Amazônia urbana: Atlas revela dados e desconstrói estigmas de ocupação da região às vésperas da COP30
A Amazônia não é só floresta: é também cidade, periferia, vila ribeirinha, quilombo e território indígena. A região que concentra a maior biodiversidade do planeta já tem 75% de sua população vivendo em áreas urbanas, proporção que a aproxima da média nacional, mas com características próprias: aglomerações dispersas, interstícios verdes e comunidades que produzem a floresta ao mesmo tempo em que demandam transporte, saúde e saneamento.
Esses dados integram o Atlas da Amazônia Brasileira, iniciativa da Fundação Heinrich Böll lançada neste ano em que a COP30 coloca a região no centro do debate global sobre clima. A publicação reúne 32 artigos de especialistas e lideranças amazônidas para questionar visões estigmatizadas e apresentar múltiplas Amazônias — florestais e urbanas, tradicionais e contemporâneas, resilientes apesar da pressão dos megaprojetos de mineração, agronegócio e infraestrutura. O Atlas pode ser consultado online. A primeira tiragem impressa esgotou e em outubro será lançada a segunda, traduzida para inglês e coreano, e com 34 artigos.
A urbanização amazônica não é recente: desde o período colonial, vilas e cidades foram erguidas como estratégia de ocupação. Hoje, capitais como Manaus e Macapá concentram até 60% da população de seus estados, enquanto Belém mantém 30% dos moradores do Pará, mas vê um crescimento acelerado em ilhas e municípios vizinhos. De 1960 a 2022, a população da Amazônia Legal saltou de 5,8 milhões para 27,8 milhões de habitantes — um incremento de 379%, quase o dobro da média brasileira.
O Atlas mostra que não há contradição entre floresta e urbanização quando os modos de vida amazônicos são respeitados. A publicação aposta em descolonizar o olhar sobre a região e afirma a potência de uma Amazônia que, apesar de ameaçada pelo desmatamento recorde, pelo avanço do garimpo ilegal e pelos impactos da crise climática, segue sendo espaço de mobilização social, de produção cultural e de inovação em alternativas sustentáveis como a agroecologia e o agroextrativismo.
Possíveis pautas que evitam reforçar estigmas sobre a região:
- Como as cidades amazônicas se organizam e o que as diferencia do padrão urbano nacional;
- Os desafios e soluções que surgem da realidade das comunidades ribeirinhas e tradicionais urbanizadas;
- A força política e cultural dos movimentos sociais na construção de alternativas;
- A centralidade da Amazônia urbana no debate climático global que se intensifica com a COP30.
Sobre a Fundação Heinrich Böll
A Fundação Heinrich Böll é uma fundação política alemã, presente em mais de 35 países. Seus seis escritórios na América Latina têm um compromisso especial com as organizações da sociedade civil do campo crítico porque acreditam que essas são fundamentais para o fortalecimento democrático. Promover diálogos pela democracia e buscar a garantia dos direitos humanos; atuar em defesa da justiça socioambiental e direitos digitais; defender os direitos das mulheres e se posicionar como antirracista são os valores que impulsionam as ideias e ações da Fundação.
A instituição tem parceiros que atuam na Amazônia desde sua chegada ao Brasil. São organizações que estão juntos de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e grupos de mulheres em projetos de desenvolvimento regional e alternativas como o agroextrativismo e agroecologia. A Fundação também apoia diálogos e debates que buscam refletir e analisar os impactos para os direitos territoriais dos megaprojetos de mineração, infraestrutura e agronegócio.
No Brasil, a organização apoia projetos de diversas organizações da sociedade civil, organiza debates e produz publicações gratuitas. Entre os últimos Atlas, estão: Agronegócio, Agrotóxicos, do Plástico e dos Insetos. No campo da justiça socioambiental, busca fortalecer o debate público que alie a defesa do meio ambiente com a garantia dos direitos dos povos do campo e da floresta.

