Copa do Mundo, crise e o jogo vertical do técnico Jarbas Gato

A um mês da Copa do Mundo, o país do futebol continua mergulhado em sua mais grave crise política e econômica e não há entusiasmo verde e amarelo para torcer pela Seleção. Pode ser que da semana da estreia canarinha para a frente a coisa engrene, com enfeitar de ruas, mas por enquanto as eleições de outubro parecem preocupar mais, pero no mucho too, do que os campos gelados da Rússia.

Indício de que a crise é maior do que a Copa na preocupação dos brasileiros, o síndico abriu com aviso no elevador do meu prédio uma campanha de donativos para preparar o condomínio para a temporada futebolística. O franciscano pedido, que não existiria se os tempos não fossem de vacas magras, ainda não obteve resposta. Nenhuma bandeirola deu o ar da graça na fachada. Suspeito que estão a esperar o sol se firmar no verão para fazer a doação dos frágeis ornamentos.

A Seleção de Tite vai a campo com Neymar, mas a desconfiança da torcida traumatizada pelos 7 a 1 também entrará em campo. O técnico pode apresentar seu cartel de vitórias, mas ainda assim o recall é liderado pela vergonhosa derrota para a Alemanha. E não adianta separar a dinastia Dunga da dinastia Tite: a Seleção é instituição impessoal. Ela transcende seus transitórios técnicos.

Lembrei de uma coisa.

Técnico mesmo, sem muito blá-blá-blá motivacional, conheci um. Moderno na filosofia e antigo nos métodos, ele sacava dos treinos quem jogasse lateralmente ou recuasse bolas aos zagueiros, como hoje irritantemente se faz, negando-se ao futebol vertical e ofensivo. Radical, eles propunha o jogo vistoso para as arquibancadas do velho estádio Glicério Marques, de Macapá.

Natural de Oriximiná (PA) que aportou por lá em 1950 para trabalhar no recém-instalado governo territorial, ganhou na loteria, foi o primeiro taxista da cidade e virou empresário de transportes públicos, Jarbas Ferreira Gato era esse ousado técnico. Hoje no limiar dos 90 anos, ele ainda vive na mesma terra que abraçou aos 18 anos.

Na década de 1970, época da história que conto na crônica, Jarbas era presidente e técnico do Amapá Clube. Treinava o time alvinegro no campo do Grupo Escolar Coaracy Nunes. Nos dias de jogos oficiais, dirigia o ônibus que levava a delegação ao estádio. Se preciso, virava roupeiro e massagista. Seu esporte favorito era ver o Amapá Clube atacar sempre.

Tite aprenderia com ele. No campo de treino sem grama do grupo escolar, Jarbas insistia em ensinar o jogo vertical. Quando via que o camarada atrapalhado com as chuteiras não progrediria no futebol, ele desencarnava o técnico para invocar o empresário de ônibus, humanista.

– Passa na segunda-feira lá na garagem que eu te arrumo uma vaga de cobrador ou lavador de ônibus.

O plantel caía na gargalhada.

E assim o velho Glicerão se livrava de um perna de pau no gramado e os ônibus da viação Gato andavam mais limpinhos pelas ruas da antiga Macapá.

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Na foto de 1972, do acervo do jornalista Humberto Moreira, Jarbas ao microfone no Estádio Glicério Marques durante uma partida em homenagem a Garrincha, o gênio que ao lado dele examina o presente.

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