Zaide Soledade: 80 anos de educação e cultura no Amapá

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Ao aportar em Macapá, em 1952, Zaide Soledade trouxe na bagagem a vontade de ser alguém na vida, sem grandes pretensões, mas as necessidades do pequeno território a levaram a trilhar outros caminhos que não estavam nos planos, e ela se tornou uma das educadoras mais importantes do Amapá. Zaide veio de Óbidos, Pará, acompanhando a família que chegou aqui a convite do governador, apenas com o curso ginasial, feito em Belém.

Na época, o Amapá engatinhava, e tinha carência de trabalhadores para todas as áreas, do comércio ao serviço público, e Zaide, aos 17 anos, ganhou a oportunidade inicial, e foi balconista nos empreendimentos da família Zagury, a Casa Leão do Norte. Geniosa, ela conta que várias vezes abandonou o balcão e foi pra casa emburrada, mas sempre que o carro do guaraná Flip chegava em frente à sua casa, voltava para a loja.

Sua vida sempre foi assim, cheia de surpresas e oportunidades. Em 1958 uma amiga fez o convite para que desse aula em Tartarugalzinho. E Zaide, mesmo sem experiência, levou três dias para chegar na nova missão, com direito a luxos prometidos, “cama, mesa e luz”, o que na verdade se resumia a uma instalação precária para morar, rede, lamparina e carapanãs. “A escola era de madeira, coberta com cavaco, tudo era muito pobre, mas foi ali que me apaixonei pela profissão e descobri do que gostava de verdade, que é ensinar”, conta Zaide.

Em uma das viagens para Macapá, onde recebia o salário, pago na época pelo Departamento Nacional de Estradas e Rodagens, outra porta se abriu. Passava em frente à antiga Radiofonia do Amapá, que funciona onde hoje é a Biblioteca Elcy Lacerda, e o jornalista Hélio Penafort a chamou, estava no telefone com o governador Pauxi Nunes, que ligava do Rio de Janeiro. “Ele me pediu o nome completo para ser enquadrada no Governo Federal e, por telefone, me tornei funcionária efetiva da União”, relembra.

E Zaide Soledade se apaixonou tanto pela pedagogia que foi estudar, pra aprender e ensinar melhor. Estudou Artes Dramáticas, Educação Física, Letras e Artes, entre outros cursos, inclusive na área de saúde. Foi professora de hoje grandes personalidades do Amapá, ajudando na formação e educação. Mas fora das salas de aula, Zaide exerceu papel importante na sociedade amapaense, foi conselheira de Educação e de Cultura, principal incentivadora para que a Guarda Municipal fosse criada em Macapá, deu nome ao Teatro das Bacabeiras, e foi atriz na primeira novela produzida no Amapá, Mãe do Rio, onde fez o papel de benzedeira.

Militou, e ainda milita, em favor de causas que considera justa, como na luta dos educadores. Foi presidente da antiga Associação dos Professores do Amapá (APA), e integrou o Sindicato dos Servidores Públicos em Educação no Amapá (Sinsepeap) e o Centro Folclórico Amapaense. Atualmente Zaide Soledade atua incansavelmente na cultura macapaense através da Confraria Tucuju, onde é uma das integrantes mais ativas. Aos 80 anos, completados em 31 de julho, lúcida e falante, ela é um arquivo vivo da memória do Amapá, do Território ao Estado, que não pode ser perdido nem desvalorizado.

Mariléia Maciel

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