Sinfonia em Sol Menor

A beira do meio fio da avenida da FAB é um trono onde vagueia um rei sonhante sem reino…Não há sombra. Os fantasmas não as têm. As palavras desalumbradas resvalam pelo bueiro, brotando cheiro gostoso de alecrim e pimenta, bom tempero tucuju, como ensinou-nos Sacaca.

E o rei,vagueante da beira do meio fio, falou:
-Viu aquele moleque esperto assaltando a pobre velha? Tem jeito de excelente tocador de bombardino.- Com voz triste, angustiada, fatiada em lembranças.
Não vi. Meus olhos corriam soltos buscando as netas de Dora, de saiote e blusinha, fazendo a merenda torpe como Evas da serpente. Não possuo o dom de Oscar, mas arrisco que seriam boas no violino. Quiçá no acordeon?
Quem agora se aproxima e traz chuva na expressão é Altino. Visita sempre o mestre, sempre a batear assunto para amainar o banto que devora o bom amigo. Escuta solene, ao meu lado, como ao canto uirapuru.
-Eu preciso que você faça um escrito para mim. Seu poder de canetar pode servir ao que quero.- diz Mestre Oscar, como a falar para um porto.
-Mas professor! “- preguiçoso, ansioso, desesperançado de meus limites, redargui:
– O senhor é melhor que eu a concretar sentimentos. Mas, diga lá o que espera desse pobre fazedor de insossa sopa de letras?”
– É uma súplica …- diz o anjo entre os sinos suspirando melancolia- “…uma súplica!”- Soou como melodia.
-Ah… então eis a solução. Mormente de súplica entende o bom professor Altino- devaneei quiabante no óleo do tambaqui.
Pela grave expressão, que veio a galope no olhar de um triste sonhador, percebi que ali não coube no instante o meneio.
Em tom sustenido, agudo, vaticinou-me a sentença.
-Preciso que ordene agora que ressuscitem Walkiria!
Minhas mãos tremeram. De certo, o amigo delirava. Eu tremia.
Fui salvo pelo apoio comum que assistia àquele chocante apelo:
-Verdade. – interfere o antigo lente -Mas que venha logo, e que abrigue estes meninos, que adote essas crianças perdidas no lamaçal de uma cultura nefasta.- Altino profeta.

Um regato de luz brotou na face do anjo dos belos sons, jorrando ao redor o aroma de guirlanda toda flor, que nos envolvia agora. Mestre Oscar radiante:
-Sim… revivam da Santa Rita, do Laguinho, também Santana, no Jarí, Oiapoque, Mazagão, Calçoene, Tartaruga, Itaubal….Cutias, Amapari, Belém- e quase dançando fala os outros pagos tangendo, fechando a lista em decreto:
– Até em Brasília, no Rio e São Paulo, que são também do Amapá, nossos distritos distantes!- Stacatto.
Completei: -E em Copenhague, onde moram as deidades.
Ao sentir em nós acordes, harmonia de expressão, feliz, prosseguiu severo:
-Veja esta pedra preta que se desprendeu do asfalto. Peça que ela nos conte dos desfiles da fanfarra, da furiosa bandinha, da alegria que ocupava o lugar dos malfeitores, aqui mesmo na avenida.
Choramos.
E sem deixar que eu fugisse, a batuta dourada em riste, em tom maior decidiu:
– Fale com sua mãe! Fale com sua filha. Fale com este mundo! Brade com sua caneta! Grite, berre, pelo amor de Deus…fale!
Olhei para o cruzamento com a rua enfumaçada. Vi a bandinha chegando, os meninos perfilados, com os ares invadidos por trinados cor de mel. Pássaros despetalantes nos dobrados de alegria… e futuro. Distingui meu Alcione, marchando como se fosse…
Olhei para o trono (beira do meio fio da avenida da FAB). Não estava Mestre Oscar que com Altino sumira. Levaram junto, sem troco, o baú de meu sossego.
Ressuscitemos Walkirias.

Alcy Araújo –
espírito

Recebido em sessão pública no CEFEC- Céu Azul- Valparaíso de Goiás,
em 22 de março de 2014 pelo canal Arael Magnus.

Deixe uma resposta