Na ONU, Dilma critica política de combate à crise mundial econômica

Presidente brasileira também voltou a defender a criação de um Estado Palestino

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A presidente Dilma Rousseff fez o discurso de abertura da 67ª Assembleia Geral das Nações Unidas com críticas às políticas fiscais ortodoxas adotadas pelos países desenvolvidos. Dilma condenou o que chamou de  “islãmofobia”, rebateu críticas ao protecionismo, abordou a crise no Oriente Médio, particularmente na Síria, e voltou a defender a criação de um Estado Palestino.

“Uma voz feminina inaugura mais uma vez o debata na ONU. Para muitos, somos a metade do céu, mas queremos ser a metade na terra, também com igualdade de direitos e oportunidades, livres de discriminação e violência, capazes de construir a sua emancipação e colaborar com a emancipação de todos”, disse a presidente na abertura do seu discurso.

“Um ano após o meu primeiro discurso nesta tribuna constato a permanência de muitos dos problemas que ataquei em 2011. Quero voltar a discutir algumas questões cuja solução é urgente. A grave crise econômica iniciada em 2008 ganhou novos contornos, a opção por políticas fiscais ortodoxas vem agravando a situação com reflexos nos país emergentes. As principais lideranças ainda não encontraram o caminho que articula ajustes fiscais apropriados e estímulos para interromper a recessão. A política monetária não pode ser a única resposta para o desemprego, a pobreza que afetam as camadas mais vulneráveis da população. Os bancos centrais dos países persistem em políticas expansionistas que desequilibram as taxas de câmbio”, criticou.

Dilma Rousseff também criticou a postura recente dos Estados Unidos ao acusar o Brasil de práticas protecionistas. “Não podemos aceitar que iniciativas de defesa comercial por parte dos países em desenvolvimento sejam classificadas como protecionistas. A legítima defesa comercial está amparada pelas normas da OMC. O protecionismo e todas as formas de manipulação devem ser combatidas”.

A presidente enfatizou que “não haverá resposta eficaz à crise enquanto não se intensificarem os esforços entre os países e os organismos, como G20, FMI e Bird. “Esta coordenação deve buscar uma política fiscal  para impedir o aprofundamento da recessão, controlar a guerra cambial e estimular a demanda global”, acrescentou.

Dilma disse que o Brasil tem feito a sua parte, com políticas sociais que retiraram 40 milhões de pessoas da pobreza, e consolidando o mercado de consumo. “Fomos impactados pela crise, mas apesar disso estamos mantendo o nível de emprego em patamar elevado, reduzindo a desigualdade social e aumentando a renda”.

A presidente brasileira lembrou ainda que, em 2011, quando ocupou a mesma tribuna, falou sobre a crise no Oriente Médio e na África. “As duas regiões continuam ocupando um lugar nas discussões internacionais. Regimes despóticos já foram varridos do mapa, mas ainda não é difícil identificar a revolta contra a pobreza, o desemprego, a falta de liberdades civis impostas por governos autoritários sobretudo aos jovens. Não é difícil encontrar as marcas de ressentimentos históricos provocadas por décadas de políticas coloniais levadas a cabo em nome da ação civilizatória”.

“Condenamos a violência que continua a ceifar vidas. A Síria produz um drama humanitário de grandes proporções. Recai sobre o governo de Damasco a maior parte da responsabilidade sobre a violência, mas sabemos também da responsabilidade dos grupos armados que contam com apoio de fora”, afirmou Dilma.

“Peço às partes em conflito que deponham as armas e negociem um acordo. A diplomacia e o diálogo são a melhor e a única opção”, disse.

A presidente também condenou a violência registrada em vários países contra o filme anti-Islã produzido nos Estados Unidos. “Registro aqui o mais veemente repúdio à escalada de preconceito islãmofóbico nos países ocidentais. Somos um país com aliança de civilizações, e com a mesma veemência repudiamos também os atos de terrorismo que vitimaram os diplomatas americanos na Líbia”,

Dilma voltou a defender a criação de um estado Palestino, como fez em 2011. “Ainda com olhos postos no Oriente Médio quero debater mais uma vez a questão de Israel e da Palestina. Reitero o que disse em 2001: o reconhecimento do Estado Palestino como membro pleno das Nações Unidas. Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel em paz com seus vizinhos, e estabilidade política regional”, acrescentou.

Durante o discurso, a presidente citou o regime de Cuba e pediu o fim do embargo ao país, que ela classificou de “anacronismo”.

“Cuba tem avançado no seu modelo econômico. Para isso, precisa do apoio de todos. A cooperação para o progresso de Cuba é prejudicada pelo embargo. É hora de pôr fim a esse anacronismo”.

Reforma na ONU

Assim como fez no discurso de abertura da ONU do ano passado, ela pediu reforma no Conselho de Segurança.

“Não podemos permitir que esse conselho seja substituído, como vem ocorrendo, por coalizões formadas à sua revelia. O recurso fácil a esse tipo de ação imobiliza o conselho. O Brasil sempre lutará para que prevaleçam as decisões emanadas da ONU. Mas queremos ações legítimas, respaldadas pelo direito internacional”.

Jornal do Brasil

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