Aproveite da vida

Dom Pedro José Conti - Bispo de Macapá
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Um jovem foi ter com um rabi para saber dele o que devia fazer com a sua vida. Ora, o rabi sabia que o jovem vinha de uma família piedosa, cheia de zelo e muito religiosa. Por isso, chamou alguns dos seus discípulos e quis que o jovem repetisse em alta voz o seu pedido.

– Desejo que o rabi me dê instruções precisas sobre o que devo fazer e o que não devo fazer na minha vida.

O rabi respondeu:

– Aproveite da vida! Quando puder roube, mas não se esqueça de me trazer uma parte da pilhagem. Esqueça as suas obrigações; busque, o mais que puder, os prazeres da vida. Faça um esforço grande para ganhar sempre dos outros. Enfim: viva sem princípio algum. Só assim conseguirá realizar-se na vida!

O jovem, depois de ouvir esses conselhos, foi embora correndo. Passados alguns meses, o rabi perguntou aos seus discípulos se tinham alguma notícia do jovem. Os alunos responderam que ele estava conduzindo uma vida santa num país longínquo e que falava do rabi como se fosse Satanás em carne e osso. O rabi sorriu:

– Se eu lhe tivesse aconselhado uma vida virtuosa, com certeza teria obedecido, porque tudo isso ele vivia desde a sua infância. Ele estava procurando algo novo. Somente quando lhe propus algo de realmente diferente para ele, entendeu que o que desejava mesmo era viver na virtude, mas agora como escolha pessoal e não por simples costume.

– E o que dizer que ele fala do senhor como se fala de Satanás?

– O que ele diz a meu respeito não tem valor nenhum. As palavras voam com o vento. Quando chegar o momento ele compreenderá o bem que eu fiz para ele.

Por três vezes, no evangelho deste domingo – terceiro do tempo de Advento – as pessoas perguntam a João Batista: “O que devemos fazer?” E ele responde respeitando também os diversos grupos que estão questionando. São conselhos muito bons, sempre atuais e, talvez urgentes. A todos diz para repartir a roupa e a comida que possam ter de sobra. Aos cobradores de impostos ensina a cobrar o justo e a não explorar. Aos soldados diz para não extorquir dinheiro aproveitando da sua força, a não acusar falsamente as pessoas e a ficar satisfeito com o próprio salário.

Por causa dessas palavras muitos devem ter recebido o batismo de penitência que João administrava e feito o propósito de mudar de vida. Alguns – poucos – devem ter permanecido fiéis à promessa, outros – a maioria – devem ter esquecido ou encontrado uma desculpa, sempre razoável, para fazer o contrário. Nada de novo. Com isso, quero dizer que a resposta aos bons conselhos – e também aos mandamentos, se quisermos – não consiste simplesmente em formular um bom propósito. A resposta verdadeira acontece quando começamos a praticar o que afirmamos ser uma boa escolha. Para não ter que pedir toda hora a qualquer mestre o que devemos fazer, precisamos, talvez de uma vez por todas, decidir por nossa conta, assumir nós mesmo a responsabilidade do que devemos e queremos fazer. A incerteza é aceitável nos primeiros anos, quando os caminhos da vida nos parecem estar todos abertos. Os pais sempre perguntam aos seus filhos o que querem ser quando crescerem. Nenhuma maravilha que as crianças e os jovens mudem de opinião ou também aceitem adaptar-se às reais possibilidades que a vida oferece. O mesmo vale para coisas pequenas, para as quais cada um tem direito de ter os seus gostos, sem prejudicar a si mesmo, a sua saúde e a vida dos outros. A moda e o consumo parecem apresentar opções quase infinitas. Se o cliente pergunta o que deve comprar, os próprios balconistas, prestativos, oferecem mil conselhos. O parecer é de graça, o produto não.

Voltamos às escolhas sérias, aquelas que têm também sérias consequências na vida. A profissão, a formação de uma família, a resposta a uma vocação religiosa, os princípios éticos e morais norteadores da nossa conduta, não são coisas que se possam perguntar aos outros toda hora. Um dia teremos que decidir por nós mesmos e assumir a responsabilidade das nossas escolhas. Podemos chamar a tudo isso de maturidade, eu prefiro chamar de liberdade. Nem Jesus queria, ou quer, discípulos obrigados.  Ao rabi da historinha pouco interessou ser chamado de Satanás; muito mais importante era a escolha livre do discípulo de percorrer o caminho da vida virtuosa. Perguntamos para saber, mas depois precisamos decidir.

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