A sociedade dos jogos e os jogos da sociedade

Elias Farias é Elias Farias é Servidor do MPU. Bacharel em Direito e Licenciado em Matemática

Realmente, um jogo de futebol é emblemático.

Possui regras pré-definidas, um árbitro e os atores, os atletas.

Os atletas podem ser leais às regras do jogo e aos companheiros e adversários, obedecer as decisões justas e razoáveis dos árbitros.

Reclamar e criticar, dentro de um direito natural ao inconformismo, desde que dentro dos padrões de urbanidade desportiva, também faz parte da realidade futebolística e de outros jogos.

Em sociedade também é assim.

Temos regras pré-estabelecidas a serem seguidas. Cidadãos cumpridores de seus deveres e titulares de direitos.

Nos relacionamos com inúmeras pessoas, seja de forma convergente, seja de forma divergente em ideias e condutas. Nesse aspecto, como num jogo mesmo.

Mas, assim como num jogo, que é prestigiado por grandes multidões, ou seja, popular, para ser respeitada, uma sociedade deve fazer valer suas regras.

As leis e a Constituição de um país não podem ser letra morta, meras regras programáticas, e até poesia para os leigos.

Não podem ser interpretadas pelos juízes e tribunais conforme as conveniências pessoais ou de classes.

As eventuais interpretações feitas pelos tribunais jurisdicionais, assim como os árbitros e tribunais desportivos, devem ser desvinculadas de qualquer pessoalidade e dentro de campo, pelo menos, razoavelmente relacionados com as regras pré-estabelecidas.

Caso isso não ocorra, a violência, dentro de campo, começará a demonstrar o grau de insatisfação e de ilegitimidade das instituições organizadoras dos campeonatos, dos árbitros, dos tribunais, enfim, da própria essência, do sentido daquelas atividades.

Lembro do técnico do Atlético Goianiense, René Simões, no episódio em que o jogador de futebol, Neymar, em partida do campeonato brasileiro de 2011, ofendeu o técnico do próprio time, Dorival Júnior, quando este o impediu que batesse um pênalty contra o adversário.

Simões fez pesadas críticas ao jogador, chegando a chamá-lo de monstro.

Mas o mais importante: chegou a por em cheque a própria existência, a essência do futebol ao afirmar, em entrevista, perceptivelmente aborrecido, que “em nome dessa arte de jogar futebol, da qual eu sou partidário, estamos criando um monstro”, se referindo ao jogador, até então conceituado como um promissor jogador, dado seus jogos recentes e número de gols.

Casos de escândalo de venda de resultado de jogos, isto é, corrupção de árbitros para facilitar a partida para determinado time, causam os mesmos sentimentos de ilegitimidade das partidas.

Jogadores, por vezes, passam, de desportistas natos, a jogadores desleais, seja em determinada partida, seja durante suas carreiras, dadas as decepções que sofrem pelas demonstrações de desrespeito às regras de jogo e das constantes decisões arbitrais equivocadas e fora do razoável. Às vezes até maliciosas mesmo.

Porém, não há dúvidas, depois de tudo isso, que as práticas desportivas, em especial o futebol, são das maiores invenções humanas e prazerosas para as multidões de adeptos.

Um jogo, com regras bem definidas, humanizado, justo, tanto para jogadores, adeptos, organizadores, árbitros e cartolas, é, sem dúvida alguma um atividade salutar que merece ser, com muito orgulho, cada vez mais difundido, dada seus exemplos éticos e morais.

Mas, paralelo a tudo isso, o que dizermos de jogos não tão éticos ?

Os jogos de cartas, por exemplo, menos pela sua essência, – pois também possuem regras bem definidas -, mas mais pela sua pouca atleticidade e, de certo modo, clandestinidade, pode ser exemplo de atividade repudiável pela sociedade.

Um jogador contumaz de baralho, não raro, é mal visto pela sociedade.

Também não é raro notícias de brigas e desentendimentos em jogos clandestinos de cartas (baralho). Aqui o jogo do bicho também poderia ser citado.

Mas, certamente, tudo isso acontece não por ser o jogo de baralho ontologicamente diferente de uma atividade atleticamente nata, como é o futebol.

Lógico que um jogo de cartas em nada exercita o físico, mas mais o intelecto.

Porém, o que efetivamente torna o jogo de cartas menos prestigiado e fomentado pela sociedade, dado seu menor grau de eticidade do que um jogo de futebol ou basquete, é a ausência de regras claras e pré-determinadas, além da ausência de um árbitro. Enfim, pra ser bem popular neste momento: é um jogo de fundo-de-quintal, com todo o respeito aos adeptos.

Com efeito, uma sociedade também, poderá “ser” um jogo de futebol, ou um jogo de cartas. Ou até do bicho.

Especificamente quanto à sociedade como um jogo de futebol, poderá ainda, mesmo com regras claras e bem definidas, ter árbitros corruptos e corruptores, jogadores desleais e torcidas desacreditadas da seriedade do campeonato (ilegitimidade).

Resumindo: é uma atividade hipócrita.

Por sua vez, uma sociedade que, como o campeonato espanhol (isso é só um exemplo), possui, além de regras bem definidas e claras, árbitros que ganham boas remunerações e, portanto, não entram em campo mal intencionados, é uma sociedade cuja paz social certamente ocorre de forma espontânea.

Quanto ao jogo de cartas, efetivamente, não podemos dizer que as sociedades que lhes são parecidas possuem Constituições minimamente democráticas, humanizadas e que cada membro dessas sociedades cumpram conscientemente seus deveres. Não chegam a ser nem ao menos hipócritas, pois suas regras já são originariamente obscuras.

Ora, assim como nosso ex-Presidente Lula, vejo no futebol uma aula de sociologia.

Mas, diferente dele, no baralho e no bicho também.

Um comentário em “A sociedade dos jogos e os jogos da sociedade

  • novembro 16, 2012 em 12:12 pm
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    Para começar a conversa é preciso relembrar que as regras foram feitas porquem sabe os caminhos de não cumpri-las sem agredir as regras. O que não está dito é permitido, sintetizam os ‘labutadores de direito’. Eles ficam labutando e os demais que só conhecem e cumprem as regras, vão levando. Uma igualdade bem desigual.Quem são os que elaboram as leis neste país? Os parlamentares. A maioria elite do espaço geográfico onde vive e os que furam este bloqueio, logo são ‘capturados’ por esta elite, depois de enxurradas de benesses, prazeres, viagens, gente, bonita, farta comida, bebida e com direito a aparição em rede nacional nos meios de comunicação, como “selo” de garantia de que este voto é a garantia da perpetuação do jogo político.
    O blefe fica para os amadores de pif-paf. Já notaram como andam, caminham os novos ricos, os recém eleitos? Muda até o jeito original de caminhar e adotam a coreografia ‘linda’ dos poderosos.
    Lembram do andar de Antonio Carlos Magalhães, o Toninho malfadeza? ‘Puxe pela memória’. Ou então reveja os vídeos, disponíveis na internet.”Ora, assim como nosso ex-Presidente Lula, vejo no futebol uma aula de sociologia. Mas, diferente dele, no baralho e no bicho também”. Não tem nada de diferente neste jogo de cartas previamente carimbadas. O Lula furou todos os bloqueios. Para quem veio da “voz rouca da rua” e chegou a presidente do Brasil por dois mandatos. Como previsto ele teve todo o pelo do cordeiro cirurgicamente substituído pelo espírito de porco e alma de raposa. Isso é sociologia, é? Mudou de nome?
    Édi Prado – Jornalista amapaense

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