COP30 em Belém: especialista em justiça climática defende protagonismo da Amazônia nas decisões globais
Especialista em justiça climática destaca que a COP30 em Belém é chance histórica para dar voz à Amazônia e implementar acordos ambientais globais.
A escolha de Belém como sede da COP30, em 2025, coloca a Amazônia no coração das discussões climáticas mundiais. Para oespecialista em justiça climática e direito ambiental,Dan Levy, a conferência não apenas marcará a cidade, mas pode transformar a região em referência global de políticas públicas e justiça climática.
“É inegável que a Amazônia possui um protagonismo na comunidade internacional pela importância do bioma para o planeta, mas isso não basta. Esta região deve estar no centro dos debates e decisões sobre clima e meio ambiente, principalmente para visibilizar o que os povos da floresta já fazem para enfrentar esta crise”, ressalta Levy.
Justiça climática no centro das negociações
Segundo ele, um dos riscos da COP30 é a justiça climática não ser tratada como prioridade. Os efeitos das mudanças climáticas não atingem todas as populações da mesma forma, e os mais afetados são justamente os que menos contribuíram para o agravamento da crise.
“A finalidade da justiça climática é reparar desigualdades. A sociedade civil tem papel fundamental em pressionar para que pautas como racismo ambiental, deslocados climáticos, gênero e clima sejam priorizadas, porque para a maioria das Partes isso não está no topo da agenda”, avalia.
Observatório de Riscos Climáticos
O Observatório de Riscos Climáticos, coordenado pelo especialista, mapeia os impactos das mudanças do clima em comunidades vulnerabilizadas. Embora atualmente atue em Osasco (SP), a iniciativa pretende se expandir para a Amazônia, respeitando especificidades culturais e sociais.
Um dos eixos do projeto é o Censo Climático Periférico, que coleta dados de forma participativa junto a comunidades periféricas. Os primeiros resultados mostram a falta de informações sobre como esses territórios são afetados pela crise climática, o que dificulta políticas públicas de adaptação e mitigação.
Legados possíveis da COP30
Para o especialista, a conferência em Belém só terá um legado concreto se conseguir transformar compromissos anteriores em realidade.
“Esta é a COP da implementação. Precisamos colocar em prática os instrumentos do Acordo de Paris e viabilizar um financiamento climático adequado. Além disso, uma COP na Amazônia é oportunidade única para dar voz a indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais. Eles precisam estar no centro das decisões”, defende.
Ciência e sociedade: como vencer a desinformação
Outro desafio destacado é a comunicação científica. Aproximar a ciência da sociedade é essencial para combater a desinformação e construir confiança.
“Em vez de apresentar gráficos abstratos, é fundamental relacionar a crise climática com a vida cotidiana: a enchente que destruiu casas, o calor que aumenta doenças, o preço dos alimentos que sobe com a seca. A ciência ganha força quando circula por vozes de confiança – professores, artistas, comunicadores populares. Ela precisa ser vista como ferramenta de esperança e transformação”, conclui.
Sobre o especialista
O professor Dan Levy é paraense, doutor em Sociologia Urbana pela Universidade de Coimbra e professor associado da Unifesp. Especialista em Direito Ambiental e Justiça Climática, é vice-presidente da Comissão Unifesp para a COP30 e coordenador do Observatório de Riscos Climáticos. Com mais de 20 anos de atuação em sustentabilidade, riscos climáticos e direito à cidade, é autor de seis livros e reconhecido por traduzir temas complexos em linguagem acessível.

