Ipea erra: 26% culpam mulher por estupro, não 65%

Segundo o órgão do governo federal, uma troca nos gráficos fez com que o erro acontecesse; anteriormente, pesquisa divulgava índice de 65%

imageO Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou na tarde desta sexta-feira (4) uma nota afirmando que os dados divulgados na semana retrasada, sobre a pesquisa que afirmava que mais de 65% dos brasileiros apoiam ataques a mulheres que usam roupa curta, estão errados.

Segundo o órgão do governo federal, uma troca nos gráficos fez com que o erro acontecesse. Os valores corretos da pesquisa mostram que apenas 26% concordam – total ou parcialmente – com a afirmação “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas; e 70% discordam.

Para a elaboração da pesquisa, foram entrevistadas 3.810 pessoas. Na verdade, 58,4% dos brasileiros ouvidos afirmaram discordar totalmente da afirmação “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Fatia de 13,2% disse concordar totalmente e parcela de 12,8% disse concordar parcialmente.

Outro erro envolveu a frase “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Na verdade, nesse caso, 42,7% dos consultados disseram, nesta versão corrigida da pesquisa, concordar totalmente; 22,4% afirmaram concordar parcialmente. Fatia de 24% disse discordar totalmente e 8,4%, discordar parcialmente.

O Ipea cita que a “correção da inversão dos números entre duas das 41 questões da pesquisa enfatizadas acima reduz a dimensão do problema anteriormente diagnosticado no item que mais despertou a atenção da opinião pública”.

Ainda segundo a nota divulgado pelo instituto, o diretor de Estudos e Políticas Sociais pediu sua exoneração assim que o erro foi detectado.

Contudo, os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros.

Pesquisa havia gerado protesto pelas redes sociais

Depois da divulgação com os números errado, uma enorme campanha contra ações que legitimavam o estupro e assédios sexuais foi criada. A ‘Não mereço ser estuprada’  chegou a ser, no domingo (30), o assunto mais comentado do Twitter.

A jornalista criadora da campanha, Nana Queiroz, chegou a comentar no Facebook a correção do Ipea. ““Gente, agora o IPEA diz que inverteu os números. Isso deve nos deixar aliviadas, mas jamais acomodadas, pois 26% ainda culpam a vítima. Continuaremos na luta para transformar esse número em 0%. Há erros que vêm para o bem”, escreveu.

Pelas redes sociais, durante a semana, milhares de mulheres (e homens simpatizantes) publicaram fotos de apoio à conscientização. Na maioria das imagens, as pessoas aparecem segurando um cartaz com o nome da campanha ou com outras mensagens de repúdio ao machismo e à prática do estupro.

Apesar disso, a campanha acabou atraindo pessoas com opiniões divergentes e, inclusive, criminosos. A Polícia Federal de Brasília já investiga alguns perfis que publicaram na página da campanha mensagens ameaçadoras e de apologia ao estupro. Houve casos mais extremos, onde alguns homens postaram a própria foto afirmando que já estupraram e irão cometer novamente o ato.

Confira a nota divulgada pelo Ipea:

“Vimos a público pedir desculpas e corrigir dois erros nos resultados de nossa pesquisa Tolerância social à violência contra as mulheres, divulgada em 27/03/2014. O erro relevante foi causado pela troca dos gráficos relativos aos percentuais das respostas às frases Mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar e Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas.

As conclusões gerais da pesquisa continuam válidas, ensejando o aprofundamento das reflexões e debates da sociedade sobre seus preconceitos. Pedimos desculpas novamente pelos transtornos causados e registramos nossa solidariedade a todos os que se sensibilizaram contra a violência e o preconceito e em defesa da liberdade e da segurança das mulheres.”

O Tempo

 

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