Canto da Juriti

Murmúrios

Passo a noite nos tugúrios

Ouvindo gemidos, ais

De crianças adoecidas

Esfomeadas, mal nutridas

Em mim isso dói, demais.

Na quarta feira da Murta

A estrela que minha luz furta

Deitada num catre sujo

Enroscada, caramujo

Pedindo um pouco de amor.

Queria um pouco de leite

De bolo, biscoito, enfeite

Pra esse anjo alimentar

E a cabocla esquelética

Com a pele roxa, morfética

Tenta o filhinho salvar.

curumi doente em estertor

Tem no seu colo murcho,

suado, sem sumo, horror,

O único cobertor.

…………

Caminho um pouco mais

Vejo luxo,

 comensais

Fartura, extensa gastança

Insensíveis, inservíveis

Horríveis, 

poderosos vermes

Mentirosos párias

Que das verbas sugam

O leite que faltou àquele anjo.

Canalhas!

(Perdoe, Jesus, minha enorme ignorância

Mas, esses que roubam essas crianças

Fazem renascer em mim instintos fera

Que expulsam resquícios

De necessária tolerância.)

….

E na manhã seguinte, ao som do marabaixo

Um caixãozinho branco sai no corredor.
A mulher sem forças nem acompanha, de dor
não há lágrima, nem revolta, no enterro de seu bebê.

É um féretro macabro, 

pago por vereador.

 

Aracy Mont’Alverne- espírito

Psicografia de Arael Magnus

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