Dom Pedro Conti: As estrelas

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Durante a Revolução Francesa, um camponês foi perseguido por causa de sua fé em Deus. Um soldado, vendo a firmeza do homem, disse-lhe:

– Você ainda acredita nestas coisas? Em breve mataremos todos os padres.

– Será como o Senhor quiser – respondeu o preso.

– Pisaremos nas cruzes de vocês e destruiremos todas as suas imagens – continuou o militar.

– O Senhor vai castigá-los por esta infâmia.

– Todas as suas Igrejas e as suas torres serão destruídas. O que vocês irão fazer então?

– Têm coisas que não podem ser destruídas – respondeu ainda o camponês.

– Quais? – insistiu o soldado.

– As estrelas. Enquanto aquele livro aberto existir, nós continuaremos a ensinar aos nossos filhos o amor de Deus.

Não tem festa da Epifania sem Magos e não tem Magos sem estrela, sem camelos, sem ouro, incenso e mirra. Sempre poderemos ler a página do evangelho proclamada neste domingo como uma lenda edificante, útil para filmes e desenhos animados, ou simplesmente para nos convidar a viver mais um pouco a atmosfera mágica do Natal com as suas luzes e tradições. No entanto, fica para todos a curiosidade de entender melhor a luz daquela estrela misteriosa, capaz de mobilizar pessoas acostumadas a escrutar os céus e guiá-las até o encontro com o Menino Jesus. Pessoas sem rosto e sem história particular, mas que buscam, na incerteza comum da condição humana, Alguém a quem possam adorar, reconhecer, mais digno e luminoso que a própria estrela que os guia.  Por que tanta curiosidade? De onde lhes vem tanta vontade de encontrar o “rei que nasceu”? Eles já têm os presentes prontos para este Alguém, falta agora, encontrá-lo. Onde? Como?

Todos temos alguma luz que norteia a nossa vida. Nem sempre conseguimos dar-lhe um nome, mas a temos, com certeza. Essa luz é tudo aquilo que achamos importante, insubstituível, único; tudo aquilo que desejamos encontrar ou conseguir na vida. Sem motivação, sonhos, ideais e projetos, a nossa existência seria vazia, rotineira, cansativa. Por isso, todos gastamos tempo e energias para alcançar o que gostaríamos ser ou ter. Às vezes, conseguimos o que queríamos; outras vezes a vida passa e pouco ou nada nos parece termos realizado. Em geral, todos nós vivemos momentos de entusiasmo e momentos de decepção. De alguma coisa afirmamos que valeu a pena, de outras, talvez, nos arrependemos. Provavelmente, se somos sinceros, nunca ficamos plenamente satisfeitos e felizes. Sempre faltou algo. Assim reavaliamos a busca, reorganizamos os sonhos e… a vida continua, com o horizonte, cada vez mais, fechado à nossa frente. Perguntamo-nos se foram mais as chances que aproveitamos ou aquelas que deixamos escapar. Nunca saberemos, mas não importa, a vida continua. Mas não para sempre.

É por isso que precisamos de uma luz que não decepcione, de algo ou Alguém que nos acolha simplesmente pelo esforço de tê-lo procurado, percorrendo os caminhos tortuosos da vida. Essa necessidade é o que faz de nós, seres humanos, pessoas que não se satisfazem somente com bens materiais, aparências, ilusões e brilhos passageiros.   Contudo continuamos a fazer o que nos parece faça a maioria: damos atenção ao que é mais badalado, damos ouvido àquele que fala mais bonito ou mais alto. Para muitos, a estrela-guia é ele, ou ela mesma, acostumados como somos a medir o mundo e as pessoas a partir do nosso ponto de vista e pelas vantagens que os outros nos trazem.

Estamos perdendo a oportunidade de olhar mais alto do que nós, de buscar Alguém que nos ilumine a cada dia de nossa vida; Alguém que nos garanta o seu amor apesar dos nossos sucessos ou fracassos. O menino Jesus é o Deus feito pessoa humana, companheiro e meta, ao mesmo tempo, da nossa caminhada. Ele é fonte da nossa grande alegria, que nada poderá apagar, indestrutível. Como a luz das estrelas. Se ainda, como os Magos, conseguimos vê-las.

Dom Pedro é Bispo de Macapá

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