Cultura amapaense se despede de dois de seus grandes mestres
Em menos de 48 horas, o Amapá perdeu Mestre Francisco Lino, referência do samba, e Marciana Nonata Dias, guardiã do Marabaixo e das tradições ancestrais do Maruanum.
A cultura amapaense vive dias de luto com a partida de duas importantes personalidades que dedicaram suas vidas à preservação da história, da identidade e das tradições populares do estado. Mestre Francisco Lino da Silva, de 91 anos, morreu no domingo (18), e dona Marciana Nonata Dias, de 86 anos, faleceu nesta segunda-feira (19).
Representantes de diferentes expressões da cultura afro-amapaense, os dois deixaram contribuições que ultrapassam suas trajetórias individuais. Suas histórias estão ligadas à resistência cultural, à valorização da ancestralidade e à transmissão de conhecimentos entre gerações.
De um lado, o samba e a história do carnaval amapaense. Do outro, o Marabaixo e os saberes tradicionais do Maruanum. Duas vidas que ajudaram a construir e preservar a memória cultural do Amapá.
Mestre Francisco Lino: uma vida dedicada ao samba e à Nação Negra

Conhecido como Mestre Lino ou Menestrel da Nação Negra, Francisco Lino da Silva foi um dos fundadores da Universidade de Samba Boêmios do Laguinho, uma das mais tradicionais agremiações carnavalescas do Amapá.
Nascido em 22 de março de 1935, ele acompanhou mais de sete décadas da história do carnaval amapaense, tornando-se uma referência para sambistas, compositores e integrantes da comunidade do Laguinho, em Macapá.
Último fundador vivo da Boêmios do Laguinho, Mestre Lino exerceu diferentes funções na escola, atuando como presidente, intérprete e compositor de sambas-enredo. Participou da trajetória dos 29 títulos conquistados pela agremiação, ajudando a consolidar sua importância na cultura popular do estado.
Sua contribuição foi além das apresentações carnavalescas. Mestre Lino preservou histórias, composições e lembranças que ajudaram a manter viva a identidade da comunidade negra do Laguinho.
Em 2026, recebeu uma homenagem na quadra da Estação Primeira de Mangueira, no Rio de Janeiro, em reconhecimento à sua contribuição ao carnaval brasileiro.
O sambista morreu no domingo (18), no Hospital São Camilo, em Macapá, onde estava internado após sofrer uma queda em casa. Seu falecimento ocorreu em decorrência de uma parada cardíaca.
A Universidade de Samba Boêmios do Laguinho lamentou a partida do mestre e destacou sua importância para a história da agremiação.
A morte de Francisco Lino representa não apenas a despedida de um dos pioneiros do carnaval amapaense, mas também a perda de uma testemunha fundamental da formação e do fortalecimento das manifestações culturais do estado.
Marciana Nonata Dias: guardiã do Marabaixo e da ancestralidade do Maruanum

A segunda-feira (19) também foi marcada pela morte de dona Marciana Nonata Dias, aos 86 anos, uma das importantes representantes das tradições culturais do Maruanum, comunidade reconhecida pela preservação de saberes ancestrais afro-amapaenses.
D. Marciana construiu uma trajetória ligada à valorização da cultura tradicional, especialmente ao Marabaixo e aos conhecimentos preservados pelas mulheres do Maruanum.
Reconhecida como mestra do Marabaixo da comunidade de Santa Luzia do Maruanum, destacou-se também pela composição de ladrões, como são conhecidos os versos cantados durante essa manifestação cultural.
Sua atuação contribuiu para manter vivas práticas transmitidas oralmente entre gerações, fortalecendo os vínculos entre música, religiosidade, memória e identidade comunitária.
Marciana também é lembrada por sua ligação com a tradição das louceiras do Maruanum, mulheres responsáveis pela preservação de uma técnica ancestral de produção artesanal de peças de barro.

Mais do que uma atividade econômica, o trabalho das louceiras representa uma expressão de pertencimento, resistência e continuidade cultural. O conhecimento sobre a retirada, o preparo e a modelagem do barro é transmitido entre gerações, principalmente pelas mulheres das comunidades.
A trajetória de dona Marciana simboliza a importância dessas guardiãs da memória, que mantêm vivas tradições mesmo diante das transformações sociais e culturais.
Seu falecimento representa uma perda para o Marabaixo, para as comunidades tradicionais e para todos que reconhecem nos saberes populares uma parte essencial da identidade amapaense.
Duas trajetórias, um legado de resistência cultural
Embora tenham seguido caminhos diferentes, Mestre Francisco Lino e Marciana Nonata Dias compartilharam uma missão: preservar e transmitir manifestações culturais que ajudam a contar a história do povo amapaense.
O samba, o Marabaixo e a produção tradicional das louceiras do Maruanum são expressões de uma herança cultural construída coletivamente, marcada pela ancestralidade africana, pela memória das comunidades e pela resistência de gerações.
Essas manifestações não se limitam às festas, aos desfiles ou ao artesanato. Elas representam modos de viver, celebrar, ensinar e preservar histórias que nem sempre estão registradas nos livros.
A memória que permanece
O Amapá se despede de duas personalidades que fizeram da cultura uma expressão de vida, pertencimento e resistência.
Mestre Lino deixa sua história registrada no samba, nas cores da Boêmios do Laguinho e na memória da Nação Negra. Marciana Nonata Dias permanece presente nos cantos do Marabaixo, nas tradições do Maruanum e nos saberes ancestrais preservados pelas mulheres de sua comunidade.
Suas partidas deixam uma lacuna na cultura amapaense, mas também reforçam a importância de manter vivas as manifestações que ajudaram a construir.
Foto de capa: Reprodução Internet

