrevi somente agora porque não tinha condições psicológicas de me aprofundar no assunto. Queria ter certeza que não escreveria sob sensível estado emocional. Nossa família pensou em processar esse hospital, alvo de reclamações constantes por parte dos usuários, não por dinheiro, mas para que essas situações não se repitam, e ninguém mais passe o que sofremos, mas diante de tantas preocupações com minha mãe, esse assunto ficou de escanteio. Mas decidi que não podemos mais ficar calados com um hospital que cobra muito caro por um atendimento péssimo. Todo mundo no Amapá tem uma história escabrosa sobre esse hospital.
Não tenho procuração, mas tenho certeza que falo em nome de centenas de vítimas desse tipo de tratamento por parte de um hospital de renome que tem base em muitas cidades brasileiras. Não estou dizendo que assassinaram meu pai, mas afirmo que o tratamento dispensado neste hospital, dá poucas chances para que muitas pessoas permaneçam vivas. Deveriam oferecer um tratamento menos cruel e deficiente, com aparelhos em condições de uso. Os critérios para atendimento deveriam ser melhor definidos, para evitar tragédias previsíveis. Não estou afirmando que todos da Unimed têm esse mesmo comportamento, alguns funcionários chegam a dizer para pacientes insatisfeitos que não fazem mais porque não têm condições de trabalho.
Podem dizer que quando está na hora não tem jeito, a pessoa morre; que eu falo sem conhecimento de medicina; que quero jogar na responsabilidade do hospital algo de que não se pode fugir, como a morte. Mas afirmo que, mesmo sendo meu desejo, sei que não é possível trazer meu pai de volta, Não quero vingança, mas apenas que casos como este não mais se repitam. Não podemos mais admitir que um hospital particular que sangra o bolso de muitas famílias, não ofereça um tratamento humano e esteja sucateado, como é do conhecimento de quem usa o serviço. Não podemos tratar descaso e irresponsabilidade como destino e fatalidade, ou, nenhum assassino seria condenado porque a vítima deveria morrer naquela hora e naquela situação. O nome de Deus não é Unimed.
Mariléia Maciel
Mariléia Maciel

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