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Mais da metade das capitais brasileiras não tem plano de adaptação climática

Período chuvoso intenso expõe despreparo de grandes metrópoles do Brasil para lidar com eventos climáticos extremos e clima cada vez mais imprevisível.

Por Lucas Guaraldo e Nikole Cantoara*

Grandes cidades brasileiras estão despreparadas para lidar com um clima cada vez mais imprevisível e extremo, impulsionado pelas mudanças climáticas, afirma Jarlene Gomes, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). Segundo dados do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), mesmo com volumes de chuva abaixo da média, o período chuvoso entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 tem provocado alagamentos, deslizamentos de terra e apagões em grandes centros urbanos.
 

“Das 27 capitais do Brasil, 15 não possuem planos de adaptação e mitigação climática. O que existem são ações emergenciais em resposta a desastres, mas faltam medidas preventivas capazes de reduzir riscos futuros. É necessário um enfoque maior em políticas estruturantes, implementadas antes que os desastres ocorram, e que incluam a proteção da vegetação nativa, a criação de corredores verdes e a preservação de áreas de proteção permanente. Esses mecanismos funcionam como uma ‘esponja natural’, ajudando a regular o microclima, absorver a água da chuva e reduzir extremos”, destaca Jarlene Gomes, que também é uma das autoras do Plano de Adaptação Municipal de Rio Branco, no Acre.


Das nove capitais da Amazônia Legal, apenas Rio Branco possui plano de adaptação climática. Em 2023 e 2024, a região enfrentou secas históricas, que favoreceram a ocorrência de queimadas de grandes proporções, mantiveram cidades cobertas de fumaça e ar tóxico por semanas consecutivas e dificultaram o acesso a áreas remotas do bioma.
 

Em Manaus, a maior capital brasileira sem um plano de adaptação, mais de 112 mil pessoas vivem em áreas sujeitas a deslizamentos ou alagamentos, segundo levantamento do SGB (Serviço Geológico do Brasil). Já em Belém, sede da COP30, cuja agenda destacou a adaptação climática, o SGB aponta que 10% da população reside em áreas sob risco de inundação.
 

Custo da inação
 

Segundo levantamento realizado pelo IPAM em parceria com pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido; da Universidade de Cuenca, no Equador; da Universidade Federal do Acre; da Fundación Innova, de Santa Cruz de la Sierra; e da Universidade de Stony Brook, nos Estados Unidos, entre 2013 e 2023 mais de 12 mil eventos climáticos extremos foram reportados na Amazônia continental — área que inclui o território internacional do bioma. As catástrofes afetaram mais de 3 milhões de pessoas e danificaram mais de 100 mil estruturas de infraestrutura.
 

Na Amazônia brasileira, eventos climáticos extremos como inundações e secas prolongadas também agravam as vulnerabilidades sociais e ameaçam a sociobiodiversidade da região. Conforme dados do IPAM publicados no policy brief “Acelerando Estratégias de Adaptação Equitativa na Amazônia em Meio às Mudanças Climáticas”, os prejuízos causados pelo clima na região chegam a R$ 3 bilhões por ano, um aumento de 370% em comparação ao impacto registrado no início do século. No mesmo período, a ocorrência de inundações e deslizamentos de terra associados às chuvas também triplicou.
 

“As estratégias de adaptação têm um custo financeiro e exigem a mobilização de estruturas de governança e monitoramento. Mas, quando se compara esse custo com o dos desastres e seus desdobramentos, vemos que o investimento em adaptação ainda é muito baixo diante dos benefícios que pode gerar”, afirma Patrícia Pinho, diretora de Pesquisa do IPAM.
 

Além do impacto econômico crescente, o estudo destaca que os eventos climáticos extremos atuam como “multiplicadores de pobreza”, provocando impactos principalmente na infraestrutura e nas moradias. Os municípios pequenos da Amazônia, que também concentram grande parte dos povos indígenas e comunidades tradicionais, estão entre os mais afetados e são justamente os que dispõem de menos recursos para lidar com os efeitos de chuvas intensas e secas severas.
 

Desastres anunciados
 

A existência de um plano desatualizado ou sem aplicação efetiva também não garante segurança diante das mudanças climáticas. Em São Paulo, cidade que possui um plano de adaptação desde 2021, as chuvas no início do ano deixaram quatro mortos, causaram apagões e apagões e levaram à interdição de rodovias.

Apesar dos episódios de precipitação intensa na capital, o desequilíbrio climático no Estado também tem levado os reservatórios que abastecem a região metropolitana a enfrentarem uma seca histórica, com previsão de racionamento de água.
 

“Em São Paulo, houve dias com volumes acima de 50 milímetros e até próximos de 100 milímetros em apenas 24 horas. A chuva cai de forma concentrada e localizada, o que sobrecarrega o sistema de drenagem e não contribui de maneira eficiente para a recuperação dos reservatórios, pois não se distribui de forma uniforme pelo território”, explica Glauber Willian, meteorologista do INMET.
 

Em Minas Gerais, uma tempestade na madrugada de terça-feira (24) deixou ao menos 72 mortos e mais de 8.500 desabrigados na Zona da MataA verba destinada à prevenção dos impactos das chuvas no Estado caiu em 95% desde 2023, chegando a apenas R$ 5,8 milhões em 2025, segundo apuração do UOL.

Em Belo Horizonte, que também conta com um plano de adaptação, o volume de chuvas superou em 230% a média histórica, provocando alagamentos, interdições de vias e a emissão de alerta para enxurradas e deslizamentos.
 

“Se analisarmos desde o início da estação chuvosa, o acumulado na região Centro-Sul do Brasil está até abaixo da média. Uma ou outra área pode registrar índices ligeiramente superiores, mas, de forma geral, a estação tem sido deficitária, especialmente no Sudeste e no Centro-Oeste. Há, porém, uma característica que se espera diante das mudanças climáticas: a redução da média de precipitação ao longo da estação, intercalada por episódios pontuais de chuvas intensas. Foi exatamente o que ocorreu neste ano”, detalha Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).


Futuro incerto
 

O início do período chuvoso no Brasil também foi marcado pela influência de uma La Niña de intensidade branda, que provocou chuvas acima da média em áreas da Região Norte e uma temporada mais seca no Sul do país. As tempestades de grande volume, responsáveis por desastres recentes, também contaram com a atuação de outros fenômenos meteorológicos clássicos, como zonas de convergência e vórtices ciclônicos, que concentram a precipitação em determinadas regiões, além de uma atmosfera mais aquecida, capaz de reter maior quantidade de umidade e liberá-la na forma de chuvas intensas e de curta duração.
 

“O aquecimento global não cria novos sistemas atmosféricos, mas altera a intensidade, a frequência e a previsibilidade daqueles que já existem. O clima passa por um processo de ajuste, e os referenciais históricos nem sempre são suficientes para explicar o que está acontecendo hoje. Os últimos anos foram os mais quentes já registrados no planeta, e isso afeta desde a circulação atmosférica até a forma como a chuva se organiza no tempo e no espaço”, alerta Glauber.

Com o aquecimento natural das águas do Pacífico, os efeitos da La Niña no Brasil têm perdido força, e cientistas preveem uma transição para um El Niño intenso ainda no final do ano. O último El Niño, que atingiu seu pico no início de 2024, contribuiu para as temperaturas recordes registradas naquele ano, além de estar associado às secas na Amazônia e às chuvas extremas no Rio Grande do Sul, em 2023, que deixaram 183 mortos e 5 mil desabrigados. Com o oceano Pacífico mais quente do que a média em razão das mudanças climáticas, o El Niño tende a ganhar intensidade, ampliando seus impactos.

“Com eventos climáticos cada vez mais instáveis, marcados por secas prolongadas e chuvas intensas concentradas, é urgente fortalecer as governanças territoriais com base em instrumentos já consolidados. A implementação efetiva do Código Florestal, por exemplo, deve ser compreendida como parte da estratégia de gestão de riscos climáticos. A proteção e a recomposição da vegetação nativa, especialmente em Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais, funcionam como infraestrutura natural capaz de regular o ciclo hidrológico, reduzir enchentes, conter processos erosivos e aumentar a resiliência das paisagens. Neste contexto, cumprir o Código Florestal não é apenas uma exigência legal, mas uma medida de adaptação socioambiental frente aos impactos climáticos “, reforça Jarlene.

A pesquisadora também aponta a necessidade de investimento em sistemas de alerta e infraestrutura, revisão dos planos diretores, aprimoramento do planejamento territorial e reforço das políticas públicas de regularização fundiária.

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