Sobre

Chico Terra, quinze anos de resistência

Por Euclides Farias

A la Glauber Rocha, o genial visionário do Cinema Novo que tinha uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, Chico Terra tinha há quinze anos um velho computador, uma câmera fotográfica e uma inquietação invulgar, que o ofício de músico não dava conta de sossegar. Chico, é preciso esclarecer, é observador de esquina, desses que repara imagens, muitas imagens, em fração de segundos. Tornou, por isso, o passatempo de fotógrafo – cultivado em Minas Gerais desde os anos 1970, quando ainda era operário da Fiat – em profissão.

Pois não é que o Chico operário-fotógrafo-músico, decidiu virar, desculpem o palavrão, webdesigner. Desenhou e pôs no ar, em 11 de novembro de 2000, o CHICOTERRA.COM. Desde então, eremita na mesmíssima casa onde nasceu e à qual voltou após a longa temporada mineira, Chico divide atenção entre sobreviver sem o conforto de bens materiais e prestar inestimável serviço à cultura do Amapá.

Pelo sítio de Chico, já passaram seguramente todos os músicos amapaenses – a quem dedica admirável amizade e intransigente defesa. Já passaram, também, por conta dessa fidelidade, manifestações indignadas contra gente que, vendo artista com vassalo, insiste em relegar a democratização da cultura ao segundo plano ou a reservar o primeiro plano a uns poucos protegidos.

Amapaense da gema, Chico cria e encampa teses, reclama e elogia, exibe rico acervo fotográfico e dá voz, não raro sendo ele mesmo porta-voz, à divergência. Já deve ter sido confundido com ativista político submisso a alguma legenda, coisa que efetivamente nunca foi. Na verdade, Chico tem lado, não sabe ficar em cima do muro e opina muito, agradando a gregos e chateando a troianos.

Num cantinho da casa que o seu Antonio Almeida construiu nos anos 1930, ao lado de uma janela que joga a luz da manhã no recinto, está o computador velho de guerra do múltiplo Chico. É ali que, quase sempre alta madrugada, em missão solitária, o operário-fotógrafo-músico-repórter senta para escrever, feliz, páginas de seu tempo.

Vida longa, pois, Chico Terra.

2 comentários em “Sobre

  • março 2, 2012 em 2:50 pm
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    Meu amigo Chico! Já se vão longos anos desde quando tive a grata satisfação de conhecê-lo na noite Amapaense, quando tínhamos o prazer de sentarmos em uma roda de amigos, todos jovens e sonhadores, e fazermos serestas intermináveis ao som de violão, atabaque, vinho e de amigos cantores como você, em frente a nossa bonita Cidade de Macapá. Eu amava ouvir você cantando “Dia Branco” lembra? Eu era uma jovem apaixonada por um carinha que me cantava essa música todos os dias e você sabia disso e cantava para mim! Não casei com ele. Como disse era uma paixão!(risos) Casei com outro e anos depois veio a separação, mas estou bem, feliz, graças a Deus!
    É meu querido! Muitos amigos se foram, muitos sonhos foram e continuam sendo, ora destruídos ora construídos! Mas a única certeza que levamos nesta vida é a da morte! Graças a Deus que não escolhe classe social e nem credo religioso, se não, os “desfavorecidos” não existiriam e só os “privilegiados de colarinho branco” não tão branco assim… Estariam no mundo!
    Você sabe que não sou de “rasgar seda” para quem não merece! E tem tantos que se “acham”! Ou melhor, que vivem disso! MAS A VOCÊ EU RASGO QUANTAS FOREM PRECISO! Deus sabe que você tem valor! Embora a oposição gostaria que não! Quero dizer que no meu ostracismo eu me congratulo em saber que você continua “quase” o mesmo bom e velho amigo de sempre (a “vai…idade” chega né amigo?! (risos)! Peço a Deus que te abençoe sempre e que todos os desejos do seu coração sejam realizados! Sucesso, Paz e Bem!
    Com carinho fraternal:
    Simone Dias – Filha de Deus, Mãe, Mulher, Solteira, “Amaparense”, Turismóloga e Missionária Católica/RCC/AP.

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    • maio 26, 2012 em 10:10 am
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      Que ótimas lembranças Simone. Que tempo bom quando éramos felizes e sabíamos! Nossa juventude não foi desperdiçada com drogas, mas regada a vinho e boa música. Outro dia encontrei o Neivaldo caminhando na orla e falámos disso. Felicidade também se faz de boas lembranças. Obrigado pelo lindo depoimento!

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